-- - - -- - - - - - - -- - - - - - - - --Jornal do Commercio - Recife, 12 de setembro de 1998

ARTIGO
Qualidade total no agribusiness

por VICENTE OLIVEIRA*

A partir do início dos anos 90, com a globalização e a abertura do mercado, três ordens de fatores vem compelindo as cadeias produtivas do agribusiness brasileiro a encarar a implantação de programas de qualidade total como indispensáveis ao planejamento estratégico de suas atividades. Aqui compreendida simplesmente como os atributos de atendimento pleno das expectativas dos clientes e a incessante busca da superação de seus níveis, a qualidade total antes considerada numa visão estreita como estando relacionada apenas com o produto final, isto é na órbita interativa "da porteira para fora", veio se incorporar como elemento de vital importância à gestão agroindustrial, obrigando que da "porteira para dentro" a empresa agrícola assumisse uma postura gerencial e uma doutrina de condução do negócio.

O primeiro dos fatores aludidos como propulsor deste novo contexto foi sem dúvida a concorrência direta de produtos importados com maior valor agregado e preços mais reduzidos, que passaram a disputar os mercados de commodities e produtos agroindustriais no Brasil. Produtos como o arroz uruguaio, os derivados lácteos argentinos, ou os vinhos alemães, entre outros exemplos atestam não apenas a vigorosa eficiência das cadeias produtivas desses bens nos países mencionados, como também uma nítida preocupação com a qualidade em todas as fases do processo produtivo.

Uma segunda ordem de fator é o encurtamento da distância entre "o produtor rural e as prateleiras, isto é, as exigências de atendimento das necessidades e desejos do consumidor final são repassadas com rapidez à rede de distribuição, que por sua vez pressiona as indústrias de beneficiamento, e estas por seu turno aos produtores rurais dos quais adquirem seus produtos. Assim, hortícolas produzidos sem a presença de agrotóxicos carnes com reduzido teor de colesterol, frutas sem sementes etc., são exemplos de como o consumidor final interage de frente para trás nas cadeias do agribusiness impondo seus reclamos de preferência e satisfação até ao produtor rural.

Tal quadro requer então deste agente econômico um "compromisso" de alinhamento tecnológico (produtos e serviços gerados corretamente, sem defeitos, e por processos inovadores ou em aperfeiçoamento constante) permanente com as principais tendências do mercado consumidor, de modo a poder proporcionar uma pronta e rápida resposta aos desafios colocados pela cadeia produtiva em que estiver inserido.

O terceiro e último dos fatores condicionantes diz respeito ao esforço desenvolvido pelas cadeias produtivas na busce da diferenciação do produto como forma de obtenção de melhores preços, notadamente nas faixas de consumo das classes de renda mais elevadas da sociedade. Sob esse aspecto o mercado oferece fartos exemplos, tais como: alimentos pré-cozidos e de fácil serviço à mesa, carnes industrializadas com cortes especiais, leites tipo longa vida, sucos de frutas prontos para beber etc.

O resultado final é que o conceito de parceria passou a ser indissociável do processo de gestão agroindustrial e, portanto, a qualidade técnica e gerencial dos recursos humanos envolvidos neste. A busca da qualidade total no processo em todas as fases da cadeia produtiva tornou-se, então, uma decorrência natural das exigências de qualidade do produto.

* Vicente Oliveira, economista e administrador de empresas, é Consultor de Mercado da COONAP (Cooperativa de Trabalho Múltiplo de Apoio às Organizações de Autopromoção)

 
     

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