ESPECIAL / AI5
Moura
Cavalcanti foi o governador da
"linha-dura"O Golpe militar de 1964
superestimou, certamente para
justificar-se, a chamada
"organização
esquerdista", especialmente
em Pernambuco. Para os radicais
de direita existiam forças
treinadas, fardadas e armadas
para tomar o poder e instalar uma
república sindical/camponesa e
marxista. Toda uma fantasia
construída a partir da ação
das Ligas Camponesas.
Quando o Golpe
tomou o poder com extrema
facilidade, pois aqui no Recife
além da reação dos estudantes,
que até foram metralhados ao
lado da Sudene, no centro da
cidade, nada mais aconteceu como
reação imediata, nem no campo
onde estava a suposta
organização das Ligas
Camponesas de Francisco Julião.
A liderança tratou de buscar
condições mais amplas de
resistência. E assim se foram
quase todos os líderes para São
Paulo e Rio de Janeiro, os que
cosenguiram escapar da caçada
das primeiras horas.
Resistindo
ficaram as organizações da
Igreja Progressista de Dom Helder
Câmara, e alguns núcleos de
intelectuais, artistas e
estudantes. Mesmo assim, isso
não significa que não tenham
ocorrido violências e
perseguições, além de rígida
censura à imprensa, que
infelizmente, com o tempo,
transformou-se em autocensura.
Os governos
indiretos impostos pelo movimento
militar, após a vigência do Ato
Institucional nº 5 (AI-5), foram
exercidos por homens considerados
até suaves, exceto o governador
Moura Cavalcanti, legítimo
representante da linha dura, que
mesmo assim, não passou de
excessos verbais e ações
isoladas contra a oposição, a
exemplo dos cachorros e cavalos
lançados contra uma passeata do
então MDB, à frente Ulisses
Guimarães.
O deputado Nilo
Coelho, representante do
conservadorismo rural, tinha bom
trânsito em todas as áreas, e
não alimentou a pressão contra
estudantes e intelectuais, embora
tenha sido submisso ao julgo
militar. E a seguir, no auge do
ato de exceção, governou o
Estado um juiz do Tribunal
Militar, de tradicional família
de Evangélicos, o ministro
Eraldo Gueiros Leite, homem de
temperamento ameno e conciliador.
Nos últimos
tempos do ato que significou o
golpe dentro do golpe, Moura
Cavalcanti, enquanto fazia
demonstrações exteriores de
apoio ao ato, afirmava em
particular que esta era a única
postura que possibilitaria o
abreviamento da vigência do
AI-5. A Igreja de Dom Helder,
sim, sofreu tenaz perseguição,
como são exemplos atentados a
bomba e o assassinato de seu
auxiliar, o padre Henrique, crime
até hoje não esclarecido.