AMAZONAS
Um
espetáculo de puro folclorepor BIANCA NEGROMONTE
Subeditora de Economia
A floresta
amazônica reserva mais
mistérios e surpresas do que
pode imaginar o mais desavisado
viajante. Mais difícil mesmo é
imaginar que a 420 quilômetros
de Manaus se possa encontrar um
espetáculo grandioso e
apaixonante como o Festival
Folclórico de Parintins, ainda
mais autêntico e impressionante
que o desfile das escolas de
samba do Rio de Janeiro.
O evento só
acontece uma vez por ano, de 28 a
30 de junho, mas isso não é
motivo para adiar sua ida a
Parintins. A cidade vive o ano
todo em função dos bois
Garantido, o vermelho, e
Caprichoso, o azul. Os moradores
realizam, sempre nos finais de
semana, os ensaios das músicas e
do aeroboi, a coreografia que vai
ser apresentada na grande arena,
o bumbódromo, construída na
forma de uma cabeça de boi.
Uma das
músicas do Garantido diz que
"em Parintins você vai ver
o que é amor". A promessa
dos versos é cumprida a risca.
Os bois são quase uma religião
para a população de 80 mil
pessoas, que passa o ano inteiro
trabalhando, promovendo as festas
para levantar os recursos
necessários para a realização
do Festival, com orçamento
médio de R$ 2 milhões, cada
boi. Mas o esforço vale a pena,
pois desemboca num festival de
tirar o fôlego. Cada noite traz
um espetáculo diferente, que
atrai cerca de 40 mil pessoas por
noite. Nenhuma fantasia, ritual
ou enredo se repete.
Tanto o
Caprichoso, que venceu o festival
deste ano, como o Garantido,
foram criados a 85 anos e
cresceram num clima saboroso de
rivalidade. A fidelidade ao boi
é tão grande que os integrantes
nem sequer pronunciam o nome do
concorrente, chamam de "o
contrário". Nos desfiles,
as regras são rigorosas, se a
torcida se retirar ou vaiar
quando o adversário estiver na
arena, corre o risco de perder
ponto ou até mesmo
desclassificar seu boi. Por isso,
é divertido ver os contrários
totalmente em silêncio e
impassíveis como se nada
estivesse acontecendo, enquanto o
outro boi desfila e leva a outra
metade da arena ao delírio.
Mas uma coisa
é certa. Chegando em Parintins
é preciso tomar partido. Não
dá para ser neutro, a magia dos
bois exige, até mesmo dos
turistas, fidelidade. Ou se é
Garantido ou Caprichoso. Quando
se trata da lenda do Boi-Bumbá
não há meio termo. Depois de
descobrir a quem o seu
"coração" pertence,
não deixe de visitar o
"curral" do boi, local
onde são realizados os ensaios
da Batucada (bateria do
Garantido) ou da Marujada de
Guerra (bateria do Caprichoso). E
se você está disposto a correr
riscos, tente conhecer um QG, o
Quartel-General, onde são
confeccionadas as alegorias de
cada Bumbá. O mistério em torno
das fantasias é tão grande que
os QGs são guardados por
vigilantes, 24 horas por dia,
para evitar espiões do
contrário.
AVENTURA -
Mas Parintins reserva outros
encantos para os visitantes. A
cidade está localizada na Ilha
Tupinambarana, margem direita do
Rio Amazonas, é horizontal e
possui um casario simples e de
vivo colorido (é claro que o
azul e o vermelho predominam),
que expressa a ingenuidade do
povo hospitaleiro e de sorriso
largo.
Um dos pontos
fortes da cultura local é,
claro, o artesanato indígena,
feito de madeira, raízes de
árvores, cipós, palhas,
sementes, fibras naturais e penas
artificiais. Na época da
"festa do boi" e nos
ensaios do final de semana é
comum encontrar os moradores
usando belos cocares. É que a
popularização do Festival
Folclórico resgatou o orgulho
das origens indígenas.
Parintins é
perfeita para quem quer navegar
pelo Rio Amazonas, ver botos
cor-de-rosa, garças, ou se
aventurar pela selva. A Serra de
Parintins, uma formação de 152
metros de altitude por onde se
estende o lago Valéria, é uma
das atrações para quem quer
conhecer a vegetação local e é
ideal para os adeptos da pesca
artesanal.
De abril a maio
pode-se assistir a pescaria de
arribação, quando cardumes de
jaraquis, curimatãs, pacús,
descem o rio e se deparam com
dezenas de pescadores nativos. As
ruínas da Vila Amazônia são
atração a parte. Elas resultam
da migração japonesa para a
região, atraída pelo cultivo e
produção de juta no Amazonas da
década de 30.
Conta a lenda
que quem beber das águas do Lago
Macurany, vai voltar sempre a
Parintins. Mas depois de conhecer
a magia dos bois é impossível
não sonhar em rever a ópera dos
Bumbás.
* Viajou a
convite da Coca-Cola