- - - -- - - -- - - - - - - -- - - - - - --Jornal do Commercio - Recife, 13 de dezembro de 1998

ESPECIAL / AI5
E a censura amordaçou a imprensa

"É proibido citar o nome de Dom Helder Câmara". "Está proibida notícia da prisão de estudantes no Recife". "Não publicar decreto de Dom Pedro I, do século passado, abolindo a censura no Brasil".

O AI-5 inaugurou, nas redações de todo o país, a era dos bilhetinhos. Pedaços de papel afixados em quadros de avisos eram a forma como a censura mandava seus recados. As mensagens variavam entre o perverso e o ridículo, numa época em que jornalões como o Estado de São Paulo preenchiam os "buracos" deixados pelas matérias censuradas por receitas de bolo ou poemas de Camões.

À parte o grotesto, a ação do regime militar pós AI-5 sobre a imprensa ultrapassou limites da barbárie, prendendo, torturando e assassinando jornalistas, como foi o caso de Wladimir Herzog, em 1976. Tudo sob o manto legal do Ato de dezembro de 69.

Em Pernambuco, um dos episódios mais traumáticos foi vivido pelo jornalista Carlos Garcia, em 1974. Por noticiar a prisão ilegal do então vereador Marcus Cunha (MDB) pelo IV Exército, Garcia - na época chefe da sucursal de O Estado de São Paulo no Recife - foi preso, algemado e deitado no chão de uma camionete Rural, a mesma que conduzira Marcus Cunha. No QG do Exército, foi espancado por agentes de segurança e obrigado preencher, no escuro e sem óculos - quebrados pelos seus algozes - a questionários sobre as suas "atividades subsersivas".

A partir de 69, as redações passaram a tem como membro efetivo o censor. No dia seguinte ao Ato, o Jornal do Commercio deu em oito colunas o ato e o recesso do Congresso. A partir daí, só eram permitidas notícias favoráveis aos militares. "Eram anos de perseguição e total cerceamento da liberdade de expressão", analisa hoje o jornalista Ronildo Maia Leite, editor do extinto vespertino Diário da Noite" na noite em que foi assinado o AI-5. "Lembro que saí do jornal para Cantina Boa Vista onde um coronel, infiltrado em nosso pessoal, foi desmascarado e surrado", conta Maia Leite, autor da manchete com que o Diário da Noite foi às ruas, no dia seguinte. "Recebi ordens expressas para não tocar no assunto. E, como havia um circo instalado próximo ao jornal, a manchete saiu na hora: Hoje tem espetáculo". (G.F.)


     

Índice | Editorial | Política | Brasil | Internacional | Cidades | Ciência/Meio Ambiente | Esportes | Economia |
Caderno C | Informática | Turismo | Charge | Colunas | Regional | Veículos | Família | Especiais

Últimas Notícias | JC Debate | Roteiro | Weekend | Bate-papo | Tábua de Marés
Fale com o JC | Links | Classificados | Rádio Jornal| Edições Anteriores | Assinantes