ESPECIAL / AI5
"Ernesto
Geisel deu respaldo ao
movimento"O vice-presidente
Marco Maciel considera a Emenda
Constitucional nº 11, que
revogou a AI-5, "o mais
importante passo para
reintroduzir o País no Estado de
Direito". Ele era presidente
da Câmara Federal em 1978, tendo
trabalhado intensamente ao lado
do presidente do Senado,
Petrônio Portela, pela
superação dos atos
institucionais. A linha desse
trabalho foi definida pelo
general Ernesto Geisel em seu
discurso de posse na Presidência
como "distensão lenta,
segura e gradual".
JC -
Onde o senhor se encontrava
quando o AI-5 foi anunciado?
Maciel -
Paranifando a turma de Direito da
Universidade Católica e já era
deputado estadual. Era jovem (28
anos), mas vivi intensamente
aqueles episódios.
JC - O
senhor era presidente da Câmara
quando o presidente Geisel
decretou o recesso do Congresso.
Como analisa hoje aquela
decisão?
Maciel -
Hoje eu posso falar nisso com
calma e sem nenhuma emoção. Eu
era de fato presidente da Câmara
(e Petrônio Portela do Senado)
mas o processo (de votação da
Lei Orgânica da Magistratura que
foi rejeitado pelos congressistas
e que levou Geisel a fechar as
duas Casas) se originou na
votação conjunta do Congresso,
que hoje não existe mais. Apesar
de traumático, o recesso foi
curto (14 dias).
JC -
Depois do fechamento, o senhor
ainda acreditava na abertura?
Maciel -
Sim. Com o respaldo do
presidente, eu e Petrônio
Portela trabalhamos pela abertura
denominada por ele de "lenta
e gradual", para ser segura,
e não experimentamos mais
retrocesso.
JC -
Mas houve avanços e recuos até
a revogação do AI-5. Ou não?
Maciel -
Exato. O processo foi longo,
muitas vezes teve que mudar de
nome, mas avançou. Ora se
chamava "distensão",
ora se chamava
"descompressão", com
"sístoles e
diástoles", "avanços
e recuos", mas conseguimos
coroá-lo em 78 com êxito.
JC - O
senhor está-se referindo à
Emenda Constitucional nº 11?
Maciel -
Sim. Ela foi fruto de um notável
trabalho político-jurídico de
Petrônio. E eu fui o seu
primeiro subscritor. Ela para mim
representa talvez o mais
importante passo para
reintroduzir o País no Estado de
Direito. Petrônio a concebeu
sozinho porque não havia
precedente no mundo de como
operar sem trauma um processo de
abertura política.
JC -
Como as Forças Armadas encararam
na época o trabalho político de
Petrônio?
Maciel -
O trabalho das Forças Armadas
foi notável. Salvo uma ou outra
manifestação isolada, não
registramos nenhuma dificuldade
para a tramitação dessa
matéria. A partir da Emenda nº
11, que aboliu os atos de
exceção, criamos todas as
condições para devolver ao
País a normalidade democrática.
JC -
Que outros pernambucanos
contribuíram para o processo de
normalidade democrática?
Maciel -
Vários. Pelo lado do MDB, que
era oposição na época, eu
destacaria o Thales Ramalho. Teve
também o Jarbas Vasconcelos, o
Marcos Freire, o Fernando Lyra,
além de outros.