GOLFO
PÉRSICO III
Imprensa
francesa diz que ONU foi
humilhada e ridicularizadapor GILLES LAPOUGE
Agência Estado
PARIS -
O ataque norte-americano e
britânico contra a capital
iraquiana recebeu críticas duras
por parte da imprensa européia.
A maior cadeia de televisão
francesa, TF1, foi implacável:
"A operação de Clinton
causou uma morte: a da
Organização das Nações
Unidas, desprezada,
ridicularizada, humilhada. E uma
vítima: a democracia americana,
injuriada, ludibriada, enganada.
E um ferido: a União Européia,
ignorada, dividida, desafinada.
Grotesca a imagem deixada pelo
Conselho de Segurança. Conviria
ao secretário-geral da ONU
demitir-se".
Le Monde foi
igualmente rigoroso: "A
decisão dos Estados Unidos é
nociva em todos os sentidos.
Nociva na forma: o Conselho de
Segurança nem foi consultado,
enquanto Washington pretende
estar agindo em nome da
comunidade internacional. Nociva
na essência: ela se baseia num
relatório duvidoso da ONU no
Iraque... Sem mesmo evocar as
vítimas ditas 'colaterais'
(falando claramente, os civis
vitimados pelos ataques), a
decisão americana poderá
demonstrar ser catastrófica.
Como, aliás, já o é, há muito
tempo, a política americana para
o Iraque".
A maioria dos
comentaristas destaca que os
Estados Unidos estão sozinhos
nessa aventura, arriscando-se a
perder suas posições no mundo
árabe. E, ainda por cima, Saddam
Hussein não será derrubado
pelos "raids" que só
punem os civis.
Em sua primeira
página Le Monde estampa o
desenho de Plantu, o melhor
cartunista francês. Aí vemos
Clinton prestes a disparar salvas
de obuses. Atrás dele, um juiz,
inquirindo quanto ao caso
Lewinski, indaga: "Repito a
pergunta: houve ou não houve
ejaculação?"
É de fato
difícil não desconfiar que
Clinton tenha simulado uma
catástrofe às vésperas do
Ramadã, a fim de repelir o
processo de destituição que o
ameaça. Mas quanto a isto são
reticentes até mesmo os
comentários mais ácidos.
Poderíamos
dizer que os editorialistas não
ousam ir ao fundo de suas
desconfianças, não ousamos
pensar que um homem fosse capaz
de tanta indignidade: desfechar o
fogo de seus esquadrões a fim de
lavar uma mancha de esperma.
POSIÇÃO
NEUTRA - A França não gosta
muito dessa "raposa do
deserto". De resto Paris,
tal como a Rússia e as Nações
Unidas, foi posta diante de um
"fait accompli". O
presidente Jacques Chirac só foi
advertido pelo inglês Tony Blair
minutos antes do tiroteio.
Oficialmente
Paris mantêm uma posição
neutra. Seria impossível apoiar
o tirano iraquiano Saddam
Hussein, ditador brutal,
sanguinário e absurdo. Porém
não é aceitável, igualmente, o
presidente norte-americano
Clinton pisotear as Nações
Unidas e, partindo de sua
solitária grandeza, despejar sua
onipotência sobre um pequeno
país já exangue e carente de
poderio militar.
Pelo que a
França oficial lançou mão de
muitos rodeios para demonstrar
seu mau humor... porém sem
excessos. O paladino desse
exercício dialético foi o
ministro dos Negócios
Exteriores, Hubert Védrine, que
usou a seguinte fórmula: "A
situação é instável".
(Pobre Clinton! Com certeza a
frase de Védrine fez com que
ficasse morrendo de medo).