- -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -Jornal do Commercio - Recife, 18 de dezembro de 1998

GOLFO PÉRSICO III
Imprensa francesa diz que ONU foi humilhada e ridicularizada

por GILLES LAPOUGE
Agência Estado

PARIS - O ataque norte-americano e britânico contra a capital iraquiana recebeu críticas duras por parte da imprensa européia. A maior cadeia de televisão francesa, TF1, foi implacável: "A operação de Clinton causou uma morte: a da Organização das Nações Unidas, desprezada, ridicularizada, humilhada. E uma vítima: a democracia americana, injuriada, ludibriada, enganada. E um ferido: a União Européia, ignorada, dividida, desafinada. Grotesca a imagem deixada pelo Conselho de Segurança. Conviria ao secretário-geral da ONU demitir-se".

Le Monde foi igualmente rigoroso: "A decisão dos Estados Unidos é nociva em todos os sentidos. Nociva na forma: o Conselho de Segurança nem foi consultado, enquanto Washington pretende estar agindo em nome da comunidade internacional. Nociva na essência: ela se baseia num relatório duvidoso da ONU no Iraque... Sem mesmo evocar as vítimas ditas 'colaterais' (falando claramente, os civis vitimados pelos ataques), a decisão americana poderá demonstrar ser catastrófica. Como, aliás, já o é, há muito tempo, a política americana para o Iraque".

A maioria dos comentaristas destaca que os Estados Unidos estão sozinhos nessa aventura, arriscando-se a perder suas posições no mundo árabe. E, ainda por cima, Saddam Hussein não será derrubado pelos "raids" que só punem os civis.

Em sua primeira página Le Monde estampa o desenho de Plantu, o melhor cartunista francês. Aí vemos Clinton prestes a disparar salvas de obuses. Atrás dele, um juiz, inquirindo quanto ao caso Lewinski, indaga: "Repito a pergunta: houve ou não houve ejaculação?"

É de fato difícil não desconfiar que Clinton tenha simulado uma catástrofe às vésperas do Ramadã, a fim de repelir o processo de destituição que o ameaça. Mas quanto a isto são reticentes até mesmo os comentários mais ácidos.

Poderíamos dizer que os editorialistas não ousam ir ao fundo de suas desconfianças, não ousamos pensar que um homem fosse capaz de tanta indignidade: desfechar o fogo de seus esquadrões a fim de lavar uma mancha de esperma.

POSIÇÃO NEUTRA - A França não gosta muito dessa "raposa do deserto". De resto Paris, tal como a Rússia e as Nações Unidas, foi posta diante de um "fait accompli". O presidente Jacques Chirac só foi advertido pelo inglês Tony Blair minutos antes do tiroteio.

Oficialmente Paris mantêm uma posição neutra. Seria impossível apoiar o tirano iraquiano Saddam Hussein, ditador brutal, sanguinário e absurdo. Porém não é aceitável, igualmente, o presidente norte-americano Clinton pisotear as Nações Unidas e, partindo de sua solitária grandeza, despejar sua onipotência sobre um pequeno país já exangue e carente de poderio militar.

Pelo que a França oficial lançou mão de muitos rodeios para demonstrar seu mau humor... porém sem excessos. O paladino desse exercício dialético foi o ministro dos Negócios Exteriores, Hubert Védrine, que usou a seguinte fórmula: "A situação é instável". (Pobre Clinton! Com certeza a frase de Védrine fez com que ficasse morrendo de medo).


 
 

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