SECA
Sobreviventes
da seca vivem drama em PEpor EMANUEL ANDRADE
Da Sucursal de Petrolina
LAGOA GRANDE
- A seca que castiga o
Sertão do Ceará expulsou o
casal de agricultores José
Ferreira de Andrade, 54, e Luzia
Ferreira Araújo, 42, da zona
rural de Iguatu - município
localizado a cerca de 400
quilômetros de Fortaleza -, onde
não chove, há pelo menos, um
ano e meio. Não agüentando mais
ver os três filhos menores
passando fome, há cerca de um
ano, os dois decidiram arrumar a
pouca bagagem que tinham e cair
na estrada numa carroça puxada
por dois jegues. Sem destino, o
casal percorreu mais de mil
quilômetros a pé e parou, nesta
última semana, no distrito de
Vermelhos, no município de Lagoa
Grande (a aproximadamente 640
quilômetros do Recife), no
Sertão do São Francisco.
Detalhe: sem os filhos e um dos
animais. Maria Ferreira, de 1
ano, e Fernando Ferreira, 2 anos,
morreram de fome durante a
viagem.
"Os
bichinhos não agüentaram a
fraqueza no corpo e se foram,
desnutridos", lamenta
"Seu" José, quase sem
voz e muito nervoso. Os dois
estão instalados num casebre
situado numa área ocupada por
trabalhadores sem-terra, em Lagoa
Grande. Sem conseguir articular
as palavras ordenadamente, o
retirante não lembra onde
enterrou as crianças. Só sabe
que foi antes de entrar em
Pernambuco. Ao chegar no
município de Santa Maria da Boa
Vista, a outra filha, Rosália
Andrade, 13, não prosseguiu
viagem. Ficou com um desconhecido
na promessa de um futuro
casamento e uma vida melhor.
Revoltada, a mãe argumenta não
saber por que a filha tomou a
decisão de ficar com um homem
que viu, apenas uma vez, numa
borracharia.
"Mas ela
logo vai estar aqui para ficar
com a gente, com a fé de nosso
Senhor", diz Luzia, enquanto
mexe, numa panela com água, o
último feijão que ganhou de
voluntários durante a viagem. O
marido esbraveja que a filha não
vem mais e que a esposa está
ficando "maluca".
Irritado, José Ferreira, pede
para não ser fotografado pela
reportagem, achando que a
máquina "é coisa da
polícia".
"Seu"
José conta que quando resolveu
cair na estrada, além dos
filhos, as únicas coisas de
valor que possuía eram os
animais, vendidos ao longo da
viagem para comprar comida e
remédios. Vendeu um dos jegues,
por menos de R$ 50,00, quando
ainda estava em território
cearense. "Em cada lugar
pequeno onde a gente chegava,
pedia esmolas, mas nem sempre
conseguia porque muita gente
também estava passando
necessidades", lembra o
agricultor, que diz já ter
possuído uma pequena propriedade
no interior do Ceará onde
cultivava a roça junto com a
família e mantinha algumas
cabeças de gado. "Tudo foi
perdido com a seca", lamenta
ele.
ESTIMAÇÃO -
Datas exatas de quando saíram do
Ceará, nomes de parentes e de
lugares por onde passaram, os
dois não conseguem se lembrar.
Chegam a dizer que pretendiam
chegar a Teresina, no Piauí, e,
depois, a São Luiz do Maranhão.
De acordo com o agricultor,
quando vivia numa roça arrendada
por um conhecido, tinha mais de
50 cabeças de gado. Muitas foram
roubadas e outras morreram por
falta de água e de pasto. O
casal enfatiza que prefere morrer
em qualquer lugar do mundo a
voltar para o Ceará.
Ao chegar no
distrito de Vermelhos, em Lagoa
Grande, José Ferreira acabou
batendo na porta de um dos
coordenadores do MST na região,
Adauto Nogueira, para pedir
esmola. Contou sua trágica
história e acabou ganhando
abrigo numa pequena casa de taipa
abandonada no lugarejo. Por trás
do casebre fica o jegue que
sobrou, animal de estimação que
ele vigia a todo instante. A
mulher aproveita os arames
farpados da cerca para estender
as menos de dez peças de roupas
do casal.
"Estamos
mobilizando a comunidade para
ajudá-los com alimentos e
remédios, depois pretendemos
colocar o casal em um dos
acampamento da região",
afirma Adauto Nogueira,
acrescentando que, o pouco que
conseguiu conversar com o
retirante deu-lhe a impressão de
que o flagelo da seca o deixou
desnorteado, com sérios
problemas de saúde e mentais.
Ele disse que a direção do MST
está tentando, junto à
Prefeitura de Lagoa Grande,
conseguir assistência médica
para José e Luíza. Se os dois
aceitarem serão aceitos num dos
acampamentos de sem-terra da
região.