- - - - -- - - - - - - -- - - - - - - - Jornal do Commercio - Recife, 12 de setembro de 1998

MÚSICA
Arnaldo Antunes mais pop em Um Som

por JOSÉ TELES

Um Som (BMG), quarto disco solo de Arnaldo Antunes, vem sendo considerado o trabalho mais acessível deste artista que já foi integrante de um dos grupos mais bem sucedidos da história do rock nacional - os Titãs. Nos seus CDs anteriores (Nome, de 93; Ninguém, 95 e O Silêncio, de 96), na maioria das faixas, o poeta sobrepunha-se ao músico, aparecia mais a obsessão pelo burilamento da palavra do que a melodia. Em Um Som ele se aproxima mais do pop/rock, mas sem concessões ao fácil. Regrava Volte Para o Seu Lar (cantada por Marisa Monte), Socorro (co-assinada com Alice Ruiz e gravada por Cassia Eller), faz uma versão de um reggae de Junior Murvin (dos Wailers), e grava uma composição inédita de Cassiano, que chegou a registra-la para um disco que nunca foi lançado (a canção foi descoberta nos arquivos da EMI, por Marisa Monte).

Arnaldo Antunes, em entrevista por telefone, diz que gosta que seu novo álbum seja visto desta maneira, mas faz uma ressalva: "Meu trabalho sempre foi pop. Sempre fiz música popular para tocar no rádio." Música, feita com Edgar Scandurra, é a faixa que está tocando no rádio, dela também será feito um clipe. Mas esta não é a única canção passível de tornar-se sucesso. Um Som tem pelo menos outras cinco que são hits em potencial: "Também não nego que este o meu disco melhor resolvido na forma da sonoridade. Isto se deve muito ao produtor Chico Feitosa, que é uma pessoa que entende muito de estúdio, tem uma pesquisa sonora de estúdio que é muito rica."

A esta pesquisa sonora, acrescente-se uma banda azeitada, que vem tocando com Arnaldo Antunes desde 1994 (Edgard Scandurra, guitarra e vocais, Paulo Tatit, baixo e vocais, Pedro Ito, bateria e Zaba Moreau, teclado,samplers e vocais). À banda juntou-se um time de músicos que vão do próprio Chico Neves a Marcos Suzano, David Moraes, Moreno Veloso e Saadet Türkoz, cantora de origem oriental que vive na Suíça. Antunes a conheceu num festival na Áustria, calhou de ela estar em São Paulo durante as gravações de Um Som: "Ela acabou cantando em duas músicas, Um Som e Além Alma".

Embora bem mais melódico dos os álbuns anteriores, neste novo CD Arnaldo Antunes não abandonou sua exploração das possibilidades das palavras, os versos econômicos. Mal comparando é como se de repente João Cabral desse uma guinada para o pop se tomasse de inesperado amor pela música: "As letras são uma coisa que acabo prezando no meu trabalho, como uma síntese. Gosto de tratar a linguagem como se fosse um jogo de montagem. Mas isto de dar-se importância à letra não é nenhuma grande novidade. Porque a música brasileira tem uma tradição textual muito sofisticada".

INFLUÊNCIAS - O som do disco é aparentemente básico, tem muita guitarra elétrica e acústica, mas prestando-se atenção há toda uma gama de timbres, muitos deles colocados de forma sutil. Sente-se que Arnaldo Antunes depois de influenciar uma geração de músicos, sobretudo pelo seu trabalho nos tempos dos Titãs, acabou sendo influenciado pela nova guarda da MPB.

Uma das faixas, Quase Tudo (parceria com Péricles Cavalcanti) é um baião, com acordeon, zabumba, e efeitos programados, não estaria deslocada num álbum de algum grupo da cena mangue: "Neste disco não tem nada que eu possa apontar como uma influência específica, mas ouço muita música e de tudo que a gente escuta sempre fica alguma coisa. Gosto muito da música que se faz no Recife, gosto do Mundo Livre, me sinto próximo da linguagem deles. Mas as semelhanças que possam haver são coincidências".

E a poesia? O último livro de poemas lançado por Arnaldo Antunes foi Dois Ou Mais Corpos No Mesmo Espaço (editora Perspectiva, 1997), que inclusive trazia um CD bônus: "Aquele disco na verdade é um projeto específico da área da poesia, gravado só com vozes, não voltado para a coisa da canção. Minha poesia está meio parada. Desde do último livro venho me dedicando a este disco, as composições, as gravações, e agora os ensaios para os shows". Mas a poesia de Antunes não está assim tão separada de sua música.

Neste disco duas faixas, As Árvores e Dinheiro, são poemas extraídos do seu livro As Coisas (de 1992). Ele conta que já estava praticamente com o repertório do CD fechado quando recebeu um presente do sempre imprevisível Jorge Ben Jor: uma fita cassete com sete poemas de As Coisas musicados por ele. Antunes gostou da parceria involuntária e incluiu as duas no disco.

O show Um Som estréia agora em outubro, no Rio. Os fãs dos Titãs certamente serão maioria entre a platéia. Saído do grupo em 92 (embora mantenha um ótimo relacionamento com a banda, neste disco, por exemplo, tem parcerias com Nando Reis e Paulo Miklos), ele ainda é cultuado como um Titã: "Lido bem com isto, afinal a informação no Brasil é muito lenta. Tem gente que ainda nem sabe que eu sai dos Titãs".


     

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