- - - -- - - - - - - -- - - - -- - - ---Jornal do Commercio - Recife, 18 de dezembro de 1998

EDUCAÇÃO II
Professora de presidiários recebe homenagem

Às vésperas de se aposentar, a professora Neide Torquato recebeu uma homenagem que não esperava: foi agraciada com a Comenda Educacional Paulo Freire. A premiação - medalha e diploma - é concedida pelo Conselho Estadual de Educação a pessoas que se destacaram nessa área em Pernambuco. O governador Miguel Arraes, o secretário estadual de Cultura, Ariano Suassuna, e o reitor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Mozart Neves Ramos, foram alguns dos homenageados, graças aos incentivos concedidos à Educação. A solenidade foi realizada ontem à noite, na sede do Conselho.

Professora estadual há 26 anos, há quatro ela leciona aos detentos do presídio Professor Aníbal Bruno, na escola que funciona na unidade carcerária. E foi esse trabalho que lhe valeu a indicação feita pelo Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Pernambuco (Sintepe) como a profissional que melhor representava a categoria, em meio a 40 mil professores da rede estadual de ensino.

"Estou muito feliz em ser premiada", disse. "A emoção de ganhar esse prêmio só não é maior do que quando vejo um dos meus alunos lendo", contou. Segundo a professora, esse resultado é ainda mais compensador quando se tem noção das dificuldades de ensinar aos detentos.

Um dos fatores que atrapalham o trabalho da professora - e do grupo ao qual ela pertence - são as "ausências" dos alunos. "Do lado de fora, eles se ausentam por que trabalham, vivem de bicos. No presídio, isso se dá pela transferência do preso ou pelo alvará de soltura", explicou Neide.

A falta de tempo ainda interfere no encaminhamento do trabalho. Segundo a professora, enquanto os alunos de uma escola tradicional ficam quase cinco horas em sala de aula, os detentos passam cerca de três horas. O que se justifica pela rigidez dos horários e pelas regras estabelecidas para garantir a segurança no presídio. Interrupção das aulas para recontagem de presos e tentativa de fuga também dificultam a situação.

Além de Neide Torquato, cinco professoras se revezam para educar cerca de 150 detentos no Aníbal Bruno. Com turmas da alfabetização à quarta série do ensino básico, eles têm aulas de arte e educação e inglês, além de supletivo. "Todo o material que utilizamos é fornecido gratuitamente pela Secretaria Estadual de Educação, com direito a equipamento de vídeo e televisão", apontou.

O detento Antônio Marcos de Lima, 21 anos, está orgulhoso de sua professora. "Ela merece o prêmio porque ensina bem, é paciente e acalma a gente nesse lugar difícil. É uma segunda mãe para todos nós", diz. Geovani Carlos Gondim, 22 anos, acha mais do que justa a concessão do prêmio. "Dona Neide merece porque é uma boa professora, que se esforça muito para ensinar a gente", afirma. Benício Roque, 25 anos, acha a professora "ótima" porque ensina bem e ajuda a todos. "Principalmente discutindo os nossos problemas", ressalta.


     

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