CINEMA
Melhor
é (quase) impossívelpor KLEBER MENDONÇA
FILHO
Fim de ano é,
tradicionalmente, época de
balanços e reflexões. Na área
de cinema, a Sala da Fundação
Joaquim Nabuco, no Derby,
promove, a partir de hoje, uma
retrospectiva com 14 filmes que,
oscilando entre os melhores e
alguns dos mais interessantes de
98, resultam numa mostra
pertinente sobre os mais variados
temas e estéticas. Até
quarta-feira, dia 23, serão
revistos fenômenos culturais de
massa (Titanic), a vitória
técnica e emocional de um filme
brasileiro (Central do Brasil) ou
a análise diabólica de um
obscuro filme austríaco (Funny
Games) sobre a violência no
próprio cinema. Nas sessões de
hoje, serão sorteados
passaportes individuais que
darão a cinéfilos de sorte a
chance de ver os 14 filmes
gratuitamente.
A seleção da
retrospectiva foi realizada por
este crítico, tentando
equilibrar critérios de
qualidade e expressividade dos
filmes, embora, em último caso,
questões práticas relacionadas
à disponibilidade de cópias
falaram mais alto. Filmes
excelentes como A Enguia e
Genealogias de Um Crime, por
exemplo, ficaram de fora. Também
fora estão O Resgate do Soldado
Ryan e O Show de Truman, que a
distribuidora UIP mantém sob
contrato com Empresa Severiano
Ribeiro, que deverá
relançá-los na época do Oscar.
Uma pena, pois uma única
exibição, num cinema
alternativo, não faria mal algum
às rendas dos filmes, quando
voltarem ao circuito, em março.
Mesmo assim,
há uma lista extensa de filmes
que estão nesta Retrospectiva e
que deverão constar de listas de
"10 melhores de 98" de
muita gente, críticos ou
cinéfilos. O programa de cada
dia foi organizado dentro de uma
estrutura levemente tematizada.
Hoje, por exemplo, três filmes
excepcionalmente bem realizados,
impecáveis como cinema: o
holandês Caráter, de Mike Van
Diem, o canadense O Doce Amanhã,
de Atom Egoyan, e o espanhol
Carne Trêmula, de Pedro
Almodóvar.
Amanhã, há
uma guinada para o cult com
Jackie Brown, de Quentin
Tarantino, Funny Games, de
Michael Haneke, e Boogie Nights,
de Paul Thomas Anderson. A trinca
tem em comum pessoas interagindo
de forma surpreendente (às
vezes, chocante) com excelente
utilização de música pop. No
domingo, dois filmes de público:
Titanic, de James Cameron, e
Central do Brasil, de Walter
Salles, dois fenômenos, dentro
dos seus respectivos desempenhos.
Na
segunda-feira, dois romances de
época no brasileiro Amor &
Cia, de Helvécio Ratton, e o
australiano Oscar & Lucinda,
de Gilliam Armstrong. Ambos foram
praticamente ignorados pelo
circuito, mas merecem atenção.
O cinismo e a ironia dominam a
terça-feira em Na Companhia de
Homens, de Neil Labutte, e Melhor
É Impossível, de James L.
Brooks, que deu Oscars para Helen
Hunt e Jack Nicholson.
Encerrando, na
quarta-feira, a mais
questionável das noites, quando
o destaque ficará para a
ficção científica, o design e
a história em quadrinho:
Gattaca, de Andrew Niccol, e
Cidade das Sombras, de Alex
Proyas. Todos os filmes da
Retrospectiva foram exibidos no
Recife, em 98, via circuito
alternativo (Fundação ou
Sessão de Arte) ou no próprio
circuitão. Para o público, é
bom saber que trata-se da última
chance de (re)vê-los numa tela
de cinema.