ESPECIAL / AI5
E
a censura amordaçou a imprensa"É proibido citar
o nome de Dom Helder
Câmara". "Está
proibida notícia da prisão de
estudantes no Recife".
"Não publicar decreto de
Dom Pedro I, do século passado,
abolindo a censura no
Brasil".
O AI-5
inaugurou, nas redações de todo
o país, a era dos bilhetinhos.
Pedaços de papel afixados em
quadros de avisos eram a forma
como a censura mandava seus
recados. As mensagens variavam
entre o perverso e o ridículo,
numa época em que jornalões
como o Estado de São Paulo
preenchiam os "buracos"
deixados pelas matérias
censuradas por receitas de bolo
ou poemas de Camões.
À parte o
grotesto, a ação do regime
militar pós AI-5 sobre a
imprensa ultrapassou limites da
barbárie, prendendo, torturando
e assassinando jornalistas, como
foi o caso de Wladimir Herzog, em
1976. Tudo sob o manto legal do
Ato de dezembro de 69.
Em Pernambuco,
um dos episódios mais
traumáticos foi vivido pelo
jornalista Carlos Garcia, em
1974. Por noticiar a prisão
ilegal do então vereador Marcus
Cunha (MDB) pelo IV Exército,
Garcia - na época chefe da
sucursal de O Estado de São
Paulo no Recife - foi preso,
algemado e deitado no chão de
uma camionete Rural, a mesma que
conduzira Marcus Cunha. No QG do
Exército, foi espancado por
agentes de segurança e obrigado
preencher, no escuro e sem
óculos - quebrados pelos seus
algozes - a questionários sobre
as suas "atividades
subsersivas".
A partir de 69,
as redações passaram a tem como
membro efetivo o censor. No dia
seguinte ao Ato, o Jornal do
Commercio deu em oito colunas o
ato e o recesso do Congresso. A
partir daí, só eram permitidas
notícias favoráveis aos
militares. "Eram anos de
perseguição e total cerceamento
da liberdade de expressão",
analisa hoje o jornalista Ronildo
Maia Leite, editor do extinto
vespertino Diário da Noite"
na noite em que foi assinado o
AI-5. "Lembro que saí do
jornal para Cantina Boa Vista
onde um coronel, infiltrado em
nosso pessoal, foi desmascarado e
surrado", conta Maia Leite,
autor da manchete com que o
Diário da Noite foi às ruas, no
dia seguinte. "Recebi ordens
expressas para não tocar no
assunto. E, como havia um circo
instalado próximo ao jornal, a
manchete saiu na hora: Hoje tem
espetáculo". (G.F.)