- - - -- - - -- - - - - - - -- - - - - - --Jornal do Commercio - Recife, 13 de dezembro de 1998

ESPECIAL / AI5
"A democracia passou a ser mais valorizada"

Dirigente do PCBR nos anos 60 e 70, o atual secretário de Políticas Sociais do Recife, Chico de Assis, foi um dos jovens que sonharam em mudar o mundo através das armas. Foi torturado e passou quase dez anos na prisão. Os anos nos porões da ditadura expuseram o isolamento e serviram para refletir sobre o distanciamento entre as teses do mundo ideal da esquerda e o idealizado pela sociedade. "A gente quis fazer a revolução pelo povo", analisa Chico de Assis.

JC - O senhor concorda com a tese de que a ditadura militar ensinou os defensores da ditadura do proletariado a valorizar a democracia?

Chico de Assis - Queríamos fazer a revolução pelo povo e, num primeiro momento, confundimos a simpatia da população com a luta contra a ditadura, com a disposição de instalar um governo popular revolucionário. Esse distanciamento só poderia dar no que deu.

JC - Por isso, o sonho de mudar o mundo não se realizou?

Chico de Assis - Não da forma que pensávamos. As mudanças ocorreram, algumas para melhor. O conceito de democracia nas forças sociais e políticas passou a ser muito mais valorizado. O socialismo real desmoronou expondo práticas que pensávamos que eram só do capitalismo.

JC - Valeu a pena?

Chico de Assis - Do ponto de vista pessoal, sim. Se pudesse voltar atrás, tirava alguns anos de cadeia, algumas coisas procuraria não fazer. Foi uma experiência enriquecedora. Passamos a dar importância a valores considerados burgueses, como a solidariedade da família. Há as perdas. Passamos os anos mais importantes da vida na cadeia.

JC - Hoje o senhor está num grupo político formado por pessoas que, durante a ditadura, apoiaram o regime. Como é isso?

Chico de Assis - Não me coloco como há 30 anos, quando o ideal era destruir o sistema. Hoje a postura é de avanço na democracia, nas conquistas sociais que, aos poucos, vão reduzindo a exclusão e recuperando a cidadania. Não são mais os cortes ideológicos que aproximam, mas a prática de cada um. Não podemos desprezar a convergência com setores conservadores que apontam nessa direção. Não sou mais comunista, mas conservo do marxismo o melhor dele: a feição humanitária.


     

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