GASTRONOMIA
Saudosas
delícias do Brasilpor DUDA GUENNES
LISBOA -
Quando a saudade e a fome se
juntam, o jeito é matá-las. Foi
o que me aconteceu neste
fim-de-semana. Lembranças de um
tempo perdido orientaram meus
passos em busca de velhos mas
não esquecidos sabores. Sabores
da Pátria p(m)aterna. Rio,
Recife: capital da minha
infância, pitanga, cajá,
mangaba, carne de sol, baba de
moça, e todas essas madelleines
de um proustiano tempo perdido.
Eis-me agora no
Brasuca, restaurante que vi
nascer. Era setembro de 78, e lá
já se vão 20 anos. Parece que
foi "ontem" quando
Juca, Altair e Carmo abriram a
casa e receberam os amigos para
comemorar a inauguração do
Brasuca e festejar a deposição
de Somoza, o ditador daa
Nicarágua. Sim, o Brasuca teve
sempre um comportamento
politicamente correto. Como
correto continua a ser o serviço
e ementa: estão lá, firmes, a
resistir ao tempo, o Virado, o
Picadinho, o Bauru, a Moqueca, a
Chuleta e outros pratos mais, que
só os nomes fazem sonhar: papo
de anjo, quindim, Romeu e
Julieta.
Continuando,
fui a outro velho conhecido, o
Comida de Santo, para revisitar
um Bobó de Camarão e uma mousse
de maracujá - fruta da (minha)
paixão. O Comida é veterano na
restauração à brasileira em
Lisboa, quando poucas casas
ofereciam a oportunidade de
"saber" o que se
passava gastronomicamente lá do
outro lado do Atlântico. De
novembro de 81, data da sua
abertura, até hoje, tem mantido
uma invejável coerência.
Quem apareceu
arrasando foi a Churrascaria de
rodízio Chimarrão. Cornucópico
festival de Picanha, Alcatra,
Costela de Búfalo, Maminha,
Cupim, a suave tentação da
carne. E para agravar as
seduções, ainda há o buffet de
saladas e entradas frias e o de
frutas tropicais, bolos, sorvetes
e doces, para a alegria dos meus
triglicéridos.
A churrascaria
de rodízio é um fenômeno
brasileiro que está se
alastrando no mundo inteiro. É
como a escola de samba, a
capoeira e a festa de Iemanjá,
no último dia do ano. A
churrascaria começou gaúcha,
localizada no Rio Grande do Sul,
estendeu-se pelo território
brasileiro, passando a ser
nacional e prepara-se para
conquistar o mundo. Agora chegou,
em boa hora, à Portugal.
Festejemos, pois. Sem ser a
pioneira neste tipo de
restauração, a Chimarrão já
está fincada em vários rincões
do território português. Em
Lisboa, na Expo, na Av. Chile, na
Av. de Roma, no Campo Pequeno (a
que eu estive) e em Elvas.
Quando cheguei
em Lisboa, 1974, não havia
nenhum restaurante brasileiro.
Apenas o Tatu, no Campo Grande,
servia diariamente feijoada e o
Bip-Bip, caipirinha acompanhada
de MPB ao vivo. Depois do sucesso
da telenovela Gabriela, o povo
começou a abrir o apetite para
as coisas daquele mundo
"esquisito" descrito
por Jorge Amado. Aí rebentou uma
explosão de bares chamados
Vesúvios e Bataclãs , mas
apenas no nome, nada de
comedorias nem bebedorias
brasileiras.
Hoje, e ainda
bem, quando bate uma crise de
nostalgia já dá para quebrar o
galho. Mas, pernambucanamente
falando, quando a saudade é
profunda, daquelas de não ter
jeito, sinto falta dos sabores e
odores da comida da minha
infância. Empresários da minha
Terra, venham abrir restaurantes
que sirvam Arrumadinho,
Chambaril, Cuscuz de umbigo com
leite de coco, Carne de sol com
molho de coentros e farofa de
bolão etc. Prometo que darei a
maior força ao empreendimento.
Juro!