- - -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -Jornal do Commercio - Recife, 12 de setembro de 1998


JOELMIR BETTING

Quem dá o fora?

Tem só de especuladores internacionais, os "chacais da moeda", vive essa primeira fuga de capitais na gloriosa carreira do real. Capitalistas brasileiros também estão tirando o corpo fora. E não apenas por obra e desgraça do efeito vodca, agravado pelo efeito Moody's. Também por força de uma "infeliz coincidência" de calendário: a concentração, em agosto e setembro, de vencimentos da ordem de US$ 11,5 bilhões no serviço da dívida externa do setor privado.

A observação é de Demosthenes Madureira de Pinho Neto, diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central. Pelo menos até quarta-feira, segundo ele, as remessas sobre a dívida privada pesaram bem mais na saída de capitais do que a paranóia de especuladores sem bandeira, sobressaltados pelos impactos do "default" da Rússia na credibilidade dos mercados emergentes em bloco.

Diante da queda generalizada dos títulos brasileiros lá fora, bancos e empresas tomaram empréstimos no Brasil para recomprar, com desconto, títulos da própria emissão no mercado secundário internacional. Com a queda da taxa de juros interna e com o nível de deságio externo dos papéis brasileiros, tornou-se atrativa a troca de dívida externa por dívida interna. Isso é que precipitou a amortização concentrada e até antecipada da dívida externa do setor privado em agosto e setembro. Com ou sem recarga da crise global.

Para reverter essa debandada, o governo obrigou-se a levantar o piso dos juros internos de 19% para 29,75% do PIB. O que ele não contava era com o efeito Moody's, desde sexta-feira da semana passada. E deu no que deu. A combinação corrosiva de resgate concentrado da dívida privada com arbitragem de juros lá fora e com o cartão vermelho da Moody's resultou num tratamento de choque para a evasão hemorrágica de dólares: o piso dos juros, agora calibrado pela Tban e não mais pela TBC, trêmula desde ontem na ionosfera de 49,75%. Por que não 50%, redondão? É para passar ao mercado a idéia de que se trata de um número técnico, gelado, sem pânico.

Sem pânico? Parece que o arsenal monetário está, finalmente, esgotado. O regime cambial é tido como sagrado, porque já de tamanho adequado. Então, a última linha de defesa está, definitivamente, no campo minado do ajuste fiscal, agora que o déficit público nominal ronda a marca inaceitável de 7,5% do PIB.

Déficit nominal refertilizado pela explosão dos juros no ventre da dívida pública que financia o déficit público. O tal negócio: 1) maior o déficit, maior o risco; 2) maior o risco, maior o juro; 3) maior o juro, maior a dívida: 4) maior a dívida, maior o déficit; 5) maior o déficit...

Resumo da ópera: a salvação da pátria estremecida desloca-se das mãos da equipe econômica para as luvas da classe política - toda ela empenhada na reta de chegada da (re)eleição. Dá para esperar até a segunda semana de outubro? Em matéria de ajuste fiscal, a urgência é a mesma da traqueotomia a canivete na lama da trincheira.

Sem opção

Ao catapultar o piso dos juros para 49,75%, a equipe econômica lava as mãos feito Pilatos e suspira fundo feito Tácito: "Em situação de emergência, a decisão mais ousada é, certamente, a mais segura".

 
 

 

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