O sorriso das criançasPoucas vezes em nossa
História contemporânea
encontramos motivos de
exaltação perante os graves
problemas sociais. O poder
público, todos sabemos,
permanece preso à malha
intricada da economia, para
impedir que o País seja levado
de volta ao caos da inflação.
Correto. Mas por ser grande
demais a tarefa, joga para o
futuro a solução imediata de
problemas que deveriam fazer
parte, apenas, da memória
longínqua de nossa sociedade. Os
segmentos privados, esses têm
também seus desafios, a começar
pela adaptação à realidade de
um País sem inflação e
submetido às amarras da economia
internacional que, no momento,
traz mais dissabores que
alegrias. Daí a ausência de
exaltação.
Mas há, para
nossa alegria, aqui e ali sinais
de que a natureza humana e a
História se harmonizam e geram
esperanças. Um dos sinais mais
recentes está sendo difundido a
partir de São Paulo com a
campanha "Adotei um
sorriso", que envolve
dentistas voluntários.
Aparentemente, trata-se de mais
um daqueles esforços pouco
produtivos de determinados
segmentos da sociedade ávidos
por ajudar, por estender as
mãos, e com facilidade
derrotados pela dimensão do
problema. Mas nesse caso
específico a forma, os
personagens, os resultados,
enchem de otimismo.
A campanha -
que começou em junho de 1997,
com 15 dentistas e hoje reúne
400 - tem uma proposta
extraordinária: atender a 11 mil
crianças que não têm acesso
aos profissionais da odontologia
porque lhes faltam condições
materiais. É um fato que o
resgate da dívida social é um
dever do Estado, mais ainda
quando está inscrito na
Constituição Federal. É fato,
também, que essa tem sido, e
deverá continuar sendo, uma
bandeira de propaganda de todos
os políticos, em todos os
tempos, pelo que alguma coisa se
deverá esperar, um dia qualquer.
Mas, e até lá?
A campanha
"Adotei um sorriso" é
a resposta a essa pergunta. Até
que o poder público estenda as
condições de atendimento a
todas as crianças, muitas
passarão pela infância e, se
sobreviverem, chegarão à idade
adulta desdentadas e
incapacitadas para o pleno
exercício da cidadania, como
decorrência de sua exclusão
social. Cabe, pois, o engajamento
para suprir, de alguma forma, um
pouco da carência das grandes
massas miseráveis de nosso
País.
Nesse ponto,
encontramos um motivo de
exaltação, particularmente pela
sensibilidade que move essa
campanha paulista e que deveria
se estender a todo o País. Sem
que para isso seja necessário o
patrocínio de políticos,
autênticos ou carreiristas. Um
dos motivos que movem a
determinação dos dentistas
voluntários é a constatação
de que muitas crianças não
sorriem porque têm vergonha dos
dentes estragados, ou da
ausência deles. Bastaria esse
dado para nos encher de vergonha.
Pelo que nos omitimos, pelo que
deixamos de fazer para suprir um
pouco a omissão do poder
público.
É certo que
há muitas adoções por se
fazer. Da criança que não tem
lar, que não tem pais, não tem
escola, não tem saúde. A
adoção plena de quem está
excluído do sagrado direito à
vida, com boa qualidade. No
primeiro momento, um dever do
Estado, do Poder Público, hoje
é possível se imaginar que não
podemos ficar esperando o
exercício do dever, enquanto
gerações são destruídas ao
nosso lado e fazemos de conta que
não é um problema nosso. Os
dentistas paulistas estão
mostrando que é.