- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -Jornal do Commercio - Recife, 12 de setembro de 1998


CD PLAYER
José Teles

Cascabulho surpreende na estréia

Confesso, logo de saída, que Fome Dá Dor De Cabeça (Mangroove), o disco de estréia do Cascabulho me surpreendeu. Sabia que a banda estava indo no caminho certo para depurar todas as suas informações musicais, por vezes excessivas no seus shows. Só não esperava que o som do grupo chegasse tão cedo à resolução que ele mostra no disco, o mais bem resolvido trabalho de forró, nesta enxurrada de congêneres que foram lançados este ano. Sem dúvida a melhor produção já feita por Zé da Flauta, que conseguiu a difícil tarefa de fazer um disco moderno sem descambar para o modernoso.

Silvério Pessoa, o principal vocalista do Cascabulho, que se considerava quando muito um correto intérprete de Jackson do Pandeiro (a quem o álbum é dedicado e influência confessa da banda), assimilou as lições do mestre, mas está a léguas da mera imitação. Guardando as proporções, o Cascabulho moderniza o leque de ritmos que forma o forró com o mesmo impacto que Chico Science & Nação Zumbi fizeram com o maracatu.

O quinteto conseguiu sintetizar o paradoxo do Nordeste da parabólica no alto sertão, com a miséria das palafitas entre arranha-céus. Samplers das vozes de Pinto e Rouxinol, Severino Lourival Batista, Charlie Parker, mesclam-se atambores de maracatu (um órgão hammond, tocado por Márcio Miranda, costura o batuque de Clementina de Jesus No Morro Da Conceição -Delírios da Ressurreição), a harmonia modal do caboclinho, a voz africana de Zé Neguinho do Coco, o suingue de Jacinto Silva, teclados, e guitarras distorcidas. Aparentemente uma feijoada com ingredientes em demasia, mas na verdade tudo foi acrescentado na porção certa.

Do repertório de Jackson do Pandeiro, há sucessos como O Balanço de Maria, A Mulher de Mané Amaro, e 17 Na Corrente com arranjos bem pé-de-serra (Silvério Pessoa mostra-se exímio nas acidentadas divisões de frases de Jackson do Pandeiro), mas as melhores faixas do CD são as composições inéditas do próprio Silvério, em parceria com outros integrantes do grupo. Com destaques para Na Bocada da Mata/ Lendas do Açudinho (Silvério e Kleber Magrão) e Vendedor de Amendoim (Fome Dá Dor de Cabeça), esta com a wave drum do ex-Living Colour, Will Calhoum, e que termina numa batucada endiabrada e irrepreensível, com um pique que lembra Alceu Valença na época de Vou Danado pra Catende.

Aliás Silvério Pessoa revive a dupla Alceu/Jackson, ao cantar ao lado de Jacinto Silva, um dos grandes cantores de forró de todos os tempos. Os dois estão impagáveis em Xodó de Sanfoneiro (de Gerson Filho e João Silva). Não se sabe como o trabalho ficará ao vivo, tal a quantidade de efeitos sonoros e convidados neste disco. Do multiinstrumentista Antulio Madureira, a ao rap Zé Brown, passando pelo guitarrista Paulo Rafael (responsável pela mixagem), o sanfoneiro Genaro, o baixista Walter Junior, Bozó do violão de Sete Cordas e muito mais gente, com a especialíssima presença do ótimo Zé Neguinho do Coco, impagável em Pau-de-Quiri, que interpreta este coco como se acabasse de chegar da África.

Já na sua estréia (e muita estrada por trás), o Cascabulho forma na linha de frente da turma do mangue (seja lá o que isto hoje signifique) e por extensão da Música Popular Brasileira, a tal MPB. Parafraseando os versos daquele frevo antigo, e sem que isto implique em bairrismo, Fome Da Dor De Cabeça comprova que Pernambuco tem uma porção de músicas que nenhuma terra tem.

 
 

 

Índice | Editorial | Política | Brasil | Internacional | Cidades | Ciência/Meio Ambiente | Esportes | Economia |
Caderno C | Informática | Turismo | Charge | Colunas | Regional | Veículos | Família | Especiais

Últimas Notícias | JC Debate | Roteiro | Weekend | Bate-papo | Tábua de Marés
Fale com o JC | Links | Classificados | Rádio Jornal| Edições Anteriores | Assinantes