ESPECIAL / AI5
Aprendendo
e ensinando uma nova liçãopor GILVANDRO FILHO
Nas escolas,
nas ruas, campos, construções,
a cultura brasileira nunca mais
foi a mesma depois de dezembro de
1968. Em todos as manifestações
artísticas e culturais, passando
pela informação de massa, o
dedo do censor foi o centro de um
enredo que ficou em cartaz até
janeiro de 79. Cada um ao seu
modo, músicos, poetas, artistas
plásticos, escritores, atores e
cineastas tiveram que reaprender
o ofício, buscando formas sutis
de burlar o cerco. E tudo às
escondidas da sociedade. Alvo
preferencial da censura, a
imprensa pouco, ou quase nada,
podia registrar.
Em Pernambuco,
a tesoura da censura cortou para
todos os lados. No teatro,
atingiu, sobretudo, peças e
atores do Teatro Popular do
Nordeste, foco de resistência
cultural que tinha à frente o
teatrólogo e escritor Hermilo
Borba Filho. Até sua morte, em
1976, Hermilo foi um dos
diretores mais visados pelo
Departamento de Censura e
Diversões Públicas da Polícia
Federal, o pomposo nome pelo qual
respondia o órgão encarregado
de podar a produção
intelectual, em todo o país.
Na literatura
(ver matéria nesta página), o
poeta Arnaldo Tobias acabou por
personificar a figura daqueles
que eram vítimas regulares da
censura. Outro poeta, Marcelo
Mário de Melo chegou a
"contrabandear"
poesias; preso político na Ilha
de Itamaracá, teve que buscar
alternativas para a sua arte,
como guardar pedacinhos de papel
escritos ou decorar versos para
não perdê-los.
HERANÇA DE
AQUÁRIUS - O AI-5 apanhou os
artistas, intelectuais e
jornalistas pernambucanos de
surpresa e ressaca. Se poucos
esperavam por uma reação tão
dura - e muito menos pelas suas
conseqüências tão nefastas -,
muitos ainda não haviam acordado
do grande sonho que marcou os
anos 60. A "geração de
Aquárius" se dividia entre
os que pensavam em tomar o poder
e os que simplesmente o
desprezavam. Uma época em que,
segundo Caetano Veloso, o sol se
repartia "em crimes,
espaçonaves, guerrilhas e em
Cardinales bonitas".
A corrente
tropicalista fundada por Caetano
tinha como propagador no Nordeste
o professor Jomard Muniz de Brito
que, a partir de março de 1969,
expulso da Universidade Federal
da Paraíba, iniciou sua
via-crucis em busca de uma
reparação que nunca veio. A
última tentativa de
reintegração aos quadros da
UFPB aconteceu em 1978, ano em
que o AI-5 recebia sua
extrema-unção. Os motivos da
expulsão, nem mesmo o próprio
Jomard jamais conseguiu saber, ao
menos em versão oficial.
A tesoura
atingiu em cheio, também, as
artes plásticas. Já em 1969, o
pintor Wellington Virgolino viu
censurado o seu "Capitão de
Fandango", onde um garboso
militar exibia um penico no lugar
do quepe. João Cãmara teve um
quadro seu, "Acusada",
proibido por toda a década em
que durou o Ato Institucional.
A longa noite
durou dez longos anos.