- - - - -- - - - - - - -- - - - - - - --Jornal do Commercio - Recife, 18 de dezembro de 1998

CINEMA
Melhor é (quase) impossível

por KLEBER MENDONÇA FILHO

Fim de ano é, tradicionalmente, época de balanços e reflexões. Na área de cinema, a Sala da Fundação Joaquim Nabuco, no Derby, promove, a partir de hoje, uma retrospectiva com 14 filmes que, oscilando entre os melhores e alguns dos mais interessantes de 98, resultam numa mostra pertinente sobre os mais variados temas e estéticas. Até quarta-feira, dia 23, serão revistos fenômenos culturais de massa (Titanic), a vitória técnica e emocional de um filme brasileiro (Central do Brasil) ou a análise diabólica de um obscuro filme austríaco (Funny Games) sobre a violência no próprio cinema. Nas sessões de hoje, serão sorteados passaportes individuais que darão a cinéfilos de sorte a chance de ver os 14 filmes gratuitamente.

A seleção da retrospectiva foi realizada por este crítico, tentando equilibrar critérios de qualidade e expressividade dos filmes, embora, em último caso, questões práticas relacionadas à disponibilidade de cópias falaram mais alto. Filmes excelentes como A Enguia e Genealogias de Um Crime, por exemplo, ficaram de fora. Também fora estão O Resgate do Soldado Ryan e O Show de Truman, que a distribuidora UIP mantém sob contrato com Empresa Severiano Ribeiro, que deverá relançá-los na época do Oscar. Uma pena, pois uma única exibição, num cinema alternativo, não faria mal algum às rendas dos filmes, quando voltarem ao circuito, em março.

Mesmo assim, há uma lista extensa de filmes que estão nesta Retrospectiva e que deverão constar de listas de "10 melhores de 98" de muita gente, críticos ou cinéfilos. O programa de cada dia foi organizado dentro de uma estrutura levemente tematizada. Hoje, por exemplo, três filmes excepcionalmente bem realizados, impecáveis como cinema: o holandês Caráter, de Mike Van Diem, o canadense O Doce Amanhã, de Atom Egoyan, e o espanhol Carne Trêmula, de Pedro Almodóvar.

Amanhã, há uma guinada para o cult com Jackie Brown, de Quentin Tarantino, Funny Games, de Michael Haneke, e Boogie Nights, de Paul Thomas Anderson. A trinca tem em comum pessoas interagindo de forma surpreendente (às vezes, chocante) com excelente utilização de música pop. No domingo, dois filmes de público: Titanic, de James Cameron, e Central do Brasil, de Walter Salles, dois fenômenos, dentro dos seus respectivos desempenhos.

Na segunda-feira, dois romances de época no brasileiro Amor & Cia, de Helvécio Ratton, e o australiano Oscar & Lucinda, de Gilliam Armstrong. Ambos foram praticamente ignorados pelo circuito, mas merecem atenção. O cinismo e a ironia dominam a terça-feira em Na Companhia de Homens, de Neil Labutte, e Melhor É Impossível, de James L. Brooks, que deu Oscars para Helen Hunt e Jack Nicholson.

Encerrando, na quarta-feira, a mais questionável das noites, quando o destaque ficará para a ficção científica, o design e a história em quadrinho: Gattaca, de Andrew Niccol, e Cidade das Sombras, de Alex Proyas. Todos os filmes da Retrospectiva foram exibidos no Recife, em 98, via circuito alternativo (Fundação ou Sessão de Arte) ou no próprio circuitão. Para o público, é bom saber que trata-se da última chance de (re)vê-los numa tela de cinema.


     

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