ESPECIAL / AI5
Assembléia
fechada, deputados cassadospor PAULO SÉRGIO
SCARPA
Naquele 14 de
junho de 1968, o Recife amanheceu
quente, abafado e com céu azul.
As primeiras páginas do Jornal
do Commercio e Diario de
Pernambuco não eram nada
agradáveis: decretação, um dia
antes, do AI-5 pelo marechal
Costa e Silva; a defesa do ato
pelo ministro da Justiça, Gama e
Silva; a prisão do deputado
Márcio Moreira Alves; e mais
informações sobre o atentado ao
Aeroporto dos Guararapes. Mas era
dia de jogo (Brasil X Alemanha)
e, nos cinemas, o destaque era a
reprise de "Suave é a
Noite". "Mas foi o dia
em que a noite ficou mais
escura", resume, hoje, o
ex-deputado Sílvio Pessoa,
então na Arena.
A verdade é
que o AI-5 pegou a todos de
surpresa. Principalmente os
políticos, que já farejavam
alguma coisa no ar, mas que nunca
poderiam imaginar o que realmente
aconteceria a partir daquela
sexta-feira 13. "Foi como um
murro no estômago da
gente", lembra o então
deputado estadual Fernando Lyra,
do MDB. Sem saber, ao certo, o
que fazer, Lyra lembra que ficou
desnorteado. "A gente nem
podia se reunir na
Assembléia". A Assembléia
estava em recesso e permaneceria
em "recesso
parlamentar", como gostavam
de denominar os militares, até
1º de junho de 1970.
E, em recesso,
Arena e MDB ficaram sem função.
"O ato nos roubou todas as
garantias individuais e
políticas", analisa o
então líder da oposição,
Geraldo Pinho Alves, lembrado
ainda hoje como um dos mais
contundentes líderes
oposicionistas no Estado.
"Não houve a princípio
reunião nenhuma, a oposição
cabia, na época, dentro de um
Volks", diz. O pessoal ficou
em casa, então, aguardando
notícias, assim como os
arenistas. "Havia muito medo
no ar", justifica Fernando
Lyra.
Exageros à
parte, ser oposição em 1968 em
Pernambuco não era nada fácil.
O Legislativo tinha 65 deputados,
dos quais 46 da Arena e 19 no
MDB. E o AI-5 viria a reduzir
ainda mais a bancada
oposicionista em abril de 1969,
com as primeiras cassações
após o ato. De uma cortada só,
ceifou 14 oposicionistas e cinco
arenistas. "Nunca houve
critérios. Nunca soube e ainda
não sei por que fomos
cassados", comenta o
ex-deputado Dorany Sampaio (MDB).
Afinal, a
oposição era elegante,
profissional e nada aguerrida
contra o governador Nilo Coelho.
"Éramos competentes e
elegantes", define o hoje
vereador Liberato Costa Júnior,
fundador do MDB. O deputado
federal José Mendonça (PFL), na
época estadual da Arena, diz que
as cassações podaram o
Legislativo e impediram novas
lideranças. "Todos fizeram
falta porque eram parlamentares
talentosos, tinham muito a dar ao
Legislativo e estavam muito além
do governador Miguel Arraes, que
tinha sido preso", afirma o
antigo companheiro de Marco
Maciel, líder da Arena naquela
sexta legislatura. "Na
verdade, a oposição parlamentar
pernambucana nunca representou
perigo para a Revolução de
Março: nunca subverteu a
ordem", sintetiza.
Liberato lembra
que, passado o susto, a
oposição voltaria a se reunir
no início de 69. "Nos
reunimos, sim, antes das
cassações. E não éramos nada
discretos". Mas ninguém
poderia dizer, naquela altura do
campeonato, o que mais poderia
acontecer. "As notícias
vindas do Sul eram
alarmantes".
Mas Pernambuco
teve sorte com alguns militares,
qualificados por Liberato como
"dialogáveis". Mas
havia aqueles de "postura de
extrema direita, de onde partiram
prisões e perseguições".
A análise é endossada por José
Mendonça. "Havia bom
relacionamento entre alguns
militares e a Assembléia".
Mas Pernambuco
continuava visado pelos
militares. "Aqui existiram
as Ligas Camponesas; Jaboatão
era conhecida como Moscouzinho e
a oposição, apesar de não ser
comunista, foi sempre
ideológica", analisa Dorany
Sampaio. Por este motivo, o MDB
nunca deixou de fazer política.
"Era o MDB invisível".
Mas ele reconhece que nem todos
pensavam assim. "No jargão
popular, a Arena era o partido do
Sim, Senhor! O MDB, do
Sim!".