-- - -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -Jornal do Commercio - Recife, 12 de julho de 1998

SECA
Sobreviventes da seca vivem drama em PE

por EMANUEL ANDRADE
Da Sucursal de Petrolina

LAGOA GRANDE - A seca que castiga o Sertão do Ceará expulsou o casal de agricultores José Ferreira de Andrade, 54, e Luzia Ferreira Araújo, 42, da zona rural de Iguatu - município localizado a cerca de 400 quilômetros de Fortaleza -, onde não chove, há pelo menos, um ano e meio. Não agüentando mais ver os três filhos menores passando fome, há cerca de um ano, os dois decidiram arrumar a pouca bagagem que tinham e cair na estrada numa carroça puxada por dois jegues. Sem destino, o casal percorreu mais de mil quilômetros a pé e parou, nesta última semana, no distrito de Vermelhos, no município de Lagoa Grande (a aproximadamente 640 quilômetros do Recife), no Sertão do São Francisco. Detalhe: sem os filhos e um dos animais. Maria Ferreira, de 1 ano, e Fernando Ferreira, 2 anos, morreram de fome durante a viagem.

"Os bichinhos não agüentaram a fraqueza no corpo e se foram, desnutridos", lamenta "Seu" José, quase sem voz e muito nervoso. Os dois estão instalados num casebre situado numa área ocupada por trabalhadores sem-terra, em Lagoa Grande. Sem conseguir articular as palavras ordenadamente, o retirante não lembra onde enterrou as crianças. Só sabe que foi antes de entrar em Pernambuco. Ao chegar no município de Santa Maria da Boa Vista, a outra filha, Rosália Andrade, 13, não prosseguiu viagem. Ficou com um desconhecido na promessa de um futuro casamento e uma vida melhor. Revoltada, a mãe argumenta não saber por que a filha tomou a decisão de ficar com um homem que viu, apenas uma vez, numa borracharia.

"Mas ela logo vai estar aqui para ficar com a gente, com a fé de nosso Senhor", diz Luzia, enquanto mexe, numa panela com água, o último feijão que ganhou de voluntários durante a viagem. O marido esbraveja que a filha não vem mais e que a esposa está ficando "maluca". Irritado, José Ferreira, pede para não ser fotografado pela reportagem, achando que a máquina "é coisa da polícia".

"Seu" José conta que quando resolveu cair na estrada, além dos filhos, as únicas coisas de valor que possuía eram os animais, vendidos ao longo da viagem para comprar comida e remédios. Vendeu um dos jegues, por menos de R$ 50,00, quando ainda estava em território cearense. "Em cada lugar pequeno onde a gente chegava, pedia esmolas, mas nem sempre conseguia porque muita gente também estava passando necessidades", lembra o agricultor, que diz já ter possuído uma pequena propriedade no interior do Ceará onde cultivava a roça junto com a família e mantinha algumas cabeças de gado. "Tudo foi perdido com a seca", lamenta ele.

ESTIMAÇÃO - Datas exatas de quando saíram do Ceará, nomes de parentes e de lugares por onde passaram, os dois não conseguem se lembrar. Chegam a dizer que pretendiam chegar a Teresina, no Piauí, e, depois, a São Luiz do Maranhão. De acordo com o agricultor, quando vivia numa roça arrendada por um conhecido, tinha mais de 50 cabeças de gado. Muitas foram roubadas e outras morreram por falta de água e de pasto. O casal enfatiza que prefere morrer em qualquer lugar do mundo a voltar para o Ceará.

Ao chegar no distrito de Vermelhos, em Lagoa Grande, José Ferreira acabou batendo na porta de um dos coordenadores do MST na região, Adauto Nogueira, para pedir esmola. Contou sua trágica história e acabou ganhando abrigo numa pequena casa de taipa abandonada no lugarejo. Por trás do casebre fica o jegue que sobrou, animal de estimação que ele vigia a todo instante. A mulher aproveita os arames farpados da cerca para estender as menos de dez peças de roupas do casal.

"Estamos mobilizando a comunidade para ajudá-los com alimentos e remédios, depois pretendemos colocar o casal em um dos acampamento da região", afirma Adauto Nogueira, acrescentando que, o pouco que conseguiu conversar com o retirante deu-lhe a impressão de que o flagelo da seca o deixou desnorteado, com sérios problemas de saúde e mentais. Ele disse que a direção do MST está tentando, junto à Prefeitura de Lagoa Grande, conseguir assistência médica para José e Luíza. Se os dois aceitarem serão aceitos num dos acampamentos de sem-terra da região.

 
 

 

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