-...............................................-Jornal do Commercio - Recife, 06 de setembro de 1998

REPRESSÃO
Todas as nuances da libido

por FABIANA MORAES

Observe estas figuras. A Afrodite de Knidos (350 a.C.), a Vênus de Milos (150 a.C.), a Vênus de Botticelli (do quadro o Nascimento de Vênus, de 1485), a Eva de Albert Dürer (1507), apesar de serem de épocas tão distantes, possuem um detalhe único, que se repete em todas as imagens: todas elas estão cobrindo o sexo, seja com os cabelos, a roupa ou simplesmente a mão. As similaridades guardam, na essência, uma característica até hoje observada nas mulheres: um estranho pudor em relação ao sexo e a falta de intimidade e conhecimento com o próprio órgão genital.

A não diferenciação entre a vagina e a vulva é uma das mais latentes mostras desse pouco conhecimento do corpo. A vulva é a parte genital menos explorada pelas mulheres, muito embora a maioria das doenças genitais femininas estejam ligadas ao órgão. "Ainda se trata a vulva com muito mistério, apesar dela ser o primeiro caminho anatômico para a vida", diz a anatomopatologista Telma Campello, professora da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) que vem estudando o órgão há três anos.

Para Telma, este comportamento retrata a antiga ideologia machista e a repressão sexual feminina, que, apesar dos tempos, continua a comandar os hábitos sexuais das mulheres, só que de forma velada. "É preciso que as mulheres aprendam a se tocar, a realizar o auto-exame na sua genitália externa. Este procedimento as levaria a conhecer melhor a própria anatomia, além de orientar sua sexualidade e ajudar a prevenir doenças no órgão", explica. Segundo a ginecologista Isabel Carneiro, o maior problema em relação à vulva é a falta de informação. "Freqüentemente, recebo mulheres que simplesmente confundem a vulva com a vagina", diz.

Só recententemente a comunidade médica voltada para a saúde da mulher começou a realizar estudos voltados apenas para a genitália externa feminina, que até então era chamada de "terra de ninguém" por ginecologistas e dermatologistas. As duas categorias médicas eram responsáveis pelo trato das doenças vulvares, e travaram um verdadeiro embate para finalmente decidir que especialista cuidaria da vulva. Os ginecologistas ganharam a causa e tornaram-se responsáveis pelo órgão. "Mas ainda é necessário um trabalho conjunto com psicólogos e psicanalistas, pois a sexualidade é reflexo das vivências afetivas e sociais", diz Telma Campello.

A abordagem mais profunda e direta das questões ligadas à vulva pelos sexólogos, ginecologistas e dermatologistas ainda é incompleta e pouco satisfatória, segundo a professora. "Os médicos não estão alertas para as queixas das mulheres em relação à vulva. Eles não sabem abordar o assunto e elas, por sua vez, pouco falam a respeito. Existe pouca confiança entre paciente e médico", opina Telma, acrescentando que estes especialistas pouco contribuem para a melhoria da vida sexual das mulheres.

ORGASMO RARO - Outra questão pouco comentada e ainda muito nebulosa a respeito da vulva é o fenômeno da ejaculação feminina, que, apesar de ser pouco observado, começa a ser "assumido" pelas mulheres. O gozo em jato é muitas vezes confundido com a urina, e acontece quando, ao chegar ao orgasmo, a mulher passa a eliminar fluidos pela uretra, que chegam a ser expelidos em forma de pequenos jatos. "Conheço algumas pacientes que possuem essa forma de orgasmo. Ele é raro, mas acontece naturalmente. Muitas delas não sabem do que se trata, e é preciso explicar que aquilo é absolutamente normal", diz a ginecologista Isabel Carneiro.

A advogada Carmem N., 28 anos, só notou que possuía este tipo de orgasmo após ter seu primeiro filho, há 3 anos. "Não me sinto diferente ou anormal por causa disso. Não sabia que este orgasmo era raro", diz Carmem, que, por encarar o fato com naturalidade, nunca chegou a conversar com seu ginecologista a respeito. Segundo ela, o líquido expelido durante o gozo chega a molhar o lençol, mas ela nunca o confundiu com urina, como acontece com outras mulheres. "Não tenho sempre este tipo de orgasmo, ele é mais comum quando estou perto do período fértil ou quando estou com a libido muito aguçada", diz a advogada.

O pai do Ponto G, o médico Ernst Grafenberg, estudou o líquido e concluiu que ele não tem função lubrificante, já que é expelido apenas no auge e simultaneamente ao orgasmo. "É apenas uma característica natural das mulheres. Ele pode ser considerado raro porque as mulheres possuem dificuldade em falar sobre seus orgasmos, é um assunto não comentado", diz Telma Campello.

A ejaculação feminina está no Protocolo do Programa Nacional da Saúde da Mulher, programa do Ministério da Saúde e promete ser um assunto bastante comentado e estudado nos próximos anos. A ginecologista e obstetra Kátia Marroquim, que também recebe casos de mulheres que relatam experiências sobre o gozo em jato, concorda com a opinião de Telma Campello e diz existir uma espécie de inconsciência coletiva que leva as mulheres a negarem a própria libido. "Fomos criadas e educadas para não demonstrarmos nosso prazer", diz.


     

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