- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -Jornal do Commercio - Recife, 18 de dezembro de 1998


ARTIGO

Ai de nós, vestibular

por JOSÉ PAULO CAVALCANTI FILHO*

O vestibular vai ficando cada vez mais complicado. E muda todo ano. Tanto que tenho certeza de que não seria aprovado, hoje, em um exame desses. Tenho consciência de que estou ficando obsoleto. Esqueci quase tudo que aprendi na escola. Só que, em compensação, aprendi fora dela quase tudo que só se aprende na vida. Estamos quites.

Semana passada minha filha ensinou que não se pode mais usar, na redação, nem primeira pessoa nem gerúndio. Pecado grave, segundo os cursinhos. Pensando nisso decidi (gerúndio e primeira pessoa, ai de mim) passar olhos sobre um tema recorrente nas provas de português - as benditas pontuações. Com a consciência de que escrever a língua errada do povo, língua certa do povo, vai ficando a cada dia mais difícil. Algum dia vou acabar conseguindo. Mas fazer pontuações corretas parece que não vou conseguir, nunca.

Isto posto, começo essa pequena dissertação pelos pontos de exclamação. Pomposos e tão pouco usados. Claro que há exceções, e alguns acabam exagerando. Tom Wolfe, por exemplo, escreveu mais de mil pontos de exclamação só no seu "A Fogueira das Vaidades!". E a Rainha Vitória, coitados de seus contemporâneos, salpicava pontos de exclamação em todas as suas frases!

Já com relação às vírgulas, tudo é mais sutil. Delicado. Penso em Apolo, que deu a Cassandra o dom de prever o futuro; mas, por vingança, a fez passar por louca. E ninguém acreditava em suas previsões. Porque ela falava sem pausas, comendo as vírgulas - vencerás não morrerás. Sem que se pudesse saber o sentido exato da frase: "vencerás, não morrerás"; ou, indistintamente, "vencerás não, morrerás". Depois da tomada de Tróia, Cassandra acabou assassinada - mas essa é outra história.

E se para uns virgulas faltam, em outros elas sobram. Como no "Evangelho Segundo Jesus Cristo", em que Saramago usa (até onde contei) uma média de 16 por oração. E nem por isso seu texto deixa de ser magistral. Saramago inclusive nos ensina que "o mau ladrão era um rectíssimo homem, porque não fingira acreditar que um minuto de arrependimento basta para resgatar uma vida inteira de maldade ou uma simples hora de fraqueza". O que bem valeria para muita gente, hoje, lá pelos confins do Planalto Central.

Já com as aspas, o engraçado é que no serviço público elas parecem se prestar para tudo. Como em fato narrado como verdadeiro por pessoa idônea (mais ou menos); referindo motorista levemente egocêntrico que espinafrou colegas com palavrões para todos os gostos, pelo que acabou suspenso. Razão pela qual peticionou ao chefe da garagem, exigindo ser informado sobre o palavreado que teria usado para merecer tão - segundo ele - injusta suspensão. Tendo o chefe da garagem apenas respondido, nos autos, aproveitando as aspas: "Vá à merda" Como requer.

A ARTE DE ERRAR - O Governo Federal parece ter prazer em fazer as coisa sempre errado. Como agora, na regulamentação das Entidades Filantrópicas; aprovada por Lei Ordinária, quando seria necessário Lei Complementar - por força do artigo 146, II da Constituição Federal. Complicado é que ele foi alertado sobre o erro e escolheu fazer errado. Uma tara que só se justifica pela auto-suficiência de burocratas convencidos de que sabem sempre mais que todo mundo. Que não ouvem ninguém. Seria cômico, se não fosse trágico.

RECURSOS DA PRIVATIZAÇÃO - Em 30.11 São Paulo deveria ter pago 1 bilhão ao Governo Federal. Mas pendurou, como 5 outros Estados. Por aqui ninguém reclamou. E agora reclamam que o dinheiro do Bandepe não poderia ser usado para pagar o funcionalismo. Sob o argumento de não ser possível firmar o mesmo aditivo contratual que São Paulo acabou de fazer. É preciso começar a pensar Pernambuco com grandeza.

*José Paulo Cavalcanti Filho é advogado

 
 

 

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