ESPECIAL / AI5
Quase
nada ficou registrado em livrospor MARIO HÉLIO
Se um marciano
quisesse saber a história da
repercussão do AI-5 pela
literatura pernambucana da época
em que foi posto em prática o
ato, nada saberia. O domínio do
medo foi quase completo nos
escritores. Apenas dois poetas,
Arnaldo Tobias e Marcelo Mário
de Melo, refletiram de modo
explícito a insatisfação com
aqueles ferrolhos políticos que
começaram a fechar as portas em
64 e em 68 radicalizaram os seus
métodos. Noutro poeta, Sérgio
Moacir de Albuquerque, num livro
publicado em 68, Murais da morte,
também se encontra o protesto,
mas o veículo é a metáfora. O
melhor relato em romance só
apareceria quase trinta anos
depois. É A trilha do labirinto,
de Chico de Assis, militante como
Melo, e atual Secretário de
Políticas Sociais do Recife.
Marcelo Mário
de Melo, na época do AI-5, era
militante do Partido Comunista
Brasileiro Revolucionário, que
pregava e tentava praticar a luta
armada. Enquanto lutava contra os
militares, ele fazia poemas
satíricos, como os
"Antiburocráticos". Um
exemplo dos versos: "o verde
burocrata maduro/ no seu casulo/
refaz o mundo arredondando-lhe o
corte/ com a sua implacável,/
grave e disciplinada/ tesoura de
decretos burocráticos."
A experiência
da poesia militante de Arnaldo
Tobias pode ser conferida no seu
livro Passaporte, e em diversos
poemas inéditos (talvez a maior
parte da produção literária
anti-AI-5 ainda esteja inédita,
aguardando divulgação).
"Tenho marcas profusas e
profundas do AI-5, há quase
três décadas, no lastro do
peito que arde em sangue
coagulado de lágrimas pelos meus
desaparecidos e torturados pelo
regime brutal da ditadura
militar", diz Arnaldo
Tobias. "Quando instituíram
em reunião larga este triste
ato, com pouco tempo me dei com
os costados nas unhas do Dops,
nas ordens do delegado Moacir
Sales".
Tobias não
chegou a passar pelos corredores
grudentos do Dops, porque, por
incrível que pareça um recorte
do JC da época, encontrado no
seu bolso, sobre o Vietnam,
agradou ao policial a quem foi
entregue. "O delegado
perguntou-me se eu era poeta e
mandou que eu saísse pelos
fundos da delegacia, rua da
União, sem olhar para
trás." As lembranças das
passeatas, marchas e outros atos
de protesto contra o Ato 5 estão
frescas na memória do poeta.
"Recordo do terror de um
estudante inocente, como quase
todos nós, espirrava sangue da
cabeça, sangue vivo na vitrina
da loja Remilet", diz.
"Deixei cair na carreira os
livros de Unamuno, Ionesco e Che
Guevara. Até Teillard Chardin
era considerado suspeito pelo
regime".