ESPECIAL / AI5
Repressão
68 um filme na tela do mundopor FERNANDO MENEZES
Ventos de
renovação e contestação
varreram o mundo em 1968. Os
primeiros sintomas vieram da
Cortina de Ferro, precisamente da
Tchecoslováquia, com a tentativa
de abertura para o
"socialismo humanizado"
de Alexander Dubcek. Foi a
Primavera de Praga, que os
tanques soviéticos sufocaram em
agosto de 68. Era o endurecimento
dos comunistas, o AI-5 de Moscou.
No Ocidente, os estudantes das
universidades de Paris quase
derrubam De Gaulle. Foi a
contestação ruidosa de Cohen
Bendit. As cabeças estavam sendo
trabalhadas também pelo talento
dos Beatles, que contestavam o
estabelishment e a violência
(Give a peace a chance).
Os governos
progressistas ou meramente
constitucionais, entre o final da
década de 60 e meados de 70, na
América Latina, esmagados pela
bipolarização do mundo da
guerra fria, desintegravam-se e
se reagrupavam em didaturas
sangrentas. Na Argentina, a
derrubada de Arturo Ilia
substituído diretamente pelos
militares (generais Ongania e
Lanusse), abriu caminho para a
violenta reação popular em
Cordoba (69). Quatro anos depois,
Peron volta ao poder, mas sua
morte coloca no poder a
presidente Isabelita. Vivia-se o
auge da disputa esquerda/direita.
A derrubada de Isabelita gerou as
ações de guerrilha com os
Montoneros enfrentando os
militares. Instala-se o período
do terror militar, que produziu
milhares de desaparecidos e
exilados, além da mais sangrenta
repressão que já se viu no
Continente, só comparável aos
anos de Pinochet, no Chile.
O Chile, que
era uma ilha de tranqüilidade no
Continente, mudou radicalmente
com a eleição do socialista
Salvador Allende. Suas medidas de
cumprimento de uma plataforma
socialista resultaram num complô
da direita incentivado pelos
Estados Unidos, unindo a
oligarquia chilena, que em
setembro de 1973 derrubou o
presidente constitucional, que
morreu no Palácio de La Moneda.
Começava o terror de Pinochet.
No Uruguai, o declínio
econômico exacerbou a
divergência dos grupos
políticos. O Governo Pacheco
Areco decreta o Estado de Sítio,
e entre 68 e 70, viveu-se uma
guerra civil não declarada, com
os Tupamaros realizando ações
de guerrilha urbana
espetaculares.
No Peru, um
general nacionalista, Velazco
Alvarado, derrubou o presidente
conservador Bellaunde Terry, e
expropriou empresas estrangeiras
além de promover uma reforma
agrária. Acabou derrubado por
outro general, Morales Bermudez,
direitista e repressor. A
guerrilha então instalou-se com
o Sendero Luminoso, que só foi
contido há dois anos, no Governo
Alberto Fujimori. No Paraguai a
ditadura Stroessner usava mão de
ferro, e aliada a Pinochet e aos
generais argentinos, desencadeava
a Operação Condor, uma caçada
aos esquerdistas ou simples
opositores a seus regimes. Era
este o panorama político/social
da América Latina no final da
década de 60 e meados de 70. O
Brasil não poderia ter ficado
imune aos movimentos da luta
esquerda/direita, e tentou, no
Governo Goulart, uma experiência
mais à esquerda. Goulart foi
derrubado abrindo caminho para
uma repressão feroz que resultou
na longa noite do AI-5.