ESPECIAL / AI5
Os
líderes que trabalharam pela
Aberturapor INALDO SAMPAIO
Com a
decretação do AI-5 pelo
marechal Arthur da Costa e Silva
no dia 13 de dezembro de 1968,
Pernambuco foi um dos Estados
mais atingidos por esse
instrumento de exceção que dava
poderes ditatoriais ao
presidente.
Havia no Estado
sete categorias de políticos: os
que militavam na oposição e
combatiam o regime no Parlamento
(Fernando Lyra, Marcos Freire,
Jarbas); os que militavam na
oposição mas tinham diálogo
com o Governo (Thales Ramalho);
os que perderam o mandato por sua
atuação política (Osvaldo Lima
Filho e José Carlos Guerra); os
que se encontravam exilados desde
o golpe de 64 (Arraes, Julião,
Gregório Bezerra); os que foram
cassados em 64 mas não foram
punidos com o exílio (Pelópidas
Silveira); os que eram aliados do
regime mas trabalhavam pela
abertura (Marco Maciel, Etelvino
Lins, Syleno Ribeiro) e,
finalmente, os que eram aliados
do regime e trabalhavam para
fechá-lo ainda mais (Costa
Cavalcante).
O AI-5 reabriu
no País o processo de cassação
de parlamentares. O senador
Daniel Krieger (RS), em protesto,
renunciou à presidência da
Arena e a liderança do governo
no Senado. É aí que entra em
cena o senador Fellinto Müller
(Arena-MT), "padrinho
político" de dois
nosdestinos que trabalhavam pela
abertura: Petrônio Portela e
Marco Maciel.
Petrônio,
então governador do Piauí, não
apoiara o golpe de 64 mas foi
salvo da cassação por Castelo
Branco. Quando o AI-5 foi
decretado, ele já se encontrava
no Senado e, Maciel, na
Assembléia Legislativa de
Pernambuco. Felinto Müller, por
sua vez, substituíra Krieger na
liderança do Governo e no
comando da Arena.
"Ele de
certa forma iniciou o debate pela
volta das prerrogativas do
Judiciário, procurando afirmar
perante o Congresso a
transitoriedade do regime de
exceção", conta Maciel.
Por intermédio de Felinto,
Maciel - ao chegar na Câmara em
71 - passou a galgar posições
de relevo e Petrônio foi
indicado para substitur Felinto
na liderança do Governo. Em 71,
por indicação do mesmo Felinto,
Petrônio assumiria a
presidência do Senado.
Com a morte de
Felinto em 73, tanto Petrônio
quanto Maciel ligaram-se a dois
militares que trabalhavam pela
democracia: Golbery do Couto e
Silva e Ernesto Geisel. Quando
Geisel tornou-se presidente, em
74, Golbery foi convidado por ele
para a chefia da Casa Civil, a
quem cabia o trabalho de
articulação política do
Governo.
Nessa época,
Petrônio era presidente da Arena
e líder do Governo no Senado, e,
Maciel, cumpria o segundo mandato
na Câmara Federal. Ambos, aos
poucos, ganharam a confiança de
Golbery. Petrônio participaria
ativamente da escolha dos
governadores indiretos (Moura
Cavalcanti foi o escolhido para
Pernambuco) e, depois, passou a
viajar pelos Estados
"buscando aproximar o
Governo da sociedade",
segundo Maciel.
"Thales
Ramalho, que era deputado federal
pelo MDB, se destacava no
Congresso como um dos expoentes
da facção moderada do seu
partido. Por ser um dos
interlocutores de Petrônio, ele
era permanentemente alvo de
críticas dos setores mais
radicais do MDB. "Hoje,
devemos reconhecer que ele
desempenhou um papel fundamental
no processo de reconquista
democrática", assinala
Fernando Lyra.
Apesar dos
esforços de Petrônio, havia
grupos radicais ligados ao
Governo que trabalhavam para
endurecer o regime, como o
governador Moura Cavalcanti. Esse
período se caracterizou por
muitos avanços e recuos. Um dos
recuos foi quando Geisel valeu-se
do AI-5 (julho de 75) para cassar
o mandato do senador pernambucano
Wilson Campos.
Depois desse
fato, Petrônio Portela - com a
colaboração de Maciel -
entregou-se ao maior desafio de
sua carreira: a revogação do
AI-5. Passou a conversar com a
"sociedade civil" por
meio de viagens que ficaram
conhecidas por "Missão
Portela".
Em abril de 77,
o trabalho da "Missão
Portela" sofreria o primeiro
revés. Geisel, irritado porque o
Congresso rejeitara a
"Reforma do
Judiciário", usou o AI-5
para baixar o "Pacote de
abril", que acabava com a
eleição direta para os governos
estaduais e criava a figura do
senador "biônico". O
segundo passo atrás foi a
cassação do líder da
oposição na Câmara, Alencar
Furtado (PR).
Depois desses
dois recuos, houve uma boa
notícia para os que defendiam a
democracia: em outubro de 77,
Geisel demitiu o ministro do
Exército, general Silvio Frota,
que se opunha à abertura.
Mas a
"Missão Portela" só
foi concluída quando o o senador
piauiense conseguiu
consubstanciar o conjunto de
idéias que recolhera nos seus
contatos na chamada Emenda
Constitucional nº 11, documento
que Maciel reputa hoje como tendo
sido a base jurídica para a
revogação do AI-5. A Emenda foi
aprovada em setembro de 78 e
passou a vigorar no dia 1º de
janeiro de 79. Entre outras
coisas, vedava ao presidente o
direito de cassar mandatos,
extinguia a pena de morte,
restabelecia o habeas corpus e
abria caminho para o
pluripartidarismo.
"Em
janeiro desse mesmo ano, o
substituto de Geisel na
presidência, general João
Figueiredo, convidou Petrônio
para o Ministério da Justiça,
ao passo que Maciel voltaria para
Pernambuco para assumir o Governo
estadual. Nesse novo cargo,
Petrônio - que teve como chefe
de gabinete o advogado Syleno
Ribeiro - passou a trabalhar para
dar seqüência à abertura: em
prol da anistia, aprovada em
agosto desse mesmo ano.
Syleno e Thales
Ramalho haviam trabalhado em
Pernambuco no Governo de Cordeiro
de Farias, que era general,
detinha muita influência nos
quartéis e também trabalhava
pela abertura. Com a anistia,
conquistada em 79, Arraes foi um
dos que retornaram a Pernambuco,
ao passo que Thales Ramalho
passou a organizar com Tancredo
Neves a fundação do Partido
Popular (PP), do qual foi líder
na Câmara dos Deputados e
presidente regional em
Pernambuco. Hoje, aposentado do
Tribunal de Contas da União,
Thales Ramalho fixou residência
no Recife, mas permanece arredio
à imprensa.