ESPECIAL / AI5
"Quebrei
a cara do censor e fui
embora"O artista plástico
Paulo Bruscky, 50 anos, é um
remanescente dos anos de chumbo.
Polêmico, foi preso várias
vezes entre 1968 e 1976. Marcou
sua arte com irônica ousadia.
Como distribuir aviõezinhos de
papel ao povo e vê-los jogados
no Capibaribe, em plena Semana da
Asa. Ao JC, Bruscky conta um
pouco de uma história feita de
humor e de dor.
JC - O
AI-5 conseguiu matar a arte?
Bruscky
- Eles, não. Eram
ignorantes, censores adestrados.
Infiltravam-se no bar Mustang
para aprender nossos hábitos e
não conseguiam. Mas, muitos
artistas sofreram. João Câmara,
Wellington Virgolino, José
Cláudio, Abelardo da Hora, Alves
Dias. Arnaldo Tobias, Sérgio
Moacir, Audálio Alves. Foi duro.
JC -
Sua obra foi mutilada?
Bruscky
- Comecei a ser
censurado já em 1969, quando um
desenho meu, "O
Guerrilheiro", venceu o
Salão do Estado. Os militares
não deixaram a obra vencedora
ser exposta e trocaram por outra.
Depois, tentaram proibir meu
trabalho de arte na rua.
JC -
Como isso funcionava?
Bruscky
- Eu e o Daniel Santiago
reuníamos o povo que participava
do nosso trabalho. Os censores
achavam que era pura subversão.
JC - E
você?
Bruscky
- Sobrevivi a tudo com
meu humor, que nunca perdi. Fui
preso várias vezes, sofri. Uma
vez, um censor tentou me
intimidar e quis saber se, ao
tirar um taco do chão e pregar
na parede, estaria fazendo arte.
Respondi: "Se você fizer
isto, não é arte. Mas, se eu
fizer, é". Levei um tapa e
fui preso. Mas, bati também. Uma
vez cruzei com um censor na rua.
Quebrei a cara dele e segui meu
caminho. (G.F.)