ESPECIAL / AI5
Dorany
abre um bar. Liberato vira
corretorAs cassações mudaram a
vida de muita gente em
Pernambuco. Políticos até
então vistos como profissionais
tiveram de uma hora para outra de
conseguir um meio de
sobrevivência. Outros, tiveram
muitas dificuldades para exercer
suas profissões. "Chegou a
um ponto, depois de ser cassado,
que eu achava que era
leproso", lembra o advogado
Dorany Sampaio. "Muita gente
deixou de falar comigo, muita
gente deixou de me cumprimentar e
me procurar como advogado. Sabiam
que eu era bom, mas temiam que o
juiz misturasse as coisas",
conta.
Casado e pai de
duas filhas, Dorany diz que não
teve dúvidas em procurar um meio
para sustentar a família. Abriu,
no Cais de Santa Rita, um
inusitado restaurante, denominado
de A Feijoada. "O forte era
mesmo a feijoada, mas tinha
comida regional". Sobreviveu
graças ao apoio dos donos da
Pitu, que patrocinaram o
restaurante com cartazes e mesas,
e do apoio que teve também de
radialistas amigos, que faziam
propaganda gratuita do
restaurante no rádio e
televisão. "Foram três
anos de trabalho direto",
lembra. Mas não tão fáceis: a
polícia gostava de ficar na
porta do restaurante,
amedrontando seus fregueses.
"Diziam para as pessoas que
eu era comunista, que não valia
nada".
Cansado da
difamação e passado o pior
momento da repressão em
Pernambuco, Dorany voltou à
advocacia. "A lepra havia
acabado, mas havia ainda gente
que não me cumprimentava".
Ele revela, hoje, que não guarda
mágoas. "Apenas apaguei
elas de minha memória".
Sílvio Pessoa,
na época arenista, também teve
de mudar de vida depois da
cassação. "Mas me preparei
para isso. Me preparei também
para enfrentar as pessoas que
atravessavam a rua para não
cruzar comigo. Foram muitas as
decepções, mas também foram
muitas e emocionantes as
manifestações de
solidariedade". Longe do
Parlamento, voltou para a
advocacia.
Liberato Costa
Júnior foi outro que também
teve de partir para outro ramo.
"Se tivesse ficado na
corretagem de imóveis, teria
ganho muito dinheiro na
vida", diz, sem
arrependimento, hoje, aos 80 anos
e oito mandatos de vereador, um
de deputado estadual e um ano
como prefeito do Recife. Mas
antes de se decidir qual
profissão abraçar, passou seis
meses em Itamaracá.
"Ouvindo meus amigos
pescadores".
Ficou como
corretor de 1970 a 82.
"Ganhei dinheiro pela
primeira vez vendendo loteamentos
e apartamentos". Mas, no
início, teve de viver do
salário da mulher, diretora de
colégio, e de favor em casa da
irmã.