- - - -- - - -- - - - - - - -- - - - - - --Jornal do Commercio - Recife, 13 de dezembro de 1998

ESPECIAL / AI5
Igreja assume a luta mas também sofre repressão

Com partidos políticos, entidades estudantis e sindicatos cerceados pela ditadura, a Igreja Católica - sob a influência do Concílio Vaticano II - assumiu o papel de "guarda chuva" dos movimentos sociais, devassados pelo AI-5. Nesse contexto, Pernambuco foi um dos alvos do regime, em função da figura do arcebispo de Olinda e Recife, Dom Hélder Câmara, um dos religiosos que personalizou a luta contra a ditadura e a violência.

Acompanhado passo a passo pelos órgãos de segurança, Dom Hélder sofreu um duro golpe após o AI-5, com a tortura e morte do padre Henrique, em maio de 69. "A morte do padre Henrique atingiu dois alvos: Dom Hélder e os estudantes", diz o padre Reginaldo Veloso, também vítima da repressão. Da ala progressista, Reginaldo comandava a paróquia da Macaxeira em 73, quando foi seqüestrado por algumas horas.

No mesmo período, houve a invasão da Ação Católica Operária e da Secretaria Diocesana Regional, para recolher cópias de um documento lançado numa reunião de bispos do Brasil. Ao assumir o papel de ser "a voz dos que não têm voz", a Igreja tornou-se vítima da repressão. Religiosos foram condenados por tribunais militares, padres foram presos, assassinados pela polícia. Alguns deixaram o País, como Darriel Rupter e Peter Grams, que trabalhavam na paróquia do Jordão.

A atuação de Dom Hélder apoiando a organização da sociedade, condenando a repressão e denunciando as torturas no exterior não passaram impunes. Sua casa foi metralhada, seu nome foi proibido na mídia. Espaço de organização e mobilização, a Igreja - à frente religiosos como Dom Hélder e Dom Paulo Evaristo Arns - desenvolveu uma articulação com a sociedade, alternativa às forças que lutavam pelo poder.

No auge da repressão, Dom Hélder cria a Ação, Justiça e Paz. Sob o seu comando surgiram os encontros de irmãos, o movimento de luta pela terra, as paróquias, como as dos altos e córregos, passaram a ter uma atuação mais forte. "Essas expressões são células das comunidades eclesiais de base", diz Reginaldo.

As Cebs foram, na avaliação do cientista político Roberto Aguiar, uma resposta da sociedade às forças que brigavam pelo poder. "Foi a forma da sociedade dizer: nem a adesão ao regime, nem a luta armada, mas a organização democrática", analisa Aguiar. "O encontro do pessoal da luta política com a Igreja ajudou os cristãos a viverem sua fé com compromisso forte de transformar a sociedade", diz o padre Reginaldo.


     

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