REPRESSÃO
II
Vulva
não é conhecida pelas mulheresSão poucas as mulheres
que já pegaram um espelho para
olhar sua genitália, conhecer
sua anatomia, suas formas e
peculiariedades. Em tempos onde a
sensualidade feminina passou a
ser explorada de forma
ginecológica pelos programas de
televisão, a vulva, assim como a
vagina, ainda é relegada a um
posto secundário, escondido,
proibido de ser analisado
seriamente pelas próprias
mulheres. "Muitas delas
perguntam: 'doutora, como é que
a senhora passa o dia olhando
para uma coisa tão feia?'"
diz a presidente da Sociedade
Brasileira de Citopatologia, a
ginecologista Raimunda Maranhão.
A vulva é
composta pelos grandes e pequenos
lábios, vestíbulo (parte
central, que inclui o prepúcio,
o clitóris e o introito vaginal,
ou seja, a abertura da vagina).
Por trás do vestíbulo, estão
os bulbos vestibulares, que, se
estimulados durante o ato sexual,
levam a mulher ao orgasmo. Este
estímulo, para causar o orgasmo,
precisa vir acompanhado da
estimulação clitoriana.
"Não acredito no orgasmo
puramente vaginal, acho muito
difícil que uma mulher atinja o
auge do prazer sem que haja
manipulação ou pressão no
clitóris" , afirma a
ginecologista Isabel Carneiro. A
mulher possui três órgãos
eréteis: os mamilos, o clitóris
e os cornetos nasais, que sofrem
ereção ao serem estimulados por
um cheiro excitante.
A
anatomopatogista Telma Campello
também não crê na existência
de um gozo provocado apenas pela
manipulação vaginal. Segundo
ela, as mulheres que possuem este
tipo de prazer teriam o tecido
erétil clitoriano estendido
pelas paredes da vulva, o que as
levaria a atingir orgasmo sem o
estímulo direto do clitóris.
"Caso estudassem e
conhecessem melhor sua
genitália, as mulheres, assim
como os casais, teriam uma vida
sexual bem mais
satisfatória", declara a
especialista, que cita a
perseguição ao médico
anatomista Mateo Colón como
exemplo da repressão existente
sobre o prazer sexual feminino.
"Ele
descreveu pela primeira vez, no
século 16, a existência do
órgão feminino do amor, o
clitóris, chamando-o de amor
veneris. Por sua descoberta, foi
perseguido pela Inquisição pelo
resto da vida", conta Telma.
A divulgação científica do
clitóris foi proibida até o
século 18. De acordo com a
psicóloga Aída Novelino, que
realizou um trabalho sobre a
relação entre feminilidade e a
maternidade, os órgãos sexuais
femininos ainda são tidos como
algo sujo, que
"acumula" impurezas,
enquanto o pênis é mais
"limpo", ou mais fácil
de ser "purificado".
"As mulheres têm
interceptado o acesso aos
órgãos genitais desde cedo. A
ostentação em torno da
sensualidade feminina só
evidencia o mistério em torno de
sua real sexualidade", diz a
psicóloga. (F.M.)