-...............................................-Jornal do Commercio - Recife, 11 de outubro de 1998

COMENTÁRIOS
Polêmica sobre a vida sexual das intelectuais brasileiras

por MARCIA CEZIMBRA
Agência Globo

A mulher que estuda muito não tem vida sexual. Este é um dos resultados da Pesquisa de Padrão de Vida (PPV), feita pelo IBGE, segundo a qual 61,4% das mulheres com mais de 12 anos de estudos não usam método anticoncepcional algum simplesmente por serem sexualmente "inativas". Foram entrevistadas 20 mil mulheres entre 15 e 49 anos, em cinco mil domicílios em zonas rurais e urbanas das regiões Nordeste e Sudeste. E a elevada porcentagem de mulheres que combinam alto nível educacional e falta de atividade sexual não chegou a surpreender a coordenadora da pesquisa, Elisa Caillaux.

"Números semelhantes foram encontrados em pesquisas similares na Inglaterra e nos Estados Unidos. O motivo da inatividade sexual não foi investigado pela pesquisa. Podem ser mulheres sexualmente inativas por vontade própria. Mas também há muitas que querem fazer sexo e não encontram parceiro", revela Elisa.

O resultado da pesquisa revoltou mulheres intelectuais, como a escritora Rose Marie Muraro, de 67 anos, e com uma vida sexual que é, segundo ela, "uma loucura" em matéria de intensidade. Rose conclama todas as intelectuais do país a protestarem contra o IBGE pelo que classifica de "difamação da inteligência feminina". "Não acredito nesta pesquisa e faço aqui o meu apelo a todas as mulheres cultas do país que mandem uma cartinha ao IBGE e tomem providências. Isto é uma injúria. Eu falo por mim e por todas as mulheres inteligentes que conheço", desabafa.

NÃO É BEM ASSIM - A coordenadora desta pesquisa do IBGE, Elisa Caillaux, porém, faz uma ressalva importante. Ela explica que o índice de mulheres sexualmente inativas se refere apenas àquelas que não usam métodos contraceptivos, que são 50,7% do total de 20 mil entrevistadas. "Isto significa que as mulheres cultas e sexualmente inativas não chegam a 30% do total das entrevistadas", adverte Elisa.

Na hora de explicar o motivo desta combinação entre saber e falta de vida sexual, as intelectuais se dividem. "O resultado desta pesquisa do IBGE merece uma reflexão mais profunda. Muitas das minhas companheiras da geração 68 mergulharam na filosofia e em teorias políticas para não enfrentarem suas dificuldades afetivas e sexuais", diz a escritora Carmem de Oliveira.

A pesquisa do IBGE encontra respaldo nas estatísticas trabalhadas pelo diretor do Instituto Paulista de Sexualidade, Oswaldo Rodrigues Júnior. "Nós temos este dado aqui, vindo de inúmeras teses de mestrado e doutorado. Nelas, o sexo não aparece entre as prioridades da mulher culta", conta. "Li, certa vez, uma pesquisa na qual o sexo aparecia em sétimo lugar entre as prioridades da mulher intelectual. Não vejo motivo para revoltas. Isto é o que acontece", comenta Rodrigues.

A mulher que reprime a vida afetiva tem sérios problemas físicos e psíquicos, segundo o sexólogo. Mas se esta mulher deixou voluntariamente o sexo porque sente mais prazer no trabalho intelectual, não há problema algum. "Ela tem prazer de outra forma, que Freud chamava de sublimação".

Já o jogador de futebol Júnior, ao saber da pesquisa, deu graças a Deus que sua mulher parou de estudar há tempos. "Nunca ouvi falar que mulher culta não fazia sexo. Mas, na dúvida, é melhor que todas parem de estudar. Para o bem do casal".


     

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