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ARTIGO
Bom-dia,
Recife
por RONILDO
MAIA LEITE*
Eu ia dizendo
domingo: testemunha de abril, de
conta própria eu sei do arrocho
cachorro da moléstia de 64.
Resistência, prisão, tortura e
exílio. Além das cassações,
teve menino espingardeado,
morrendo na praça feito
arribaçã e nambu. Também teve
nêgo chorando, dando nota em
jornal, morrendo de medo, um
cagaço da peste, camaradas. Eu
mesmo dei um carreirão daqui.
Macheza me falta, sou frouxo,
não nego, me escondi no mataréu
de um sítio, lá pras bandas de
Garanhuns.
Porém - toda
história é feita de entretantos
- se a gente espiar direitinho,
vai descobrir que a brabeza dos
quartéis amainou com a posse de
Castelo Branco pra de novo se
arretar por causa da Frente
Ampla, invenção de Arthur Lima
Cavalcanti. Ele cutucou satanás
com vara curta. Deu no que deu.
Tome arrocho de novo mas não
tanto, camaradas. No duro, no
duro, a morféia nazista chegou
em 68. O leprento do AI-5 mereceu
esporro até dos americanos. John
Tuthil sucedera a Lincoln Gordon
na embaixada e chegou a
recomendar a suspensão de ajuda
econômica ao Brasil - o treco de
um empréstimo de 50 milhões de
dólares ou coisa parecida.
Naquela sexta-feira 13, era
dezembro que nem hoje, o golpe
desembestou com a morrinha. O que
teve de gente morta não se conta
nos dedos nem está na tabuada
dos necrotérios, camaradas.
Depois, fez-se
um silêncio enorme. Mudez maior
nem nos cemitérios, onde as
catacumbas fecharam a boca rasa
para calar o atrevimento de
certos defuntos. Parte da
juventude preferiu morrer
guerreando no Araguaia e
Caparaó. Outra ficou aqui mesmo,
arengando com a pata dos cavalos.
Dava pro gasto o que restou de
coragem, camaradas. Durante o
dia, o tufão das passeatas. À
noite, a soturna alegria dos
bares, os festivais de canção,
Caetano e Vandré, soldados
armados, violas à mão,
caminhando e cantando os novos
refrões. Ou então nos estádios
de futebol - Pelé, Rivelino,
Gerson e Garrincha animando uma
tristeza da porra. Ou então nas
rodas intelectuais - sobretudo
Vinícius botando amor onde
existia o tédio. Porque seus
ídolos políticos estavam no
exílio, cadeia ou cemitério, a
juventude procurou proteger-se na
idolatria dos estádios, dos
bares, das noites, do amor e da
poesia, camaradas. Tiquinho só
de liberdade, castigada, oprimida
e vigiada, mas dava pro gasto,
camaradas.
Foi quando
inventaram a grande presepada da
anistia e ninguém desconfiou.
Onde já se viu ditadores
generosos, camaradas. Pensando
atrelar-se aos ídolos políticos
que voltavam, a juventude saiu
dos botecos e estádios, foi pra
rua. Sem saber que a
marcha-regresso mal cantada
parece mais um réquiem de
antigos missais e velhos
catecismos. Quando enxergou o
equívoco, passou a idolatrar o
nada. Mas restou a vontade de ir
pras ruas cantar e sorrir, brigar
e chorar. Pra que, por que e pra
quem afinal, camaradas?
A respeito do
que escrevi domingo, este bilhete
de Manoel Barbosa: "A cada
aniversário do AI-5, você conta
a "história dos homenzinhos
verdes, que os censores
interpretaram paranoicamente como
insulto ao Exército. Há um
equívoco, sério, na crônica,
que eu sempre deixei passar
porque, para mim, importava a
essência da história, o
significado. Mas dessa vez decidi
esclarecer. Até porque, com o
esclarecimento, fica mais
realçada a torpeza da
intolerância. O equívoco está
quando chama o tema do meu texto
de "malassombro". Não
era e não é. O texto referia-se
simplesmente à descoberta do
pulsar, um evento cosmológico
hoje bem conhecido. Tratava-se de
uma descoberta do astrônomo
inglês Anthony Hewish, e de sua
discípula Jocelyn Bell Burnell,
que detectaram pulsos regulares
eletromagnéticos provindos do
espaço. Logo, a comunidade
científica pensou tratar-se de
homenzinhos verdes" - um
jargão para vida fora da Terra,
antes da popularização do termo
ET. Só depois é que se
constatou que os sinais eram um
fenômeno natural, produto de uma
estrela colapsada. isto é: que,
após esgotar seu combustível
(hidrogênio e hélio),
contraiu-se, adensou-se e passou
a girar sobre si mesma, em
incrível velocidade, emitindo os
sinais como um farol. Portanto,
não é malassombro. É fato.
Para a época, a manchete era
corretíssima, cientificamente.
Só que os militares brasileiros
não sabiam. Como eu faço
divulgação científica baseado
em dados, o termo
"malassombro" me deixa
mal".
*Ronildo
Maia Leite é jornalista
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