- - - -...............................................-Jornal do Commercio - Recife, 12de julho de 1998

VIDA SEXUAL II
Experiência e segurança somam pontos a favor da terceira idade

A pesquisa das médicas de Curitiba não surpreendeu as mulheres de mais de 60 anos. A escritora Rose Marie Muraro, de 67 anos, afirma que não só o orgasmo é mais intenso depois dos 60, mas tudo na vida ganha novas e prazerosas dimensões. "Para começar, a mulher de 60 só se relaciona com grandes homens, logo o orgasmo é sensacional. Com os pequenos ela fez sexo demais aos 40 e viu onde é que dá. Não vai repetir tantos erros. A experiência lhe dá sabedoria para viver e fazer só o que quer. É a melhor idade. Não é o mundo que rejeita o velho, mas é o velho que rejeita este mundo déjà vu. É melhor ouvir Beethoven do que uma conversa chata", declara.

No Clube da Maioridade, que reúne sexagenários em festas, almoços, viagens e passeios culturais, a presidente, Lygia Santos, de 62 anos, diz ter descoberto que a velhice não existe. "Sexualmente então nem se fala! A mulher mais madura sabe de quase tudo, é moleca e brincalhona. É muito difícil que ela leve uma lambada ou um pontapé de um homem", afirma. "É inexplicável, mas a gente acorda e dorme sensual. Surge um fogo diferente. Não que vá se relacionar com qualquer um, mas a mulher de 60 está sempre pronta", explica.

Lygia declara se divertir demais com a legião de "maiores de idade" do clube. Uma das associadas do grupo é Wilma Costa Barbosa, de 64 anos, que faz questão de anexar uma exclamação ao seu estado civil. "Sou viúva, graças a Deus! Só comecei a viver depois que meu marido morreu. Nunca tive uma vida sexual tão intensa. Nem sabia que existia tanto prazer", ressalta.

Wilma conheceu um namorado no clube, há cinco anos, e disse viver com ele a experiência mais gratificante de sua vida. "Estamos ligeiramente brigados, mas nossa vida sexual é maravilhosa. Minha irmã, viúva de 66, mas assexuada, se espanta comigo. Eu lhe digo que ela não entende de sexo porque só conheceu aquela droga de marido".

Iracema da Gama, viúva de 68 anos, é uma das que não conseguem arranjar um parceiro. Ela riu muito do aparelho que mede a libido da mulher e atesta o aumento da sexualidade aos 60. "Se ligassem este aparelho em mim, daria um curto circuito e explosões. O problema é que os homens são uns frouxos. Procurei meus ex-namorados na lista telefônica e todos morreram".

A sexualidade de Iracema não foi descoberta depois dos 60. Ela se diz uma mulher à frente de seu tempo, que perdeu a virgindade com o marido antes de se casar. "Sempre tivemos um casamento aberto. Ele era alemão e, no verão, viajava para a Alemanha e eu me esbaldava no carnaval de Recife. Homem não faltava. Hoje está tão difícil que estou até paquerando um padre".

O terapeuta sexual Oswaldo Rodrigues Júnior, diretor da Sociedade Brasileira da Sexualidade Humana e do Instituto Paulista de Sexualidade, confirma que a sexagenária pode ter orgasmos mais intensos e freqüentes do que a mulher jovem, mas, na sua opinião, a pesquisa das médicas de Curitiba esconde o dado de que o número de mulheres nestas condições é bastante reduzido.

"Há dez anos, um grupo de pesquisadores americanos chegou a idêntica conclusão. Os casais de 70 anos que mantinham relações afetivas e sexuais estáveis faziam sexo de três a quatro vezes por semana e tinham orgasmos intensos. O problema é que nesta idade a maioria não se enquadra nesta condição. Não sei quantas senhoras assim foram ouvidas, mas o número deve ser bem pequeno", comenta.

MATURIDADE - A mulher de 60 teria orgasmos mais intensos porque, segundo o terapeuta, rompeu muitas barreiras culturais e desenvolveu um longo aprendizado sobre como atingir um ou vários orgasmos. "A mulher começa a vida sexual entre 18 e 20 anos e leva em média de dois a cinco anos para aprender a ter um orgasmo. A sexagenária já sabe sentir prazer".

Um estudo do pesquisador americano Pfeiffer e publicado por Kolodny, Masters e Johnson, no Manual de Medicina Sexual (Editora Manoela) mostrou que a maioria das mulheres acima de 66 anos não pratica o ato sexual. Foram entrevistadas 241 mulheres, de 45 a 71 anos. Na faixa etária de 61 a 65 anos, 61% das entrevistadas não praticavam o coito; entre 66 e 71 anos, 73% não faziam sexo e 50% não tinham interesse sexual. Estas mulheres atribuíram ao marido o fim do sexo, sendo que 36% disseram que não faziam mais sexo devido à viuvez.

Segundo a sexóloga Célia Morais, as mulheres de 60 sem parceiro fixo recorrem naturalmente à masturbação. Mas, este hábito, saudável para a descarga de excitação, ainda enfrenta, segundo ela, o preconceito e a desinformação das mulheres de 60. "Muitas mulheres desta geração desconhecem o próprio corpo. Não sabem onde fica o clitóris e nunca atingiram o orgasmo. Não sabem sequer se masturbar".

Outra resistência ao prazer aos 60 vem de mulheres deprimidas após o fracasso do casamento. "São geralmente mulheres traídas, trocadas por outra mais jovem. Têm aversão ao sexo", revela a sexóloga. (E.R.)


     

Índice | Editorial | Política | Brasil | Internacional | Cidades | Ciência/Meio Ambiente | Esportes | Economia |
Caderno C | Informática | Turismo | Charge | Colunas | Regional | Veículos | Família | Especiais

Últimas Notícias | JC Debate | Roteiro | Weekend | Bate-papo | Tábua de Marés
Fale com o JC | Links | Classificados | Rádio Jornal| Edições Anteriores | Assinantes