 |
CD PLAYER
José
Teles
Cascabulho
surpreende na estréia
Confesso, logo
de saída, que Fome Dá Dor De
Cabeça (Mangroove), o disco de
estréia do Cascabulho me
surpreendeu. Sabia que a banda
estava indo no caminho certo para
depurar todas as suas
informações musicais, por vezes
excessivas no seus shows. Só
não esperava que o som do grupo
chegasse tão cedo à resolução
que ele mostra no disco, o mais
bem resolvido trabalho de forró,
nesta enxurrada de congêneres
que foram lançados este ano. Sem
dúvida a melhor produção já
feita por Zé da Flauta, que
conseguiu a difícil tarefa de
fazer um disco moderno sem
descambar para o modernoso.
Silvério
Pessoa, o principal vocalista do
Cascabulho, que se considerava
quando muito um correto
intérprete de Jackson do
Pandeiro (a quem o álbum é
dedicado e influência confessa
da banda), assimilou as lições
do mestre, mas está a léguas da
mera imitação. Guardando as
proporções, o Cascabulho
moderniza o leque de ritmos que
forma o forró com o mesmo
impacto que Chico Science &
Nação Zumbi fizeram com o
maracatu.
O quinteto
conseguiu sintetizar o paradoxo
do Nordeste da parabólica no
alto sertão, com a miséria das
palafitas entre arranha-céus.
Samplers das vozes de Pinto e
Rouxinol, Severino Lourival
Batista, Charlie Parker,
mesclam-se atambores de maracatu
(um órgão hammond, tocado por
Márcio Miranda, costura o
batuque de Clementina de Jesus No
Morro Da Conceição -Delírios
da Ressurreição), a harmonia
modal do caboclinho, a voz
africana de Zé Neguinho do Coco,
o suingue de Jacinto Silva,
teclados, e guitarras
distorcidas. Aparentemente uma
feijoada com ingredientes em
demasia, mas na verdade tudo foi
acrescentado na porção certa.
Do repertório
de Jackson do Pandeiro, há
sucessos como O Balanço de
Maria, A Mulher de Mané Amaro, e
17 Na Corrente com arranjos bem
pé-de-serra (Silvério Pessoa
mostra-se exímio nas acidentadas
divisões de frases de Jackson do
Pandeiro), mas as melhores faixas
do CD são as composições
inéditas do próprio Silvério,
em parceria com outros
integrantes do grupo. Com
destaques para Na Bocada da Mata/
Lendas do Açudinho (Silvério e
Kleber Magrão) e Vendedor de
Amendoim (Fome Dá Dor de
Cabeça), esta com a wave drum do
ex-Living Colour, Will Calhoum, e
que termina numa batucada
endiabrada e irrepreensível, com
um pique que lembra Alceu
Valença na época de Vou Danado
pra Catende.
Aliás
Silvério Pessoa revive a dupla
Alceu/Jackson, ao cantar ao lado
de Jacinto Silva, um dos grandes
cantores de forró de todos os
tempos. Os dois estão
impagáveis em Xodó de
Sanfoneiro (de Gerson Filho e
João Silva). Não se sabe como o
trabalho ficará ao vivo, tal a
quantidade de efeitos sonoros e
convidados neste disco. Do
multiinstrumentista Antulio
Madureira, a ao rap Zé Brown,
passando pelo guitarrista Paulo
Rafael (responsável pela
mixagem), o sanfoneiro Genaro, o
baixista Walter Junior, Bozó do
violão de Sete Cordas e muito
mais gente, com a especialíssima
presença do ótimo Zé Neguinho
do Coco, impagável em
Pau-de-Quiri, que interpreta este
coco como se acabasse de chegar
da África.
Já na sua
estréia (e muita estrada por
trás), o Cascabulho forma na
linha de frente da turma do
mangue (seja lá o que isto hoje
signifique) e por extensão da
Música Popular Brasileira, a tal
MPB. Parafraseando os versos
daquele frevo antigo, e sem que
isto implique em bairrismo, Fome
Da Dor De Cabeça comprova que
Pernambuco tem uma porção de
músicas que nenhuma terra tem.
|
|

|