- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -Jornal do Commercio - Recife, 17 de dezembro de 1998

Pequena empresa e crise

O momento em que se renova a direção do Sebrae-PE é propício a reflexões sobre o segmento das pequenas e microempresas, seu papel na economia, sua força na criação de empregos. Pernambuco e Paraíba foram pioneiros na atenção específica a esse segmento, com a criação, há 30 anos, de organizações que tinham o nome de Núcleo de Assistência Industrial (NAI) e hoje formam o Sebrae nacional, com suas ramificações nos Estados; uma estrutura bem leve e flexível. Os NAIs foram criados a partir de projeto da Sudene, com o apoio dos governos estaduais e federações de indústrias. Gozando de bastante autonomia, paradoxalmente numa época de centralização e autoritarismo, os NAIs tiveram oportunidade de executar um importante trabalho de conscientização, arregimentação e consultoria junto a centenas de pequenas empresas nordestinas.

Quando o ex-presidente Fernando Collor começou a realizar seu projeto pessoal de desmonte das estruturas do Estado, extinguindo órgãos independentemente de sua importância pública, os antigos NAIs escaparam por não constituírem organismos estatais, mas tiveram cortadas verbas do orçamento federal, o que quase os leva à extinção. Foi quando foi imaginado o Sebrae, vinculado às federações e confederações da indústria, comércio e agricultura. Sua base financeira ficou assegurada por contribuições empresariais, possibilitando-lhe uma boa continuação de seu tradicional trabalho; apesar da interferência da política partidária.

Em todo o país, a pequena e microempresa (PME) constitui 97% do total de unidades empresariais, ficando as grandes e médias com os 3% restantes. Os grandes grupos empresariais são exceção, e não apenas no nosso país. A PME é responsável por 30% do PIB nacional e absorve em torno de 60% da mão-de-obra empregada no mercado formal. No setor de comércio e serviços, 70% das empresas são PMEs. Apesar dessa realidade, desses dados, que deveriam atrair uma atenção muito maior dos responsáveis pela nossa economia, a PME não escapa à crise que se abateu sobre o país. Recentemente, o empresário paulista Abram Szajman, presidente da Federação do Comércio do Estado de São Paulo (FCESP), afirmou que as PMEs brasileiras "estão sendo dizimadas pela epidemia da discriminação, com a complacência dos omissos e coniventes"; e que elas são vítimas "do poder econômico dos grandes conglomerados, da concorrência desleal acobertada por uma legislação ... que consagra privilégios para cartéis e oligopólios".

Em países prósperos, como a Itália, a França, os Estados Unidos, a PME é incentivada, tem linhas de crédito específicas, como sustentáculo da economia interna e fornecedora de matéria-prima, mercadorias e serviços para as grandes empresas. Entre nós, os responsáveis pela atual política econômica, elogiável e correta em inúmeros aspectos, deixaram ainda mais ao abandono as PMEs, que dependem quase exclusivamente do mercado interno, pois em raros casos possuem estrutura e suporte para exportar. Elas sofrem com a redução de investimentos, redução da demanda por causa do desemprego, aumento da inadimplência, taxas de juros extorsivas.

Isso ocorre em todo o país, inclusive no Estado mais rico, que é São Paulo. Tratando especificamente de seu setor, o presidente da FCESP diz que a federação que preside representa cerca de 500 mil empresas de comércio e serviços, responsáveis por mais de 4% do PIB brasileiro, empregando mais de um milhão de pessoas e pagando salários de mais de R$ 1,4 bilhão. A grande transformação por que passa a economia nacional, com a abertura de mercados e a globalização, não pode prejudicar o nosso desenvolvimento em geral, nem a saúde financeira e empresarial das PMEs.

"Ao contrário, a globalização, como vimos observando, só faz sentido quando for proveitosa para o nosso desenvolvimento, abrindo-nos mercados internacionais e melhorando a qualidade de nossa produção, comércio, serviços. A recessão não nos serve e, dentro dessa perspectiva, toda a sociedade está se mobilizando contra ela. O que interessa ao país é produção, empregos, consumo interno fortalecido, equilíbrio da balança comercial externa. A PME, por seu importante espaço na economia, merece melhor tratamento.

 
 

 

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