- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -Jornal do Commercio - Recife, 12 de setembro de 1998

O sorriso das crianças

Poucas vezes em nossa História contemporânea encontramos motivos de exaltação perante os graves problemas sociais. O poder público, todos sabemos, permanece preso à malha intricada da economia, para impedir que o País seja levado de volta ao caos da inflação. Correto. Mas por ser grande demais a tarefa, joga para o futuro a solução imediata de problemas que deveriam fazer parte, apenas, da memória longínqua de nossa sociedade. Os segmentos privados, esses têm também seus desafios, a começar pela adaptação à realidade de um País sem inflação e submetido às amarras da economia internacional que, no momento, traz mais dissabores que alegrias. Daí a ausência de exaltação.

Mas há, para nossa alegria, aqui e ali sinais de que a natureza humana e a História se harmonizam e geram esperanças. Um dos sinais mais recentes está sendo difundido a partir de São Paulo com a campanha "Adotei um sorriso", que envolve dentistas voluntários. Aparentemente, trata-se de mais um daqueles esforços pouco produtivos de determinados segmentos da sociedade ávidos por ajudar, por estender as mãos, e com facilidade derrotados pela dimensão do problema. Mas nesse caso específico a forma, os personagens, os resultados, enchem de otimismo.

A campanha - que começou em junho de 1997, com 15 dentistas e hoje reúne 400 - tem uma proposta extraordinária: atender a 11 mil crianças que não têm acesso aos profissionais da odontologia porque lhes faltam condições materiais. É um fato que o resgate da dívida social é um dever do Estado, mais ainda quando está inscrito na Constituição Federal. É fato, também, que essa tem sido, e deverá continuar sendo, uma bandeira de propaganda de todos os políticos, em todos os tempos, pelo que alguma coisa se deverá esperar, um dia qualquer. Mas, e até lá?

A campanha "Adotei um sorriso" é a resposta a essa pergunta. Até que o poder público estenda as condições de atendimento a todas as crianças, muitas passarão pela infância e, se sobreviverem, chegarão à idade adulta desdentadas e incapacitadas para o pleno exercício da cidadania, como decorrência de sua exclusão social. Cabe, pois, o engajamento para suprir, de alguma forma, um pouco da carência das grandes massas miseráveis de nosso País.

Nesse ponto, encontramos um motivo de exaltação, particularmente pela sensibilidade que move essa campanha paulista e que deveria se estender a todo o País. Sem que para isso seja necessário o patrocínio de políticos, autênticos ou carreiristas. Um dos motivos que movem a determinação dos dentistas voluntários é a constatação de que muitas crianças não sorriem porque têm vergonha dos dentes estragados, ou da ausência deles. Bastaria esse dado para nos encher de vergonha. Pelo que nos omitimos, pelo que deixamos de fazer para suprir um pouco a omissão do poder público.

É certo que há muitas adoções por se fazer. Da criança que não tem lar, que não tem pais, não tem escola, não tem saúde. A adoção plena de quem está excluído do sagrado direito à vida, com boa qualidade. No primeiro momento, um dever do Estado, do Poder Público, hoje é possível se imaginar que não podemos ficar esperando o exercício do dever, enquanto gerações são destruídas ao nosso lado e fazemos de conta que não é um problema nosso. Os dentistas paulistas estão mostrando que é.

 
 

 

Índice | Editorial | Política | Brasil | Internacional | Cidades | Ciência/Meio Ambiente | Esportes | Economia |
Caderno C | Informática | Turismo | Charge | Colunas | Regional | Veículos | Família | Especiais

Últimas Notícias | JC Debate | Roteiro | Weekend | Bate-papo | Tábua de Marés
Fale com o JC | Links | Classificados | Rádio Jornal| Edições Anteriores | Assinantes