- - - -- - - - - - - - - - - -- - - - - - - - --Jornal do Commercio - Recife, 09 de julho de 1998

AMAZONAS
Um espetáculo de puro folclore

por BIANCA NEGROMONTE
Subeditora de Economia

A floresta amazônica reserva mais mistérios e surpresas do que pode imaginar o mais desavisado viajante. Mais difícil mesmo é imaginar que a 420 quilômetros de Manaus se possa encontrar um espetáculo grandioso e apaixonante como o Festival Folclórico de Parintins, ainda mais autêntico e impressionante que o desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro.

O evento só acontece uma vez por ano, de 28 a 30 de junho, mas isso não é motivo para adiar sua ida a Parintins. A cidade vive o ano todo em função dos bois Garantido, o vermelho, e Caprichoso, o azul. Os moradores realizam, sempre nos finais de semana, os ensaios das músicas e do aeroboi, a coreografia que vai ser apresentada na grande arena, o bumbódromo, construída na forma de uma cabeça de boi.

Uma das músicas do Garantido diz que "em Parintins você vai ver o que é amor". A promessa dos versos é cumprida a risca. Os bois são quase uma religião para a população de 80 mil pessoas, que passa o ano inteiro trabalhando, promovendo as festas para levantar os recursos necessários para a realização do Festival, com orçamento médio de R$ 2 milhões, cada boi. Mas o esforço vale a pena, pois desemboca num festival de tirar o fôlego. Cada noite traz um espetáculo diferente, que atrai cerca de 40 mil pessoas por noite. Nenhuma fantasia, ritual ou enredo se repete.

Tanto o Caprichoso, que venceu o festival deste ano, como o Garantido, foram criados a 85 anos e cresceram num clima saboroso de rivalidade. A fidelidade ao boi é tão grande que os integrantes nem sequer pronunciam o nome do concorrente, chamam de "o contrário". Nos desfiles, as regras são rigorosas, se a torcida se retirar ou vaiar quando o adversário estiver na arena, corre o risco de perder ponto ou até mesmo desclassificar seu boi. Por isso, é divertido ver os contrários totalmente em silêncio e impassíveis como se nada estivesse acontecendo, enquanto o outro boi desfila e leva a outra metade da arena ao delírio.

Mas uma coisa é certa. Chegando em Parintins é preciso tomar partido. Não dá para ser neutro, a magia dos bois exige, até mesmo dos turistas, fidelidade. Ou se é Garantido ou Caprichoso. Quando se trata da lenda do Boi-Bumbá não há meio termo. Depois de descobrir a quem o seu "coração" pertence, não deixe de visitar o "curral" do boi, local onde são realizados os ensaios da Batucada (bateria do Garantido) ou da Marujada de Guerra (bateria do Caprichoso). E se você está disposto a correr riscos, tente conhecer um QG, o Quartel-General, onde são confeccionadas as alegorias de cada Bumbá. O mistério em torno das fantasias é tão grande que os QGs são guardados por vigilantes, 24 horas por dia, para evitar espiões do contrário.

AVENTURA - Mas Parintins reserva outros encantos para os visitantes. A cidade está localizada na Ilha Tupinambarana, margem direita do Rio Amazonas, é horizontal e possui um casario simples e de vivo colorido (é claro que o azul e o vermelho predominam), que expressa a ingenuidade do povo hospitaleiro e de sorriso largo.

Um dos pontos fortes da cultura local é, claro, o artesanato indígena, feito de madeira, raízes de árvores, cipós, palhas, sementes, fibras naturais e penas artificiais. Na época da "festa do boi" e nos ensaios do final de semana é comum encontrar os moradores usando belos cocares. É que a popularização do Festival Folclórico resgatou o orgulho das origens indígenas.

Parintins é perfeita para quem quer navegar pelo Rio Amazonas, ver botos cor-de-rosa, garças, ou se aventurar pela selva. A Serra de Parintins, uma formação de 152 metros de altitude por onde se estende o lago Valéria, é uma das atrações para quem quer conhecer a vegetação local e é ideal para os adeptos da pesca artesanal.

De abril a maio pode-se assistir a pescaria de arribação, quando cardumes de jaraquis, curimatãs, pacús, descem o rio e se deparam com dezenas de pescadores nativos. As ruínas da Vila Amazônia são atração a parte. Elas resultam da migração japonesa para a região, atraída pelo cultivo e produção de juta no Amazonas da década de 30.

Conta a lenda que quem beber das águas do Lago Macurany, vai voltar sempre a Parintins. Mas depois de conhecer a magia dos bois é impossível não sonhar em rever a ópera dos Bumbás.

* Viajou a convite da Coca-Cola

 
     

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