ARTIGO
Historinha
bonita
por FERNANDO
ANTÔNIO GONÇALVES
A querida Maria
Gildina de Santana Roriz, uma
amiga notável de Goiânia,
advogada de primeira qualidade e
integrante dos quadros mais
representativos da elite
intelectual daquela capital, vez
por outra me envia umas cartas
contendo histórias encantadoras.
De uma delas, extraí a história
abaixo, acrescentando alguns
retoques, deixando-a mais
condizente com a nossa cultura
regional. Ei-la:
"A cada
meio-dia, um pobre velho
sertanejo entrava na Matriz,
situada na praça principal da
cidade, saindo rapidamente poucos
segundos depois. Suas idas e
vindas despertaram a atenção de
um fuxicoso sacristão que um
dia, sem muito lero-Iero,
perguntou-lhe de sopetão, à
saída do templo:
- O que danado
você vem fazer aqui na igreja,
meu bom velho, entrando e saindo
tão rapidamente, todos os dias?
- Venho rezar,
respondeu o velhinho, sem
pestanejar.
- Mas é muito
estranha essa forma sua de rezar,
retrucou o xeleléu do pároco.
Não acredito que você reze tão
rapidamente assim, me parecendo
que você está de olho é
naquelas pratarias que se
encontram em cima do altar
principal da matriz e que custam
um dinheirão.
- É muito
fácil de explicar amigo. Na
verdade, eu não sei recitar
aquelas orações compridonas,
que se encontram nos livros bem
encadernados dos bem situados.
Por isso todo santo dia eu entro
na igreja e só digo "Oi,
Jesus, é o Zé". E num
minuto já estou de saída,
voltando para a minha carrocinha
de vender mariola. É só uma
frase bem curtinha, mas tenho
certeza que Ele me escuta.
Alguns dias
depois, o velho Zé sofreu um
acidente e foi internado num
hospital beneficente. Na
enfermaria, durante a sua
permanência, passou a exercer
uma grande influência sobre
todos, conquistando-os pela sua
simpatia e imensa fidelidade aos
ensinamentos do Homem de Nazaré.
Os doentes mais tristes
tornaram-se bem mais alegres e
muitas risadas foram ouvidas,
transformando o ambiente triste
de quase toda enfermaria num
local onde uma fraternidade sem
pieguismos grassava por todos os
recantos.
- Zé,
disse-lhe a irmã mais nova
quando da visita semanal, os
outros doentes estão dizendo que
foi você quem mudou tudo, aqui
na enfermaria. Eles dizem que
você está sempre muito alegre e
de bem com a Vida.
- Verdade
verdadeira, maninha. Estou sempre
muito alegre. É por causa de uma
visita que recebo todo finzinho
de manhã. E ela me faz muito
feliz, me deixando sempre com uma
vontade danada de quero-mais.
A irmã ficou
curiosa ansiosa para saber quem
seria a tal visita, a tal que
deixava o seu irmão em tão alto
astral. Já tinha até notado que
a cadeira encostada na cama do
Zé estava sempre vazia, embora
muito bem limpa. O Zé era um
velho solitário, sem ninguém,
há muito tempo viúvo sem
filhos.
- Que visita
importante é essa, Zé? A que
horas ela vem?
- Ela vem todos
os dias, mana, respondeu Zé, com
um brilho diferente nos olhos.
Todos os dias, sempre no finzinho
da manhã, por volta do meio-dia,
ela chega de mansinho, fica em
pé perto da cama e do meu rosto,
passa a mão nos meus cabelos,
sorri pra mim, e diz de um jeito
bem maneiro:
- Oi, Zé. É
Jesus. Tás melhor?
- E eu respondo
que tou sempre ótimo,
sentindo-me feliz, bem pertinho
d'Ele".
PS. Para o meu
muito querido irmão Hélder
Câmara, igualzinho ao Zé, que
está mostrando ao mundo, pela
lnternet -
http://www.domhelder.com.br - a
melhor maneira de receber uma
visita d'Ele.
*Fernando
Antônio Gonçalves, da UBE-PE,
é professor universitário e
pesquisador social
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