- - - - -- - - - - - - -- - - - - - - --Jornal do Commercio - Recife, 17 de dezembro de 1998

SHOWS
O tambor de Milton é nocaute nos sentidos

por FABIANNA FREIRE PEPEU

Foi na Praça Guadalajara, em Garanhuns, a 230 km do Recife, onde foi apresentado, em julho, durante o Festival de Inverno, uma versão compactada do espetáculo Tambores de Minas, de Milton Nascimento. Hoje, às 21h30, no Teatro Guararapes, o show será mostrado em sua totalidade, com duas horas de duração.

Concebido pelo próprio Milton que, aliás, sempre esteve muito à frente da criação e direção de seus discos e shows, Tambores tem a mão do premiado dramaturgo Gabriel Vilella. Dividido em dois atos, o espetáculo alude à festa de Corpus Christi e, na segunda parte, mostra um trabalho que mistura influências da cultura africana e outros temas e datas do calendário católico. 24 canções estão programadas para o show que tem em cena nove bailarinos-percussionistas-malabaristas e, ainda, os integrantes da banda. O que deve significar, no mínimo, dezenas de elementos a serem decodificados por ouvidos e outros sentidos.

Tambores de Minas é o show do álbum anterior - Nascimento. Gravado ao vivo o espetáculo virou o 30º disco do cantor. Nascimento insinua recomeço, remete ao sobrenome de Milton que, a despeito de ter passado por um período difícil, entre doença e perdas, já largamente comentado, ganhou com esse trabalho o Grammy 98 de Melhor Disco de World Music.

"A sensação que tenho, ultimamente, comenta o músico, em entrevista por telefone, é que estou começando minha vida artística porque estou com muita vitalidade. Alegria de novato", define ele. "Tenho muita curiosidade de conhecer as pessoas, mesmo que a imprensa costume dizer que eu sou tímido e tal, na verdade, fico calado mas observando tudo", revela o cantor, sugerindo que o silêncio ou o recato não são sinônimos de inatividade.

Milton Nascimento explica que muitas canções desse espetáculo são o resultado de uma longa pesquisa musical feita por Lincoln Cheib, o principal responsável pela sonoridade do disco. "Eu encarreguei o Lincoln de fazer essa pesquisa etive algumas surpresas com o resultado", adianta. Certas batidas, conta ele, apareceram como uma grande novidade. Caperetê, Catira, Rio Abaixo/Rio Acima, Moça do Congo eram apenas nomes de batidas para o cantor. Agora, são ritmos que fazem parte de Tambores de Minas.

"De uma certa forma, a gente sempre usou esses ritmos, que são conseqüência da interação da música trazida pelos negros Mina com a música de outros povos que habitavam o Brasil e, ainda, ritmos europeus, mas essa musicalidade estava dissolvida no nosso trabalho. Há, nesse momento, um maior investimento na percussão", diz. Quase todas as composições de Tambores foram compostas a partir das batidas, a percussão foi previamente gravada. Além do que já está incluído em Tambores de Minas, ele revela que "há outras batidas catalogadas que vão servir para novos trabalhos". Algo parecido com os ritmos de Pernambuco? "Há especificidades mas são filhos do mesmo pai", localiza.

Entre as canções programadas para o espetáculo que evoca vida, morte e ressurreição de Cristo, constam Guardanapo de Papel, Tambores de Minas e Levantados do Chão, uma parceria com Chico Buarque, cuja composição trata dos Sem-Terra. Não é só isso. Várias músicas que marcaram a carreira de Milton Nascimento vão fazer parte do show. É o caso de Paula e Bebeto, feita em parceria com Caetano Veloso; Para Lennon e MacCartney, de Lô Borges, Márcio Borges e Fernando Brant; Caçador de Mim, de Sérgio Magrão e Luís Carlos Sá; San Vicente e Ponta de Areia, parcerias com Fernando Brant.

O cantor Milton Nascimento confessa gostar de tocar em qualquer lugar, no Brasil ou no exterior, mas prefere shows ao ar livre. "A gente faz espetáculos em teatros para os que ainda têm dinheiro para pagar mas sempre que é possível a gente faz shows abertos ao ar livre. Quanto mais gente, mais eu me empolgo", conta.

Uma última curiosidade. Qual a música preferida de Milton Nascimento? A resposta é: Saudade dos Aviões da Panair (de 74, letra de Fernando Brant). "Quando eu terminei, fiquei louco porque não acreditava que tinha feita algo tão bom. Continuei tocando tanto e tanto até avaliar que era melhor parar porque senão eu iria ficar louco mesmo", relembra. Largou o violão. No meio do caminho, havia um piano. Milton sentou e compôs Ponta de Areia. Não é à toa que o crítico de música Tárik de Souza fala de um certo "Milton Movimento".

Serviço

Show Tambores de Minas, com Milton Nascimento
Hoje, às 21h30
Teatro Guararapes, no Centro de Convenções de Pernambuco
Complexo de Salgadinho s/n Olinda
Ingressos: R$ 50,00


     

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