ESPECIAL / AI5
Movimentos
sociais, a voz da resistênciapor NÁDIA FERREIRA
Dezembro de
1968. Dezembro de 1998. Nos 30
anos que separam uma data da
outra, os movimentos sociais no
Brasil passaram por mudanças
profundas. Violentados e
devassados pelo AI-5, não se
intimidaram com os "anos de
chumbo". Na resistência ao
regime militar, buscaram
alternativas que se colocaram
também contrárias à força
pregada por setores da esquerda.
Da repressão aos sindicatos,
movimento estudantil e partidos,
surgiram novas formas de
resistência, pautadas na
organização popular.
O Recife foi
uma das cidades que viveram de
perto essa resistência.
Amparados pela Igreja
progressista, os movimentos
sociais passaram a se organizar
nas associações de bairros,
encontros de irmãos, na luta
pela terra que resultaria no
Movimento Terra de Ninguém. Os
trabalhadores, em especial os
operários e os trabalhadores
rurais, foram buscar em entidades
como Ação Católica Operária e
a Fetape o fio condutor para a
organização, tendo como desafio
a conquista da democracia.
"O que
sobrou foi o que não
percebíamos. Um novo modelo de
participação, dando
sustentabilidade aos processos
sociais", diz o sociólogo e
futuro secretário estadual de
Planejamento, José Arlindo.
Militante do Partido Operário
Revolucionário Trostkista, o
sociólogo fez uma autocrítica e
admite: "A ditadura nos
ensinou a valorizar a
democracia".
Entidades como
a ACO e a Fetape enfrentaram a
repressão usando a tática da
"formiguinha". Com os
sindicatos sob intervenção, a
Fetape optou por um trabalho
lento de reaproximação das
bases. Um dos doze advogados
contratados pela entidade, Romeu
da Fonte diz que nas reuniões
oficiais discutiam-se as causas
individuais "De forma
dissimulada, íamos aos batizados
e casamentos para fazer reuniões
debaixo das jaqueiras",
lembra, ressaltando que esse
trabalho possibilitou aos
canavieiros fazer a primeira
greve, em 1979, em plena
ditadura.