- -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -Jornal do Commercio - Recife, 18 de dezembro de 1998

CASO MÔNICA II
Republicanos aproveitam o argumento da Casa Branca

por PAULO SOTERO
Agência Estado

WASHINGTON - Depois de ter posto em dúvida, publicamente, os motivos e o momento escolhido pelo presidente norte-americano, Bill Clinton, para iniciar a ação punitiva em curso contra o Iraque, os líderes da maioria republicana no Congresso decidiram tomar ao pé da letra o argumento da Casa Branca de que não há nenhuma relação entre o lançamento do ataque e a decisão iminente sobre o processo de impeachment que tramita no Legislativo.

Assim, marcaram para hoje e amanhã o debate e a votação na Câmara de Representantes que transformará o atual líder americano apenas no segundo ocupante da Casa Branca em 222 anos a ser alvo de um processo constitucional de destituição do poder.

A decisão foi tomada apesar de o secretário de Defesa, William Cohen, um ex-senador republicano, ter alertado seus colegas de partido de que a aprovação do impeachment poderia abalar o moral dos mais de 30 mil soldados americanos que estão no Golfo.

A votação dos quatro artigos de impeachment contra Clinton, previamente aprovados pela Comissão de Justiça da Câmara - por causa do "affair" Monica Lewinsky -, estava programada para ontem, mas foi adiada por causa da ofensiva contra o Iraque.

FILHOS EM COMBATE - O líder da minoria democrata da Câmara, Richard Gephardt, expressou sua "forte objeção" à votação do impeachment de Clinton. "Nossas tropas, nossos filhos e filhas estão em combate no exterior", ponderou Gephard. "Isso (a votação nesse momento) é errado", acrescentou.

"Eu não consigo nem sequer acreditar que estamos tendo este debate", reforçou o vice-líder democrata, David Bonior. O líder republicano, Richard Armey, respondeu que, ao desencadear a ação contra o Iraque, Clinton certamente calculou que a questão do impeachment não interferiria na execução da missão. Pela mesma lógica, a Câmara deve seguir com a votação, argumentou Armey.

Com o apoio de três quartos da opinião pública, segundo as primeiras pesquisas, Clinton defendeu nesta quinta-feira sua decisão de iniciar o ataque. Ele disse que ordernou a ação depois de receber recomendação unânime dos membros de seu conselho de segurança nacional.

"Teria sido um desastre esperar", disse Clinton. Ele acrescentou que "nenhum líder sério em Washington" pensaria que o secretário da Defesa ou o comandante do Estado-Maior das Forças Armadas apoiariam a mobilização de forças no exterior por razões excusas, referindo-se às acusações de que o ataque foi uma manobra para desviar a atenção da opinião pública do processo de impeachment.

FRACASSOS - O melhor argumento contra a teoria de que o ataque contra o território iraquiano - alegadamente para conter Saddam Hussein e a capacidade de seu governo de construir armas de destruição maciça - teria o objetivo inconfessável de fazer descarrrilar o processo legislativo para tirar Clinton da presidência foi apresentado ontem pelos assessores da Casa Branca.

Eles reconheceram que os esforços para convencer republicanos moderados a votar a favor do presidente fracassaram e a Câmara aprovará pelo menos um dos quatro artigos de impeachment aprovados pela Comissão de Justiça, provavelmente por margem superior aos 21 votos de vantagem que os republicanos têm sobre os democratas na Câmara.

O único fato novo que poderia provocar um novo adiamento da votação do impeachment seria uma escalada do conflito, na improvável hipótese de as forças iraquianas conseguirem responder à chuva de mísseis americanos disparando foguetes Scuds, de alcance médio, se ainda os tiver, contra alvos em Israel, no Kuwait ou na Arábia Saudita.

Clinton disse que isso seria "desastroso" para o Iraque, numa advertência velada de que os EUA poderiam ampliar o bombardeio e até injetar tropas terrestres na operação. Nesse caso - e somente nesse caso -, os líderes republicanos poderiam ver-se forçados a adiar indefinidamente a votação do impeachment. O processo caducaria e teria de ser reiniciado do zero no próximo Congresso, pois o mandato da Câmara atual termina no dia 3.

A decisão dos líderes republicanos de ir adiante e aprovar o impeachment do presidente da república e comandante-chefe das Forças Armadas americanas no momento em que o país está engajado na maior ação armada desde a Guerra do Golfo, em 1991, não é totalmente nova. O processo de impeachment que os democratas instauraram contra o presidente republicano Richard Nixon, em 1974, e acabou levando à sua renúncia da Casa Branca, ocorreu quando os EUA estavam atolados na Guerra do Vietnã.

SITUAÇÃO SURREAL - Ainda assim, vários analistas afirmaram ontem que o episódio atual cria uma situação extraordinária e surreal, que põe à mostra os estragos provocados pelo caso Monica e a perda de civilidade do debate político nos EUA, que se acentuou depois que os republicanos assumiram o controle do Congresso, em 1995.

A disposição de três expoentes do Partido Republicano o líder no Senado, Trent Lott, o presidente da Comissão de Normas da Câmara, Gerald Solomon, e o ex-secretário de Estado da administração Bush, Lawrence Eagleburger de pôr em dúvida publicamente a motivação da operação contra o Iraque, depois de passar meses cobrando uma ação mais firme de Clinton contra Saddam Hussein, mostra a extensão do desgaste de credibilidade sofrido por Clinton.

Mais importante do que isso, contudo, é a implosão que eles provocaram de um dos mais duradouros códigos da política norte-americana, ao pôr em dúvida a palavra do presidente sobre as razões da operação no Iraque, mesmo depois de terem recebido uma detalhada explicação do secretário da Defesa.

De acordo com esse código violado, ninguém ousava criticar o presidente da república quando forças americanas estão envolvidas num ato de guerra. "Uma importante regra foi quebrada hoje", constatou a secretária de Estado norte-americana, Madeleine Albright, na noite de quarta-feira.

O general da reserva Norman Swchawarzkopf, que comandou as tropas americanas na Guerra do Golfo e não é exatamente um fã de Clinton, reagiu com indignação às declarações dos líderes republicanos, num programa de televisão.

"Por favor, as tropas estão engajadas (numa operação) e não podemos pôr em dúvida a operação como fizemos no Vietnã", disse ele.


 
 

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