- - - -- - - -- - - - - - - -- - - - - - --Jornal do Commercio - Recife, 13 de dezembro de 1998

ESPECIAL / AI5
Quase nada ficou registrado em livros

por MARIO HÉLIO

Se um marciano quisesse saber a história da repercussão do AI-5 pela literatura pernambucana da época em que foi posto em prática o ato, nada saberia. O domínio do medo foi quase completo nos escritores. Apenas dois poetas, Arnaldo Tobias e Marcelo Mário de Melo, refletiram de modo explícito a insatisfação com aqueles ferrolhos políticos que começaram a fechar as portas em 64 e em 68 radicalizaram os seus métodos. Noutro poeta, Sérgio Moacir de Albuquerque, num livro publicado em 68, Murais da morte, também se encontra o protesto, mas o veículo é a metáfora. O melhor relato em romance só apareceria quase trinta anos depois. É A trilha do labirinto, de Chico de Assis, militante como Melo, e atual Secretário de Políticas Sociais do Recife.

Marcelo Mário de Melo, na época do AI-5, era militante do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário, que pregava e tentava praticar a luta armada. Enquanto lutava contra os militares, ele fazia poemas satíricos, como os "Antiburocráticos". Um exemplo dos versos: "o verde burocrata maduro/ no seu casulo/ refaz o mundo arredondando-lhe o corte/ com a sua implacável,/ grave e disciplinada/ tesoura de decretos burocráticos."

A experiência da poesia militante de Arnaldo Tobias pode ser conferida no seu livro Passaporte, e em diversos poemas inéditos (talvez a maior parte da produção literária anti-AI-5 ainda esteja inédita, aguardando divulgação). "Tenho marcas profusas e profundas do AI-5, há quase três décadas, no lastro do peito que arde em sangue coagulado de lágrimas pelos meus desaparecidos e torturados pelo regime brutal da ditadura militar", diz Arnaldo Tobias. "Quando instituíram em reunião larga este triste ato, com pouco tempo me dei com os costados nas unhas do Dops, nas ordens do delegado Moacir Sales".

Tobias não chegou a passar pelos corredores grudentos do Dops, porque, por incrível que pareça um recorte do JC da época, encontrado no seu bolso, sobre o Vietnam, agradou ao policial a quem foi entregue. "O delegado perguntou-me se eu era poeta e mandou que eu saísse pelos fundos da delegacia, rua da União, sem olhar para trás." As lembranças das passeatas, marchas e outros atos de protesto contra o Ato 5 estão frescas na memória do poeta. "Recordo do terror de um estudante inocente, como quase todos nós, espirrava sangue da cabeça, sangue vivo na vitrina da loja Remilet", diz. "Deixei cair na carreira os livros de Unamuno, Ionesco e Che Guevara. Até Teillard Chardin era considerado suspeito pelo regime".


     

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