- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -Jornal do Commercio - Recife, 17 de dezembro de 1998


ARTIGO

Bom-dia, Recife

por RONILDO MAIA LEITE*

Eu ia dizendo domingo: testemunha de abril, de conta própria eu sei do arrocho cachorro da moléstia de 64. Resistência, prisão, tortura e exílio. Além das cassações, teve menino espingardeado, morrendo na praça feito arribaçã e nambu. Também teve nêgo chorando, dando nota em jornal, morrendo de medo, um cagaço da peste, camaradas. Eu mesmo dei um carreirão daqui. Macheza me falta, sou frouxo, não nego, me escondi no mataréu de um sítio, lá pras bandas de Garanhuns.

Porém - toda história é feita de entretantos - se a gente espiar direitinho, vai descobrir que a brabeza dos quartéis amainou com a posse de Castelo Branco pra de novo se arretar por causa da Frente Ampla, invenção de Arthur Lima Cavalcanti. Ele cutucou satanás com vara curta. Deu no que deu. Tome arrocho de novo mas não tanto, camaradas. No duro, no duro, a morféia nazista chegou em 68. O leprento do AI-5 mereceu esporro até dos americanos. John Tuthil sucedera a Lincoln Gordon na embaixada e chegou a recomendar a suspensão de ajuda econômica ao Brasil - o treco de um empréstimo de 50 milhões de dólares ou coisa parecida. Naquela sexta-feira 13, era dezembro que nem hoje, o golpe desembestou com a morrinha. O que teve de gente morta não se conta nos dedos nem está na tabuada dos necrotérios, camaradas.

Depois, fez-se um silêncio enorme. Mudez maior nem nos cemitérios, onde as catacumbas fecharam a boca rasa para calar o atrevimento de certos defuntos. Parte da juventude preferiu morrer guerreando no Araguaia e Caparaó. Outra ficou aqui mesmo, arengando com a pata dos cavalos. Dava pro gasto o que restou de coragem, camaradas. Durante o dia, o tufão das passeatas. À noite, a soturna alegria dos bares, os festivais de canção, Caetano e Vandré, soldados armados, violas à mão, caminhando e cantando os novos refrões. Ou então nos estádios de futebol - Pelé, Rivelino, Gerson e Garrincha animando uma tristeza da porra. Ou então nas rodas intelectuais - sobretudo Vinícius botando amor onde existia o tédio. Porque seus ídolos políticos estavam no exílio, cadeia ou cemitério, a juventude procurou proteger-se na idolatria dos estádios, dos bares, das noites, do amor e da poesia, camaradas. Tiquinho só de liberdade, castigada, oprimida e vigiada, mas dava pro gasto, camaradas.

Foi quando inventaram a grande presepada da anistia e ninguém desconfiou. Onde já se viu ditadores generosos, camaradas. Pensando atrelar-se aos ídolos políticos que voltavam, a juventude saiu dos botecos e estádios, foi pra rua. Sem saber que a marcha-regresso mal cantada parece mais um réquiem de antigos missais e velhos catecismos. Quando enxergou o equívoco, passou a idolatrar o nada. Mas restou a vontade de ir pras ruas cantar e sorrir, brigar e chorar. Pra que, por que e pra quem afinal, camaradas?

A respeito do que escrevi domingo, este bilhete de Manoel Barbosa: "A cada aniversário do AI-5, você conta a "história dos homenzinhos verdes, que os censores interpretaram paranoicamente como insulto ao Exército. Há um equívoco, sério, na crônica, que eu sempre deixei passar porque, para mim, importava a essência da história, o significado. Mas dessa vez decidi esclarecer. Até porque, com o esclarecimento, fica mais realçada a torpeza da intolerância. O equívoco está quando chama o tema do meu texto de "malassombro". Não era e não é. O texto referia-se simplesmente à descoberta do pulsar, um evento cosmológico hoje bem conhecido. Tratava-se de uma descoberta do astrônomo inglês Anthony Hewish, e de sua discípula Jocelyn Bell Burnell, que detectaram pulsos regulares eletromagnéticos provindos do espaço. Logo, a comunidade científica pensou tratar-se de homenzinhos verdes" - um jargão para vida fora da Terra, antes da popularização do termo ET. Só depois é que se constatou que os sinais eram um fenômeno natural, produto de uma estrela colapsada. isto é: que, após esgotar seu combustível (hidrogênio e hélio), contraiu-se, adensou-se e passou a girar sobre si mesma, em incrível velocidade, emitindo os sinais como um farol. Portanto, não é malassombro. É fato. Para a época, a manchete era corretíssima, cientificamente. Só que os militares brasileiros não sabiam. Como eu faço divulgação científica baseado em dados, o termo "malassombro" me deixa mal".

*Ronildo Maia Leite é jornalista

 
 

 

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