BUG DO MILÊNIO
Apocalipse
dos computadores preocupa mundopor SANDRA CARVALHO
Especial para o JC
LONDRES -
As profecias sobre o fim do mundo
na virada do século parecem ter
um fundo de verdade. Pelo menos,
no que diz respeito ao mundo dos
computadores, o que se espera no
ano 2000 é um quase apocalipse.
Em termos práticos: imagine ir
ao banco, por exemplo, em novo
século, e constatar que a sua
conta bancária foi confundida
com outras e agora você não tem
como comprovar a quantia que
estava lá no dia anterior. Ou
pegar um avião que na hora de
pousar não recebe orientação
da torre de controle... Deus!
Visando a
discutir possíveis planos de
emergência para evitar ou
corrigir as falhas causadas pelo
Bug, a ONU promoveu conferência
fechada, em Nova York, na última
sexta-feira. Mais de 200
representantes de cerca de 120
estados-membros vieram ao
encontro. O presidente do
Conselho Norte-americano do Bug,
John Koskinem, disse em
entrevista ao jornal Nando Times
que "este é um problema
global. Países ricos devem se
preocupar devido a sua extrema
dependência dos micros. E os em
desenvolvimento também, devido
à falta de update na sua
tecnologia".
As autoridades
americanas e britânicas chamam a
atenção do mundo para o tal
problema. "Temos um pouco
mais de um ano para saná-lo.
Não é suficiente", disse
ao jornal inglês The Observer,
no último domingo, o chefe da
Força Tarefa para o bug 2000,
Gwyneth Flower. Ele aconselhou a
população a estocar comida,
pelo menos para duas semanas,
evitando racionamento que deverá
ser causado pela falha dos
computadores na virada do
milênio. O governo teima em
garantir que o suprimento de
comida e energia não será
afetado pelo Bug.
A BBC anunciou
que 9 entre 10 computadores da
Marinha inglesa correm risco de
falhar na virada do século. Já
alguns economistas estão mesmo
preocupados com o mercado
financeiro mundial - não
totalmente recuperado da onda de
crises que abateu Ásia e outras
partes do globo. Com a falha dos
computadores, ele pode se tornar
ainda mais instável.
OS
VULNERÁVEIS - Segundo estudo
do Gartner Group, os Estados
Unidos são os mais preparados,
seguidos do Canadá, Austrália,
África do Sul, Israel e Reino
Unido. O Brasil está na
lanterninha. "A oitava maior
economia do mundo não saberá
lidar com o problema
sozinha", mostra o tal
estudo. O setor brasileiro mais
atingido será o de geração de
força. Já o Japão, com todo o
seu poderio econômico e
tecnológico, também é
vulneravel. Simplesmente por
preguiça do governo, que admitiu
estar atrasado em resolver o
problema nos setores financeiro,
de transportes, energia e
telecomunicações.
A França é o
país que mais corre riscos no
oeste europeu, com falhas
especialmente no setor público.
Em efeito dominó, deverá afetar
a Grã-Bretanha, que recebe
energia elétrica da vizinha
francesa. O Leste europeu e a
Rússia são, de fato, a grande
preocupação dos especialistas.
A Rússia também preocupa a
Alemanha, que recebe cerca de 40%
de energia da primeira. E tira o
sono dos cientistas da
computação americanos. Eles
querem oferecer know-how gratuito
para o sistema de defesa russo.
Mas o governo russo diz que está
tudo sob controle.
Na China, as
severas autoridades decretaram
que o problema será resolvido em
março e os últimos testes
deverão ocorrer em setembro de
99. De acordo com o pesquisador
da Universidade de Cambridge Ross
Anderson, "o pânico deverá
começar em agosto e setembro
próximos, com pessoas
armazenando comida e extratos
bancários. Então, a coisa vai
tomar dimensão de profecia
apocalíptica", afirmou. Ele
aconselhou, pelo menos, três
meses de estoque em comida, gás
e combustível.
A preparação
para sanar o problema poderá
custar aos países um volume de
US$ 600 milhões. Mas o pior vem
mesmo depois, com a correção
das falhas causadas pelo Bug
custando aos bolsos dos governos
e empresas do mundo nada menos
que US$ 1,4 trilhão.