ESPECIAL / AI5
Sonhos
de estudante de mudar o mundo
são esfacelados pela forçaUm dos setores mais
fortes da sociedade civil, o
movimento estudantil atuou na
semi-legalidade de 1964 a 1968.
Havia passeatas, mobilizações,
confrontos com a polícia,
prisões. Com o AI-5, os
movimentos estudantis de massa
desapareceram. Em Pernambuco não
foi diferente. Nada era
permitido. Tudo era reprimido.
Uma das
primeiras vítimas do AI-5 no
Estado foi o presidente da União
dos Estudantes de Pernambuco,
Cândido Pinto. Após sofrer um
atentado, em abril de 69, ficou
paralítico. O AI-5 das
universidades, o decreto 477
proibia qualquer participação
política de estudantes,
professores e funcionários.
Com base no
477, as universidade expulsaram
alunos, cassaram professores.
"O movimento passou a atuar
na clandestinidade. Sem
alternativa, os estudantes mais
ativos foram empurradas para a
luta armada", diz o vereador
de Olinda, Marcelo Santa Cruz
(PT), um dos cinco estudantes
expulsos da Faculdade de Direito
do Recife.
Militantes
secundaristas e universitários,
os estudantes dividiam-se, nas
décadas de 60 e 70, entre o
sonho de mudar o mundo fazendo a
ditadura do proletariado e a luta
para romper tabus. "Éramos
guiados pela idéia fixa de
revolução. Não percebíamos a
dimensão das mudanças sociais
em curso, como a defesa do amor
livre", diz o futuro
secretário de Planejamento do
Estado, José Arlindo Soares, um
dos estudantes expulsos da
Universidade Federal do Ceará.
José Arlindo
diz que os ortodoxos não
percebiam o novo, representado
pela luta em defesa da liberdade
sexual, das minorias.
"Éramos muito fechados,
trogloditas", brinca. Não
ortodoxo, Santa Cruz diz
orgulhoso: "A nossa
geração rompeu tabus, brigando
pelo amor livre".
Em meio a
divisão da base com relação a
visão de mundo, as entidades
estudantis foram esfaceladas pela
repressão. A sede da UNE foi
invadida, saqueada e queimada.
Mesmo depois do fim do AI-5, o
prédio foi demolido em 1980 e o
terreno doado. Dano que só foi
reparado em 1994, quando a UNE
recebeu o terreno de volta.