- - - - -- - - - - - - -- - - - - - - - Jornal do Commercio - Recife, 12 de setembro de 1998

GASTRONOMIA
Saudosas delícias do Brasil

por DUDA GUENNES

LISBOA - Quando a saudade e a fome se juntam, o jeito é matá-las. Foi o que me aconteceu neste fim-de-semana. Lembranças de um tempo perdido orientaram meus passos em busca de velhos mas não esquecidos sabores. Sabores da Pátria p(m)aterna. Rio, Recife: capital da minha infância, pitanga, cajá, mangaba, carne de sol, baba de moça, e todas essas madelleines de um proustiano tempo perdido.

Eis-me agora no Brasuca, restaurante que vi nascer. Era setembro de 78, e lá já se vão 20 anos. Parece que foi "ontem" quando Juca, Altair e Carmo abriram a casa e receberam os amigos para comemorar a inauguração do Brasuca e festejar a deposição de Somoza, o ditador daa Nicarágua. Sim, o Brasuca teve sempre um comportamento politicamente correto. Como correto continua a ser o serviço e ementa: estão lá, firmes, a resistir ao tempo, o Virado, o Picadinho, o Bauru, a Moqueca, a Chuleta e outros pratos mais, que só os nomes fazem sonhar: papo de anjo, quindim, Romeu e Julieta.

Continuando, fui a outro velho conhecido, o Comida de Santo, para revisitar um Bobó de Camarão e uma mousse de maracujá - fruta da (minha) paixão. O Comida é veterano na restauração à brasileira em Lisboa, quando poucas casas ofereciam a oportunidade de "saber" o que se passava gastronomicamente lá do outro lado do Atlântico. De novembro de 81, data da sua abertura, até hoje, tem mantido uma invejável coerência.

Quem apareceu arrasando foi a Churrascaria de rodízio Chimarrão. Cornucópico festival de Picanha, Alcatra, Costela de Búfalo, Maminha, Cupim, a suave tentação da carne. E para agravar as seduções, ainda há o buffet de saladas e entradas frias e o de frutas tropicais, bolos, sorvetes e doces, para a alegria dos meus triglicéridos.

A churrascaria de rodízio é um fenômeno brasileiro que está se alastrando no mundo inteiro. É como a escola de samba, a capoeira e a festa de Iemanjá, no último dia do ano. A churrascaria começou gaúcha, localizada no Rio Grande do Sul, estendeu-se pelo território brasileiro, passando a ser nacional e prepara-se para conquistar o mundo. Agora chegou, em boa hora, à Portugal. Festejemos, pois. Sem ser a pioneira neste tipo de restauração, a Chimarrão já está fincada em vários rincões do território português. Em Lisboa, na Expo, na Av. Chile, na Av. de Roma, no Campo Pequeno (a que eu estive) e em Elvas.

Quando cheguei em Lisboa, 1974, não havia nenhum restaurante brasileiro. Apenas o Tatu, no Campo Grande, servia diariamente feijoada e o Bip-Bip, caipirinha acompanhada de MPB ao vivo. Depois do sucesso da telenovela Gabriela, o povo começou a abrir o apetite para as coisas daquele mundo "esquisito" descrito por Jorge Amado. Aí rebentou uma explosão de bares chamados Vesúvios e Bataclãs , mas apenas no nome, nada de comedorias nem bebedorias brasileiras.

Hoje, e ainda bem, quando bate uma crise de nostalgia já dá para quebrar o galho. Mas, pernambucanamente falando, quando a saudade é profunda, daquelas de não ter jeito, sinto falta dos sabores e odores da comida da minha infância. Empresários da minha Terra, venham abrir restaurantes que sirvam Arrumadinho, Chambaril, Cuscuz de umbigo com leite de coco, Carne de sol com molho de coentros e farofa de bolão etc. Prometo que darei a maior força ao empreendimento. Juro!


     

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