SHOWS
O
tambor de Milton é nocaute nos
sentidospor FABIANNA FREIRE
PEPEU
Foi na Praça
Guadalajara, em Garanhuns, a 230
km do Recife, onde foi
apresentado, em julho, durante o
Festival de Inverno, uma versão
compactada do espetáculo
Tambores de Minas, de Milton
Nascimento. Hoje, às 21h30, no
Teatro Guararapes, o show será
mostrado em sua totalidade, com
duas horas de duração.
Concebido pelo
próprio Milton que, aliás,
sempre esteve muito à frente da
criação e direção de seus
discos e shows, Tambores tem a
mão do premiado dramaturgo
Gabriel Vilella. Dividido em dois
atos, o espetáculo alude à
festa de Corpus Christi e, na
segunda parte, mostra um trabalho
que mistura influências da
cultura africana e outros temas e
datas do calendário católico.
24 canções estão programadas
para o show que tem em cena nove
bailarinos-percussionistas-malabaristas
e, ainda, os integrantes da
banda. O que deve significar, no
mínimo, dezenas de elementos a
serem decodificados por ouvidos e
outros sentidos.
Tambores de
Minas é o show do álbum
anterior - Nascimento. Gravado ao
vivo o espetáculo virou o 30º
disco do cantor. Nascimento
insinua recomeço, remete ao
sobrenome de Milton que, a
despeito de ter passado por um
período difícil, entre doença
e perdas, já largamente
comentado, ganhou com esse
trabalho o Grammy 98 de Melhor
Disco de World Music.
"A
sensação que tenho,
ultimamente, comenta o músico,
em entrevista por telefone, é
que estou começando minha vida
artística porque estou com muita
vitalidade. Alegria de
novato", define ele.
"Tenho muita curiosidade de
conhecer as pessoas, mesmo que a
imprensa costume dizer que eu sou
tímido e tal, na verdade, fico
calado mas observando tudo",
revela o cantor, sugerindo que o
silêncio ou o recato não são
sinônimos de inatividade.
Milton
Nascimento explica que muitas
canções desse espetáculo são
o resultado de uma longa pesquisa
musical feita por Lincoln Cheib,
o principal responsável pela
sonoridade do disco. "Eu
encarreguei o Lincoln de fazer
essa pesquisa etive algumas
surpresas com o resultado",
adianta. Certas batidas, conta
ele, apareceram como uma grande
novidade. Caperetê, Catira, Rio
Abaixo/Rio Acima, Moça do Congo
eram apenas nomes de batidas para
o cantor. Agora, são ritmos que
fazem parte de Tambores de Minas.
"De uma
certa forma, a gente sempre usou
esses ritmos, que são
conseqüência da interação da
música trazida pelos negros Mina
com a música de outros povos que
habitavam o Brasil e, ainda,
ritmos europeus, mas essa
musicalidade estava dissolvida no
nosso trabalho. Há, nesse
momento, um maior investimento na
percussão", diz. Quase
todas as composições de
Tambores foram compostas a partir
das batidas, a percussão foi
previamente gravada. Além do que
já está incluído em Tambores
de Minas, ele revela que
"há outras batidas
catalogadas que vão servir para
novos trabalhos". Algo
parecido com os ritmos de
Pernambuco? "Há
especificidades mas são filhos
do mesmo pai", localiza.
Entre as
canções programadas para o
espetáculo que evoca vida, morte
e ressurreição de Cristo,
constam Guardanapo de Papel,
Tambores de Minas e Levantados do
Chão, uma parceria com Chico
Buarque, cuja composição trata
dos Sem-Terra. Não é só isso.
Várias músicas que marcaram a
carreira de Milton Nascimento
vão fazer parte do show. É o
caso de Paula e Bebeto, feita em
parceria com Caetano Veloso; Para
Lennon e MacCartney, de Lô
Borges, Márcio Borges e Fernando
Brant; Caçador de Mim, de
Sérgio Magrão e Luís Carlos
Sá; San Vicente e Ponta de
Areia, parcerias com Fernando
Brant.
O cantor Milton
Nascimento confessa gostar de
tocar em qualquer lugar, no
Brasil ou no exterior, mas
prefere shows ao ar livre.
"A gente faz espetáculos em
teatros para os que ainda têm
dinheiro para pagar mas sempre
que é possível a gente faz
shows abertos ao ar livre. Quanto
mais gente, mais eu me
empolgo", conta.
Uma última
curiosidade. Qual a música
preferida de Milton Nascimento? A
resposta é: Saudade dos Aviões
da Panair (de 74, letra de
Fernando Brant). "Quando eu
terminei, fiquei louco porque
não acreditava que tinha feita
algo tão bom. Continuei tocando
tanto e tanto até avaliar que
era melhor parar porque senão eu
iria ficar louco mesmo",
relembra. Largou o violão. No
meio do caminho, havia um piano.
Milton sentou e compôs Ponta de
Areia. Não é à toa que o
crítico de música Tárik de
Souza fala de um certo
"Milton Movimento".
Serviço
Show
Tambores de Minas, com Milton
Nascimento
Hoje, às 21h30
Teatro Guararapes, no Centro de
Convenções de Pernambuco
Complexo de Salgadinho s/n Olinda
Ingressos: R$ 50,00