ESPECIAL / AI5
"A
democracia passou a ser mais
valorizada"Dirigente do PCBR
nos anos 60 e 70, o atual
secretário de Políticas Sociais
do Recife, Chico de Assis, foi um
dos jovens que sonharam em mudar
o mundo através das armas. Foi
torturado e passou quase dez anos
na prisão. Os anos nos porões
da ditadura expuseram o
isolamento e serviram para
refletir sobre o distanciamento
entre as teses do mundo ideal da
esquerda e o idealizado pela
sociedade. "A gente quis
fazer a revolução pelo
povo", analisa Chico de
Assis.
JC - O
senhor concorda com a tese de que
a ditadura militar ensinou os
defensores da ditadura do
proletariado a valorizar a
democracia?
Chico
de Assis - Queríamos
fazer a revolução pelo povo e,
num primeiro momento, confundimos
a simpatia da população com a
luta contra a ditadura, com a
disposição de instalar um
governo popular revolucionário.
Esse distanciamento só poderia
dar no que deu.
JC -
Por isso, o sonho de mudar o
mundo não se realizou?
Chico
de Assis - Não da forma
que pensávamos. As mudanças
ocorreram, algumas para melhor. O
conceito de democracia nas
forças sociais e políticas
passou a ser muito mais
valorizado. O socialismo real
desmoronou expondo práticas que
pensávamos que eram só do
capitalismo.
JC -
Valeu a pena?
Chico
de Assis - Do ponto de
vista pessoal, sim. Se pudesse
voltar atrás, tirava alguns anos
de cadeia, algumas coisas
procuraria não fazer. Foi uma
experiência enriquecedora.
Passamos a dar importância a
valores considerados burgueses,
como a solidariedade da família.
Há as perdas. Passamos os anos
mais importantes da vida na
cadeia.
JC -
Hoje o senhor está num grupo
político formado por pessoas
que, durante a ditadura, apoiaram
o regime. Como é isso?
Chico
de Assis - Não me
coloco como há 30 anos, quando o
ideal era destruir o sistema.
Hoje a postura é de avanço na
democracia, nas conquistas
sociais que, aos poucos, vão
reduzindo a exclusão e
recuperando a cidadania. Não
são mais os cortes ideológicos
que aproximam, mas a prática de
cada um. Não podemos desprezar a
convergência com setores
conservadores que apontam nessa
direção. Não sou mais
comunista, mas conservo do
marxismo o melhor dele: a
feição humanitária.