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JOELMIR
BETTING
Quem
dá o fora?
Tem só de
especuladores internacionais, os
"chacais da moeda",
vive essa primeira fuga de
capitais na gloriosa carreira do
real. Capitalistas brasileiros
também estão tirando o corpo
fora. E não apenas por obra e
desgraça do efeito vodca,
agravado pelo efeito Moody's.
Também por força de uma
"infeliz coincidência"
de calendário: a concentração,
em agosto e setembro, de
vencimentos da ordem de US$ 11,5
bilhões no serviço da dívida
externa do setor privado.
A observação
é de Demosthenes Madureira de
Pinho Neto, diretor de Assuntos
Internacionais do Banco Central.
Pelo menos até quarta-feira,
segundo ele, as remessas sobre a
dívida privada pesaram bem mais
na saída de capitais do que a
paranóia de especuladores sem
bandeira, sobressaltados pelos
impactos do "default"
da Rússia na credibilidade dos
mercados emergentes em bloco.
Diante da queda
generalizada dos títulos
brasileiros lá fora, bancos e
empresas tomaram empréstimos no
Brasil para recomprar, com
desconto, títulos da própria
emissão no mercado secundário
internacional. Com a queda da
taxa de juros interna e com o
nível de deságio externo dos
papéis brasileiros, tornou-se
atrativa a troca de dívida
externa por dívida interna. Isso
é que precipitou a amortização
concentrada e até antecipada da
dívida externa do setor privado
em agosto e setembro. Com ou sem
recarga da crise global.
Para reverter
essa debandada, o governo
obrigou-se a levantar o piso dos
juros internos de 19% para 29,75%
do PIB. O que ele não contava
era com o efeito Moody's, desde
sexta-feira da semana passada. E
deu no que deu. A combinação
corrosiva de resgate concentrado
da dívida privada com arbitragem
de juros lá fora e com o cartão
vermelho da Moody's resultou num
tratamento de choque para a
evasão hemorrágica de dólares:
o piso dos juros, agora calibrado
pela Tban e não mais pela TBC,
trêmula desde ontem na ionosfera
de 49,75%. Por que não 50%,
redondão? É para passar ao
mercado a idéia de que se trata
de um número técnico, gelado,
sem pânico.
Sem pânico?
Parece que o arsenal monetário
está, finalmente, esgotado. O
regime cambial é tido como
sagrado, porque já de tamanho
adequado. Então, a última linha
de defesa está, definitivamente,
no campo minado do ajuste fiscal,
agora que o déficit público
nominal ronda a marca
inaceitável de 7,5% do PIB.
Déficit
nominal refertilizado pela
explosão dos juros no ventre da
dívida pública que financia o
déficit público. O tal
negócio: 1) maior o déficit,
maior o risco; 2) maior o risco,
maior o juro; 3) maior o juro,
maior a dívida: 4) maior a
dívida, maior o déficit; 5)
maior o déficit...
Resumo da
ópera: a salvação da pátria
estremecida desloca-se das mãos
da equipe econômica para as
luvas da classe política - toda
ela empenhada na reta de chegada
da (re)eleição. Dá para
esperar até a segunda semana de
outubro? Em matéria de ajuste
fiscal, a urgência é a mesma da
traqueotomia a canivete na lama
da trincheira.
Sem
opção
Ao catapultar o
piso dos juros para 49,75%, a
equipe econômica lava as mãos
feito Pilatos e suspira fundo
feito Tácito: "Em
situação de emergência, a
decisão mais ousada é,
certamente, a mais segura".
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