- - - -- - - -- - - - - - - -- - - - - - --Jornal do Commercio - Recife, 13 de dezembro de 1998

ESPECIAL / AI5
"Ainda não entendo como o País sobreviveu à violência do AI-5"

Aos 80 anos, o vereador Liberato Costa Júnior (PMDB) tem, hoje, a mesma opinião sobre o AI-5 que tinha há 30 anos. "Uma grande anomalia jurídica". Para ele, foi medida das mais violentas, nem mesmo comparada às tomadas por ditadores como Hitler, Mussolini e Salazar. Ex-deputado estadual eleito pelo extinto MDB, Liberato foi cassado pelo AI-5 em abril de 69. Ele conta que ao ouvir a notícia pela TV comentou: "O general Costa e Silva extrapolou todos os limites do raciocínio".

Jornal do Commercio - Como o senhor define o AI-5 trinta anos depois?

Liberato Costa Júnior - Da mesma forma como entrei em contato com ele, há 30 anos. É a medida mais violenta em termos jurídico, constitucional, democrático e humanitário que se tem notícia nos países democráticos. Nem mesmo Hitler, Mussolini ou Salazar, para citar apenas três ditadores, fizeram atos tão violentos como esse AI-5.

JC - Como foi viver sob o AI-5 como um político cassado e ainda vivendo no Nordeste?

Liberato - Ninguém tinha segurança de nada. Não sei até hoje como este País sobreviveu ao ato institucional. Deve ser essa nossa miscigenação de raças. No Nordeste, além disso tudo, tivemos a força holandesa e a colonização portuguesa. E nós, pernambucanos, sempre soubemos enfrentar e fazer História neste País. Veja a Confederação do Equador, a Revolução Praieira, as lutas contra o regime escravocrata, as posturas adotadas por Joaquim Nabuco e José Mariano.

JC - O AI-5 desarticulou a Oposição em Pernambuco?

Liberato - O impacto da medida não deixou margem de expressão para ninguém em todo o País. E a oposição, aqui em Pernambuco, também arrefeceu porque o AI-5 veio para arrasar com tudo. Mas o que mais lamento, porém, é que hoje, após 30 anos dessa anomalia jurídica, ainda tenha gente querendo fazer ponderações, querendo dar explicações, querendo justificar a medida. Tem gente por aí dizendo que o general Costa e Silva tenha ficado apreensivo com os reflexos e conseqüências sociais na hora de assinar o ato. Ora, que conversa mole é essa, gente?

JC - Havia razões políticas para a cassação de tantos deputados em Pernambuco, na medida em que a oposição, na época, foi considerada elegante e profissional?

Liberato - Éramos uma oposição competente e elegante. Uma oposição formada por figuras excepcionais tanto na vida política quanto jurídica de Pernambuco. Nenhum de nós, cassados, fomos ouvidos pelos militares. Acho que somente o Egídio Ferreira Lima foi ouvido por uma comissão de coronéis. Até hoje ninguém sabe por que fomos cassados. Não havia corrupção, nem deslize parlamentar, nem nunca houve atitudes contra-revolucionárias. Legislávamos democraticamente, mas nunca deixamos de denunciar as prisões e as torturas. Fazíamos uma oposição ideológica.

JC - E a oposição também não era ferrenha adversária do governador Nilo Coelho...

Liberato - O governador Nilo Coelho era muito sensível ao diálogo porque formou-se politicamente no Parlamento, onde é mais fácil a convivência política com o poder paralelo. O governador sabia dialogar.


     

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