- - - -- - - -- - - - - - - -- - - - - - --Jornal do Commercio - Recife, 13 de dezembro de 1998

ESPECIAL / AI5
Assembléia fechada, deputados cassados

por PAULO SÉRGIO SCARPA

Naquele 14 de junho de 1968, o Recife amanheceu quente, abafado e com céu azul. As primeiras páginas do Jornal do Commercio e Diario de Pernambuco não eram nada agradáveis: decretação, um dia antes, do AI-5 pelo marechal Costa e Silva; a defesa do ato pelo ministro da Justiça, Gama e Silva; a prisão do deputado Márcio Moreira Alves; e mais informações sobre o atentado ao Aeroporto dos Guararapes. Mas era dia de jogo (Brasil X Alemanha) e, nos cinemas, o destaque era a reprise de "Suave é a Noite". "Mas foi o dia em que a noite ficou mais escura", resume, hoje, o ex-deputado Sílvio Pessoa, então na Arena.

A verdade é que o AI-5 pegou a todos de surpresa. Principalmente os políticos, que já farejavam alguma coisa no ar, mas que nunca poderiam imaginar o que realmente aconteceria a partir daquela sexta-feira 13. "Foi como um murro no estômago da gente", lembra o então deputado estadual Fernando Lyra, do MDB. Sem saber, ao certo, o que fazer, Lyra lembra que ficou desnorteado. "A gente nem podia se reunir na Assembléia". A Assembléia estava em recesso e permaneceria em "recesso parlamentar", como gostavam de denominar os militares, até 1º de junho de 1970.

E, em recesso, Arena e MDB ficaram sem função. "O ato nos roubou todas as garantias individuais e políticas", analisa o então líder da oposição, Geraldo Pinho Alves, lembrado ainda hoje como um dos mais contundentes líderes oposicionistas no Estado. "Não houve a princípio reunião nenhuma, a oposição cabia, na época, dentro de um Volks", diz. O pessoal ficou em casa, então, aguardando notícias, assim como os arenistas. "Havia muito medo no ar", justifica Fernando Lyra.

Exageros à parte, ser oposição em 1968 em Pernambuco não era nada fácil. O Legislativo tinha 65 deputados, dos quais 46 da Arena e 19 no MDB. E o AI-5 viria a reduzir ainda mais a bancada oposicionista em abril de 1969, com as primeiras cassações após o ato. De uma cortada só, ceifou 14 oposicionistas e cinco arenistas. "Nunca houve critérios. Nunca soube e ainda não sei por que fomos cassados", comenta o ex-deputado Dorany Sampaio (MDB).

Afinal, a oposição era elegante, profissional e nada aguerrida contra o governador Nilo Coelho. "Éramos competentes e elegantes", define o hoje vereador Liberato Costa Júnior, fundador do MDB. O deputado federal José Mendonça (PFL), na época estadual da Arena, diz que as cassações podaram o Legislativo e impediram novas lideranças. "Todos fizeram falta porque eram parlamentares talentosos, tinham muito a dar ao Legislativo e estavam muito além do governador Miguel Arraes, que tinha sido preso", afirma o antigo companheiro de Marco Maciel, líder da Arena naquela sexta legislatura. "Na verdade, a oposição parlamentar pernambucana nunca representou perigo para a Revolução de Março: nunca subverteu a ordem", sintetiza.

Liberato lembra que, passado o susto, a oposição voltaria a se reunir no início de 69. "Nos reunimos, sim, antes das cassações. E não éramos nada discretos". Mas ninguém poderia dizer, naquela altura do campeonato, o que mais poderia acontecer. "As notícias vindas do Sul eram alarmantes".

Mas Pernambuco teve sorte com alguns militares, qualificados por Liberato como "dialogáveis". Mas havia aqueles de "postura de extrema direita, de onde partiram prisões e perseguições". A análise é endossada por José Mendonça. "Havia bom relacionamento entre alguns militares e a Assembléia".

Mas Pernambuco continuava visado pelos militares. "Aqui existiram as Ligas Camponesas; Jaboatão era conhecida como Moscouzinho e a oposição, apesar de não ser comunista, foi sempre ideológica", analisa Dorany Sampaio. Por este motivo, o MDB nunca deixou de fazer política. "Era o MDB invisível". Mas ele reconhece que nem todos pensavam assim. "No jargão popular, a Arena era o partido do Sim, Senhor! O MDB, do Sim!".


     

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