ESPECIAL / AI5
Igreja
assume a luta mas também sofre
repressãoCom partidos políticos,
entidades estudantis e sindicatos
cerceados pela ditadura, a Igreja
Católica - sob a influência do
Concílio Vaticano II - assumiu o
papel de "guarda chuva"
dos movimentos sociais,
devassados pelo AI-5. Nesse
contexto, Pernambuco foi um dos
alvos do regime, em função da
figura do arcebispo de Olinda e
Recife, Dom Hélder Câmara, um
dos religiosos que personalizou a
luta contra a ditadura e a
violência.
Acompanhado
passo a passo pelos órgãos de
segurança, Dom Hélder sofreu um
duro golpe após o AI-5, com a
tortura e morte do padre
Henrique, em maio de 69. "A
morte do padre Henrique atingiu
dois alvos: Dom Hélder e os
estudantes", diz o padre
Reginaldo Veloso, também vítima
da repressão. Da ala
progressista, Reginaldo comandava
a paróquia da Macaxeira em 73,
quando foi seqüestrado por
algumas horas.
No mesmo
período, houve a invasão da
Ação Católica Operária e da
Secretaria Diocesana Regional,
para recolher cópias de um
documento lançado numa reunião
de bispos do Brasil. Ao assumir o
papel de ser "a voz dos que
não têm voz", a Igreja
tornou-se vítima da repressão.
Religiosos foram condenados por
tribunais militares, padres foram
presos, assassinados pela
polícia. Alguns deixaram o
País, como Darriel Rupter e
Peter Grams, que trabalhavam na
paróquia do Jordão.
A atuação de
Dom Hélder apoiando a
organização da sociedade,
condenando a repressão e
denunciando as torturas no
exterior não passaram impunes.
Sua casa foi metralhada, seu nome
foi proibido na mídia. Espaço
de organização e mobilização,
a Igreja - à frente religiosos
como Dom Hélder e Dom Paulo
Evaristo Arns - desenvolveu uma
articulação com a sociedade,
alternativa às forças que
lutavam pelo poder.
No auge da
repressão, Dom Hélder cria a
Ação, Justiça e Paz. Sob o seu
comando surgiram os encontros de
irmãos, o movimento de luta pela
terra, as paróquias, como as dos
altos e córregos, passaram a ter
uma atuação mais forte.
"Essas expressões são
células das comunidades
eclesiais de base", diz
Reginaldo.
As Cebs foram,
na avaliação do cientista
político Roberto Aguiar, uma
resposta da sociedade às forças
que brigavam pelo poder.
"Foi a forma da sociedade
dizer: nem a adesão ao regime,
nem a luta armada, mas a
organização democrática",
analisa Aguiar. "O encontro
do pessoal da luta política com
a Igreja ajudou os cristãos a
viverem sua fé com compromisso
forte de transformar a
sociedade", diz o padre
Reginaldo.