- - - -- - - -- - - - - - - -- - - - - - --Jornal do Commercio - Recife, 13 de dezembro de 1998

ESPECIAL / AI5
Repressão 68 um filme na tela do mundo

por FERNANDO MENEZES

Ventos de renovação e contestação varreram o mundo em 1968. Os primeiros sintomas vieram da Cortina de Ferro, precisamente da Tchecoslováquia, com a tentativa de abertura para o "socialismo humanizado" de Alexander Dubcek. Foi a Primavera de Praga, que os tanques soviéticos sufocaram em agosto de 68. Era o endurecimento dos comunistas, o AI-5 de Moscou. No Ocidente, os estudantes das universidades de Paris quase derrubam De Gaulle. Foi a contestação ruidosa de Cohen Bendit. As cabeças estavam sendo trabalhadas também pelo talento dos Beatles, que contestavam o estabelishment e a violência (Give a peace a chance).

Os governos progressistas ou meramente constitucionais, entre o final da década de 60 e meados de 70, na América Latina, esmagados pela bipolarização do mundo da guerra fria, desintegravam-se e se reagrupavam em didaturas sangrentas. Na Argentina, a derrubada de Arturo Ilia substituído diretamente pelos militares (generais Ongania e Lanusse), abriu caminho para a violenta reação popular em Cordoba (69). Quatro anos depois, Peron volta ao poder, mas sua morte coloca no poder a presidente Isabelita. Vivia-se o auge da disputa esquerda/direita. A derrubada de Isabelita gerou as ações de guerrilha com os Montoneros enfrentando os militares. Instala-se o período do terror militar, que produziu milhares de desaparecidos e exilados, além da mais sangrenta repressão que já se viu no Continente, só comparável aos anos de Pinochet, no Chile.

O Chile, que era uma ilha de tranqüilidade no Continente, mudou radicalmente com a eleição do socialista Salvador Allende. Suas medidas de cumprimento de uma plataforma socialista resultaram num complô da direita incentivado pelos Estados Unidos, unindo a oligarquia chilena, que em setembro de 1973 derrubou o presidente constitucional, que morreu no Palácio de La Moneda. Começava o terror de Pinochet. No Uruguai, o declínio econômico exacerbou a divergência dos grupos políticos. O Governo Pacheco Areco decreta o Estado de Sítio, e entre 68 e 70, viveu-se uma guerra civil não declarada, com os Tupamaros realizando ações de guerrilha urbana espetaculares.

No Peru, um general nacionalista, Velazco Alvarado, derrubou o presidente conservador Bellaunde Terry, e expropriou empresas estrangeiras além de promover uma reforma agrária. Acabou derrubado por outro general, Morales Bermudez, direitista e repressor. A guerrilha então instalou-se com o Sendero Luminoso, que só foi contido há dois anos, no Governo Alberto Fujimori. No Paraguai a ditadura Stroessner usava mão de ferro, e aliada a Pinochet e aos generais argentinos, desencadeava a Operação Condor, uma caçada aos esquerdistas ou simples opositores a seus regimes. Era este o panorama político/social da América Latina no final da década de 60 e meados de 70. O Brasil não poderia ter ficado imune aos movimentos da luta esquerda/direita, e tentou, no Governo Goulart, uma experiência mais à esquerda. Goulart foi derrubado abrindo caminho para uma repressão feroz que resultou na longa noite do AI-5.


     

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