MÚSICA
Arnaldo
Antunes mais pop em Um Sompor JOSÉ TELES
Um Som (BMG),
quarto disco solo de Arnaldo
Antunes, vem sendo considerado o
trabalho mais acessível deste
artista que já foi integrante de
um dos grupos mais bem sucedidos
da história do rock nacional -
os Titãs. Nos seus CDs
anteriores (Nome, de 93;
Ninguém, 95 e O Silêncio, de
96), na maioria das faixas, o
poeta sobrepunha-se ao músico,
aparecia mais a obsessão pelo
burilamento da palavra do que a
melodia. Em Um Som ele se
aproxima mais do pop/rock, mas
sem concessões ao fácil.
Regrava Volte Para o Seu Lar
(cantada por Marisa Monte),
Socorro (co-assinada com Alice
Ruiz e gravada por Cassia Eller),
faz uma versão de um reggae de
Junior Murvin (dos Wailers), e
grava uma composição inédita
de Cassiano, que chegou a
registra-la para um disco que
nunca foi lançado (a canção
foi descoberta nos arquivos da
EMI, por Marisa Monte).
Arnaldo
Antunes, em entrevista por
telefone, diz que gosta que seu
novo álbum seja visto desta
maneira, mas faz uma ressalva:
"Meu trabalho sempre foi
pop. Sempre fiz música popular
para tocar no rádio."
Música, feita com Edgar
Scandurra, é a faixa que está
tocando no rádio, dela também
será feito um clipe. Mas esta
não é a única canção
passível de tornar-se sucesso.
Um Som tem pelo menos outras
cinco que são hits em potencial:
"Também não nego que este
o meu disco melhor resolvido na
forma da sonoridade. Isto se deve
muito ao produtor Chico Feitosa,
que é uma pessoa que entende
muito de estúdio, tem uma
pesquisa sonora de estúdio que
é muito rica."
A esta pesquisa
sonora, acrescente-se uma banda
azeitada, que vem tocando com
Arnaldo Antunes desde 1994
(Edgard Scandurra, guitarra e
vocais, Paulo Tatit, baixo e
vocais, Pedro Ito, bateria e Zaba
Moreau, teclado,samplers e
vocais). À banda juntou-se um
time de músicos que vão do
próprio Chico Neves a Marcos
Suzano, David Moraes, Moreno
Veloso e Saadet Türkoz, cantora
de origem oriental que vive na
Suíça. Antunes a conheceu num
festival na Áustria, calhou de
ela estar em São Paulo durante
as gravações de Um Som:
"Ela acabou cantando em duas
músicas, Um Som e Além
Alma".
Embora bem mais
melódico dos os álbuns
anteriores, neste novo CD Arnaldo
Antunes não abandonou sua
exploração das possibilidades
das palavras, os versos
econômicos. Mal comparando é
como se de repente João Cabral
desse uma guinada para o pop se
tomasse de inesperado amor pela
música: "As letras são uma
coisa que acabo prezando no meu
trabalho, como uma síntese.
Gosto de tratar a linguagem como
se fosse um jogo de montagem. Mas
isto de dar-se importância à
letra não é nenhuma grande
novidade. Porque a música
brasileira tem uma tradição
textual muito sofisticada".
INFLUÊNCIAS
- O som do disco é
aparentemente básico, tem muita
guitarra elétrica e acústica,
mas prestando-se atenção há
toda uma gama de timbres, muitos
deles colocados de forma sutil.
Sente-se que Arnaldo Antunes
depois de influenciar uma
geração de músicos, sobretudo
pelo seu trabalho nos tempos dos
Titãs, acabou sendo influenciado
pela nova guarda da MPB.
Uma das faixas,
Quase Tudo (parceria com
Péricles Cavalcanti) é um
baião, com acordeon, zabumba, e
efeitos programados, não estaria
deslocada num álbum de algum
grupo da cena mangue: "Neste
disco não tem nada que eu possa
apontar como uma influência
específica, mas ouço muita
música e de tudo que a gente
escuta sempre fica alguma coisa.
Gosto muito da música que se faz
no Recife, gosto do Mundo Livre,
me sinto próximo da linguagem
deles. Mas as semelhanças que
possam haver são
coincidências".
E a poesia? O
último livro de poemas lançado
por Arnaldo Antunes foi Dois Ou
Mais Corpos No Mesmo Espaço
(editora Perspectiva, 1997), que
inclusive trazia um CD bônus:
"Aquele disco na verdade é
um projeto específico da área
da poesia, gravado só com vozes,
não voltado para a coisa da
canção. Minha poesia está meio
parada. Desde do último livro
venho me dedicando a este disco,
as composições, as gravações,
e agora os ensaios para os
shows". Mas a poesia de
Antunes não está assim tão
separada de sua música.
Neste disco
duas faixas, As Árvores e
Dinheiro, são poemas extraídos
do seu livro As Coisas (de 1992).
Ele conta que já estava
praticamente com o repertório do
CD fechado quando recebeu um
presente do sempre imprevisível
Jorge Ben Jor: uma fita cassete
com sete poemas de As Coisas
musicados por ele. Antunes gostou
da parceria involuntária e
incluiu as duas no disco.
O show Um Som
estréia agora em outubro, no
Rio. Os fãs dos Titãs
certamente serão maioria entre a
platéia. Saído do grupo em 92
(embora mantenha um ótimo
relacionamento com a banda, neste
disco, por exemplo, tem parcerias
com Nando Reis e Paulo Miklos),
ele ainda é cultuado como um
Titã: "Lido bem com isto,
afinal a informação no Brasil
é muito lenta. Tem gente que
ainda nem sabe que eu sai dos
Titãs".