- - - -- - - -- - - - - - - -- - - - - - --Jornal do Commercio - Recife, 13 de dezembro de 1998

ESPECIAL / AI5
Aprendendo e ensinando uma nova lição

por GILVANDRO FILHO

Nas escolas, nas ruas, campos, construções, a cultura brasileira nunca mais foi a mesma depois de dezembro de 1968. Em todos as manifestações artísticas e culturais, passando pela informação de massa, o dedo do censor foi o centro de um enredo que ficou em cartaz até janeiro de 79. Cada um ao seu modo, músicos, poetas, artistas plásticos, escritores, atores e cineastas tiveram que reaprender o ofício, buscando formas sutis de burlar o cerco. E tudo às escondidas da sociedade. Alvo preferencial da censura, a imprensa pouco, ou quase nada, podia registrar.

Em Pernambuco, a tesoura da censura cortou para todos os lados. No teatro, atingiu, sobretudo, peças e atores do Teatro Popular do Nordeste, foco de resistência cultural que tinha à frente o teatrólogo e escritor Hermilo Borba Filho. Até sua morte, em 1976, Hermilo foi um dos diretores mais visados pelo Departamento de Censura e Diversões Públicas da Polícia Federal, o pomposo nome pelo qual respondia o órgão encarregado de podar a produção intelectual, em todo o país.

Na literatura (ver matéria nesta página), o poeta Arnaldo Tobias acabou por personificar a figura daqueles que eram vítimas regulares da censura. Outro poeta, Marcelo Mário de Melo chegou a "contrabandear" poesias; preso político na Ilha de Itamaracá, teve que buscar alternativas para a sua arte, como guardar pedacinhos de papel escritos ou decorar versos para não perdê-los.

HERANÇA DE AQUÁRIUS - O AI-5 apanhou os artistas, intelectuais e jornalistas pernambucanos de surpresa e ressaca. Se poucos esperavam por uma reação tão dura - e muito menos pelas suas conseqüências tão nefastas -, muitos ainda não haviam acordado do grande sonho que marcou os anos 60. A "geração de Aquárius" se dividia entre os que pensavam em tomar o poder e os que simplesmente o desprezavam. Uma época em que, segundo Caetano Veloso, o sol se repartia "em crimes, espaçonaves, guerrilhas e em Cardinales bonitas".

A corrente tropicalista fundada por Caetano tinha como propagador no Nordeste o professor Jomard Muniz de Brito que, a partir de março de 1969, expulso da Universidade Federal da Paraíba, iniciou sua via-crucis em busca de uma reparação que nunca veio. A última tentativa de reintegração aos quadros da UFPB aconteceu em 1978, ano em que o AI-5 recebia sua extrema-unção. Os motivos da expulsão, nem mesmo o próprio Jomard jamais conseguiu saber, ao menos em versão oficial.

A tesoura atingiu em cheio, também, as artes plásticas. Já em 1969, o pintor Wellington Virgolino viu censurado o seu "Capitão de Fandango", onde um garboso militar exibia um penico no lugar do quepe. João Cãmara teve um quadro seu, "Acusada", proibido por toda a década em que durou o Ato Institucional.

A longa noite durou dez longos anos.


     

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