CASO
MÔNICA II
Republicanos
aproveitam o argumento da Casa
Brancapor PAULO SOTERO
Agência Estado
WASHINGTON -
Depois de ter posto em dúvida,
publicamente, os motivos e o
momento escolhido pelo presidente
norte-americano, Bill Clinton,
para iniciar a ação punitiva em
curso contra o Iraque, os
líderes da maioria republicana
no Congresso decidiram tomar ao
pé da letra o argumento da Casa
Branca de que não há nenhuma
relação entre o lançamento do
ataque e a decisão iminente
sobre o processo de impeachment
que tramita no Legislativo.
Assim, marcaram
para hoje e amanhã o debate e a
votação na Câmara de
Representantes que transformará
o atual líder americano apenas
no segundo ocupante da Casa
Branca em 222 anos a ser alvo de
um processo constitucional de
destituição do poder.
A decisão foi
tomada apesar de o secretário de
Defesa, William Cohen, um
ex-senador republicano, ter
alertado seus colegas de partido
de que a aprovação do
impeachment poderia abalar o
moral dos mais de 30 mil soldados
americanos que estão no Golfo.
A votação dos
quatro artigos de impeachment
contra Clinton, previamente
aprovados pela Comissão de
Justiça da Câmara - por causa
do "affair" Monica
Lewinsky -, estava programada
para ontem, mas foi adiada por
causa da ofensiva contra o
Iraque.
FILHOS EM
COMBATE - O líder da minoria
democrata da Câmara, Richard
Gephardt, expressou sua
"forte objeção" à
votação do impeachment de
Clinton. "Nossas tropas,
nossos filhos e filhas estão em
combate no exterior",
ponderou Gephard. "Isso (a
votação nesse momento) é
errado", acrescentou.
"Eu não
consigo nem sequer acreditar que
estamos tendo este debate",
reforçou o vice-líder
democrata, David Bonior. O líder
republicano, Richard Armey,
respondeu que, ao desencadear a
ação contra o Iraque, Clinton
certamente calculou que a
questão do impeachment não
interferiria na execução da
missão. Pela mesma lógica, a
Câmara deve seguir com a
votação, argumentou Armey.
Com o apoio de
três quartos da opinião
pública, segundo as primeiras
pesquisas, Clinton defendeu nesta
quinta-feira sua decisão de
iniciar o ataque. Ele disse que
ordernou a ação depois de
receber recomendação unânime
dos membros de seu conselho de
segurança nacional.
"Teria
sido um desastre esperar",
disse Clinton. Ele acrescentou
que "nenhum líder sério em
Washington" pensaria que o
secretário da Defesa ou o
comandante do Estado-Maior das
Forças Armadas apoiariam a
mobilização de forças no
exterior por razões excusas,
referindo-se às acusações de
que o ataque foi uma manobra para
desviar a atenção da opinião
pública do processo de
impeachment.
FRACASSOS -
O melhor argumento contra a
teoria de que o ataque contra o
território iraquiano -
alegadamente para conter Saddam
Hussein e a capacidade de seu
governo de construir armas de
destruição maciça - teria o
objetivo inconfessável de fazer
descarrrilar o processo
legislativo para tirar Clinton da
presidência foi apresentado
ontem pelos assessores da Casa
Branca.
Eles
reconheceram que os esforços
para convencer republicanos
moderados a votar a favor do
presidente fracassaram e a
Câmara aprovará pelo menos um
dos quatro artigos de impeachment
aprovados pela Comissão de
Justiça, provavelmente por
margem superior aos 21 votos de
vantagem que os republicanos têm
sobre os democratas na Câmara.
O único fato
novo que poderia provocar um novo
adiamento da votação do
impeachment seria uma escalada do
conflito, na improvável
hipótese de as forças
iraquianas conseguirem responder
à chuva de mísseis americanos
disparando foguetes Scuds, de
alcance médio, se ainda os
tiver, contra alvos em Israel, no
Kuwait ou na Arábia Saudita.
Clinton disse
que isso seria
"desastroso" para o
Iraque, numa advertência velada
de que os EUA poderiam ampliar o
bombardeio e até injetar tropas
terrestres na operação. Nesse
caso - e somente nesse caso -, os
líderes republicanos poderiam
ver-se forçados a adiar
indefinidamente a votação do
impeachment. O processo caducaria
e teria de ser reiniciado do zero
no próximo Congresso, pois o
mandato da Câmara atual termina
no dia 3.
A decisão dos
líderes republicanos de ir
adiante e aprovar o impeachment
do presidente da república e
comandante-chefe das Forças
Armadas americanas no momento em
que o país está engajado na
maior ação armada desde a
Guerra do Golfo, em 1991, não é
totalmente nova. O processo de
impeachment que os democratas
instauraram contra o presidente
republicano Richard Nixon, em
1974, e acabou levando à sua
renúncia da Casa Branca, ocorreu
quando os EUA estavam atolados na
Guerra do Vietnã.
SITUAÇÃO
SURREAL - Ainda assim,
vários analistas afirmaram ontem
que o episódio atual cria uma
situação extraordinária e
surreal, que põe à mostra os
estragos provocados pelo caso
Monica e a perda de civilidade do
debate político nos EUA, que se
acentuou depois que os
republicanos assumiram o controle
do Congresso, em 1995.
A disposição
de três expoentes do Partido
Republicano o líder no Senado,
Trent Lott, o presidente da
Comissão de Normas da Câmara,
Gerald Solomon, e o
ex-secretário de Estado da
administração Bush, Lawrence
Eagleburger de pôr em dúvida
publicamente a motivação da
operação contra o Iraque,
depois de passar meses cobrando
uma ação mais firme de Clinton
contra Saddam Hussein, mostra a
extensão do desgaste de
credibilidade sofrido por
Clinton.
Mais importante
do que isso, contudo, é a
implosão que eles provocaram de
um dos mais duradouros códigos
da política norte-americana, ao
pôr em dúvida a palavra do
presidente sobre as razões da
operação no Iraque, mesmo
depois de terem recebido uma
detalhada explicação do
secretário da Defesa.
De acordo com
esse código violado, ninguém
ousava criticar o presidente da
república quando forças
americanas estão envolvidas num
ato de guerra. "Uma
importante regra foi quebrada
hoje", constatou a
secretária de Estado
norte-americana, Madeleine
Albright, na noite de
quarta-feira.
O general da
reserva Norman Swchawarzkopf, que
comandou as tropas americanas na
Guerra do Golfo e não é
exatamente um fã de Clinton,
reagiu com indignação às
declarações dos líderes
republicanos, num programa de
televisão.
"Por
favor, as tropas estão engajadas
(numa operação) e não podemos
pôr em dúvida a operação como
fizemos no Vietnã", disse
ele.