ESPECIAL / AI5
"Ainda
não entendo como o País
sobreviveu à violência do
AI-5"Aos 80 anos, o
vereador Liberato Costa Júnior
(PMDB) tem, hoje, a mesma
opinião sobre o AI-5 que tinha
há 30 anos. "Uma grande
anomalia jurídica". Para
ele, foi medida das mais
violentas, nem mesmo comparada
às tomadas por ditadores como
Hitler, Mussolini e Salazar.
Ex-deputado estadual eleito pelo
extinto MDB, Liberato foi cassado
pelo AI-5 em abril de 69. Ele
conta que ao ouvir a notícia
pela TV comentou: "O general
Costa e Silva extrapolou todos os
limites do raciocínio".
Jornal
do Commercio - Como o senhor
define o AI-5 trinta anos depois?
Liberato
Costa Júnior - Da mesma
forma como entrei em contato com
ele, há 30 anos. É a medida
mais violenta em termos
jurídico, constitucional,
democrático e humanitário que
se tem notícia nos países
democráticos. Nem mesmo Hitler,
Mussolini ou Salazar, para citar
apenas três ditadores, fizeram
atos tão violentos como esse
AI-5.
JC -
Como foi viver sob o AI-5 como um
político cassado e ainda vivendo
no Nordeste?
Liberato
- Ninguém tinha
segurança de nada. Não sei até
hoje como este País sobreviveu
ao ato institucional. Deve ser
essa nossa miscigenação de
raças. No Nordeste, além disso
tudo, tivemos a força holandesa
e a colonização portuguesa. E
nós, pernambucanos, sempre
soubemos enfrentar e fazer
História neste País. Veja a
Confederação do Equador, a
Revolução Praieira, as lutas
contra o regime escravocrata, as
posturas adotadas por Joaquim
Nabuco e José Mariano.
JC - O
AI-5 desarticulou a Oposição em
Pernambuco?
Liberato
- O impacto da medida
não deixou margem de expressão
para ninguém em todo o País. E
a oposição, aqui em Pernambuco,
também arrefeceu porque o AI-5
veio para arrasar com tudo. Mas o
que mais lamento, porém, é que
hoje, após 30 anos dessa
anomalia jurídica, ainda tenha
gente querendo fazer
ponderações, querendo dar
explicações, querendo
justificar a medida. Tem gente
por aí dizendo que o general
Costa e Silva tenha ficado
apreensivo com os reflexos e
conseqüências sociais na hora
de assinar o ato. Ora, que
conversa mole é essa, gente?
JC -
Havia razões políticas para a
cassação de tantos deputados em
Pernambuco, na medida em que a
oposição, na época, foi
considerada elegante e
profissional?
Liberato
- Éramos uma oposição
competente e elegante. Uma
oposição formada por figuras
excepcionais tanto na vida
política quanto jurídica de
Pernambuco. Nenhum de nós,
cassados, fomos ouvidos pelos
militares. Acho que somente o
Egídio Ferreira Lima foi ouvido
por uma comissão de coronéis.
Até hoje ninguém sabe por que
fomos cassados. Não havia
corrupção, nem deslize
parlamentar, nem nunca houve
atitudes contra-revolucionárias.
Legislávamos democraticamente,
mas nunca deixamos de denunciar
as prisões e as torturas.
Fazíamos uma oposição
ideológica.
JC - E
a oposição também não era
ferrenha adversária do
governador Nilo Coelho...
Liberato
- O governador Nilo
Coelho era muito sensível ao
diálogo porque formou-se
politicamente no Parlamento, onde
é mais fácil a convivência
política com o poder paralelo. O
governador sabia dialogar.