ARTIGO
O
pacote, o corte e os dois novos
Brasispor EDUARDO
MONTENEGRO SERUR*
O recente
pacote governamental de medidas
na área fiscal mal começara a
ser debatido pela sociedade
quando irrompeu o escândalo dos
grampos telefônicos, que lhe
roubou a cena e lhe reduziu
significado, alcance e
importância. Essa mudança de
enfoque, do reflexivo para o
direto, do profundo para o
superficial, do necessário para
o eventual, parece já constituir
tradição brasileira. Sempre que
há uma situação um pouco mais
intrincada e merecedora de
debate, surge do nada (será?) um
fato que tem o mágico condão de
nulificar as contradições em
que se reveste a sociedade na
qual vivemos.
Muitas das
medidas do pacote, e que dizem
respeito ao dia-a-dia do
brasileiro, já estão em vigor,
vinculando suas ações e
repercutindo em seu orçamento,
graças à fantástica
delegação de poderes tornada
possível pela democracia
representativa. Os necessários
debates, todavia, jamais
ocorreram.
Tudo o que foi
dito girou em torno dos aspectos
técnicos relacionados ao pacote,
e essa discussão ficou adstrita
aos operadores do direito, mais
especificamente àqueles que
atuam na área tributária.
Assuntos como o aumento da carga
fiscal das empresas em
decorrência da majoração das
alíquotas da Cofins e da CPMF, e
a transformação desta última
no não mais provisório IMF,
contra todas as promessas
presidenciais, realmente ocuparam
espaço na mídia, assim como
também o fizeram a reforma
previdenciária e as eternas
propostas para corte das despesas
governamentais, muito pouco
críveis por um escaldado e hoje
cético cidadão.
Contudo, pouco
se falou sobre o verdadeiro corte
promovido pelo pacote. Aliás,
corte talvez seja um eufemismo,
diante dos estragos provocados.
Melhor seria ruptura. O pacote
rompeu o Brasil mais uma vez.
Explica-se. Ao
afirmar que as duras medidas de
contenção de despesas eram
decorrentes do inchaço da
chamada "máquina
administrativa"; e que
jamais o País atingiria o
equilíbrio de suas contas se
não promovesse um expurgo dos
excessos salariais e dos
privilégios, os membros da
equipe econômica do Governo
sugeriram que os grandes culpados
pelo déficit das contas
públicas seriam os servidores
estatais, e somente a eles se
deveria destinar o ônus das
medidas lançadas. Quanto a esse
aspecto, é bom que se diga
tratar-se de refinada retórica,
já que o ônus do pacote está
sendo suportado pela sociedade
como um todo.
O fato é que,
se por um lado não mais se
admite um tal sistema de
privilégios e regalias, por
outro também é claro que
aqueles benefícios somente
estão sendo graciosamente
conferidos a uns poucos
servidores públicos, componentes
da elite estatal, do poder
burocrático instalado. Da forma
como quis fazer crer o Governo,
os "vilões" do nosso
caos social seriam todos os
servidores, indiscriminadamente.
Pior do que isso, a mensagem
cifrada do Governo buscou
personalizar e individualizar a
culpa, tentando abstrair o
conceito de sistema, inerente ao
Estado-gestor.
A divisão,
através da qual o cidadão comum
estigmatiza o servidor público,
é perversa e perigosa porque
finda por gerar a falsa
impressão de que a sociedade
pode prescindir do Estado
enquanto regulador das relações
interpessoais ou como prestador
de serviços à população.
O curioso a
respeito disto tudo é que o
dissenso e a balbúrdia foram
instalados pela própria equipe
econômica do Governo, em
entrevistas que supostamente
seriam para esclarecer detalhes
das medidas impostas. Isso nos
faz concluir, na melhor das
hipóteses, que o Governo é
inábil em retórica e pobre em
semântica, e muito eficaz quando
se propõe a criar e acirrar
conflitos.
Se isto serve
de consolo, parece que esse poder
de segregar não é exclusividade
do homem público brasileiro, mas
da humanidade como um todo. O
escritor português José
Saramago, ao discursar em
agradecimento por haver
justamente recebido o Prêmio
Nobel de Literatura, lamentou que
o homem moderno seja capaz de ir
a Marte, mas incapaz de chegar no
próximo.
* Eduardo
Montenegro Serur é advogado