Municípios sem dinheiroRecentemente, o encarte
Comunicampus, deste jornal,
trouxe uma síntese dos
resultados de pesquisa realizada
conjuntamente por um professor da
UFPE e outro da Universidade de
Brasília, sobre o desempenho de
4.157 municípios brasileiros com
menos de 100 mil habitantes. A
conclusão, segundo um dos
pesquisadores, "comprova a
tendência das cidades menores de
serem mais ineficientes".
As unidades
administrativas foram
estratificadas, para fins de
estudo, em subconjuntos segundo a
população, e a partir daí
distribuídas por regiões.
Assim, constataram os professores
Francisco Ramos e Maria da
Conceição Sampaio Souza que, no
Nordeste, os municípios que têm
de 25 mil a 30 mil habitantes
são os que mais gastam recursos
de maneira ineficiente. A forma
resumida de apresentação da
matéria, no suplemento preparado
pela Universidade Federal de
Pernambuco, não permite uma
conclusão definitiva sobre os
dados divulgados, mas garante que
tanto no Nordeste como no Sudeste
são baixos os níveis de
eficiência na maioria das
cidades com população inferior
a 15.000 habitantes.
Na realidade, o
levantamento dos professores do
Recife e de Brasília
concentrou-se na apuração dos
gastos com água,
alfabetização, lixo e número
de matrículas nas escolas. Esses
indicadores não são suficientes
para medir o nível total dos
gastos públicos. Mas, ainda
assim, a pesquisa põe em dúvida
a conveniência da
descentralização, da forma que
vem sendo ultimamente
preconizada. Prega-se que os
núcleos menores sabem
administrar melhor seus recursos
escassos "em benefício da
população local". É com
uma argumentação desse tipo que
muitos políticos procuram
promover a criação de novos
municípios, elevando ao nível
de cidades agrupamentos que não
estão preparados para isso.
Muitas foram criadas às pressas,
em todo o Brasil, antes das
últimas eleições.
Cada
emancipação de vila ou distrito
exige, de início, gastos com
novas sedes municipais e todo o
aparato de uma Prefeitura e da
respectiva Câmara de Vereadores.
Depois, são eregidas em
comarcas, necessitando de um
juiz, escrivão e demais
integrantes do Judiciário local,
trazendo dores de cabeça aos
presidentes do Tribunal de
Justiça quando estes chegam à
evidência de que deveriam ser
fechadas. Claro que, no primeiro
momento, algumas construções
são feitas, movimenta-se o
pequeno comércio local graças
aos salários pagos a
secretários disso e daquilo,
vereadores e assessores de coisa
nenhuma. Mas, logo se percebe
não haver dinheiro sequer para
os pagamentos aos servidores e,
muito menos, para captação e
distribuição de água,
alfabetização e construção de
escolas, limpeza urbana ou outras
obras públicas essenciais.
Um dos
pesquisadores chega mesmo a
sugerir a necessidade de que haja
uma reversão da tendência
emancipadora, fazendo-se o
caminho inverso, reagrupando-se
em conjuntos mais fortes os
municípios que se desgarraram
sem as mínimas condições
financeiras. Como é difícil
conseguir isso, a tentativa que o
governo federal vem anunciando é
a da criação de uma Lei de
Responsabilidade Fiscal que
enquadre simultaneamente os três
níveis de poder, desde o
presidente da República até os
prefeitos, passando pelos
governadores.
Segundo uma
proposta em discussão, seis
meses antes do fim do mandato os
governantes estarão proibidos de
dar aumento salarial e contratar
obras. A lei a ser proposta
proibiria, também, a emissão de
títulos públicos, "para
coibir despesas com precatórios
e financiamento de despesas
correntes com
endividamento", segundo já
foi publicado. Mais difícil
será fazer constar da lei
autorização aos governantes
para cortar linearmente despesas
do Judiciário e do Legislativo,
como também se pretende.
Por enquanto,
pouco se pode fazer para ordenar
as finanças públicas. Enquanto
a má administração na
iniciativa privada pode ser
punida com a decretação da
falência ou concordata, não
existem leis impedindo que
governos de todos os níveis
deixam de fazer despesas
essenciais por falta de verba,
mas continuem transferindo
duodécimos para o Judiciário
construir prédios. Ou prometam
convocações extraordinárias
aos deputados ou vereadores,
enquanto atrasam o pagamento do
salário e outros benefícios aos
seus próprios servidores.