-- - - - - - - -- - - - - - - - - - - -Jornal do Commercio - Recife, 18 de dezembro de 1998

DENÚNCIA

Municípios na divisa entre PE e PB são locais de desova de corpos

por DANIEL OLIVEIRA
Correspondente

ITAMBÉ - Mais de 100 corpos não-identificados de pessoas assassinadas foram abandonados entre os município de Itambé (PE) e Pedras de Fogo (PB) de dezembro de 97 a 98. As polícias de Pernambuco e Paraíba já não têm mais dúvida de que a região se tornou alvo preferido para desova de cadáveres. Na maioria das vezes, os corpos são encontrados em terrenos baldios, nos canaviais da região ou às margens de uma estrada de terra que liga Itambé a Santa Rita (PB) e na maioria das vezes estão perfurados à bala.

A polícia pernambucana acredita que pode estar ocorrendo uma guerra entre quadrilhas na região. A escrivã Claudete Moraes informou que mesmo quando os crimes acontecem em via pública dificilmente aparecem testemunhas. Segundo ela, as vítimas identificadas têm em torno de 17 e 25 anos e estão ligadas a roubo ou tráfico de drogas. Também é difícil aparecer parentes reclamando os corpos. "Pela nossa experiência, o que vem acontecendo aqui têm as características de queima de arquivo promovida por quadrilhas", explicou.

O delegado Marcelo Martins, de Pedras de Fogo, acrescentou que quase todos os corpos encontrados nos canaviais da região são de marginais que atuavam nas regiões metropolitanas de Recife ou João Pessoa. Dos últimos 13 corpos encontrados nos canaviais próximos à vila Fazendinha, em Pedras de Fogo, seis ainda não foram identificados. Ele acredita que a localização de Pedras de Fogo e Itambé é propicia para a desova de corpos, por haver várias vias de acesso ligando as cidades a Pernambuco e Paraíba.

A estatística de crimes na região é assustadora. Cerca de oito homicídios de autoria não-identificada são registrados por mês nos dois municípios. A polícia alega falta de equipamentos e de pessoal para realizar investigações. Nas duas cidades - que juntas têm população de 60 mil habitantes - trabalham apenas oito policiais civis, incluindo os dois delegados e as suas escrivãs. O policiamento ostensivo da região é feito por oito PMs.

EXTERMÍNIO - A população local comenta que os crimes que vêm ocorrendo são praticados por homens encapuzados e há desconfiança na região que eles pertençam a grupos de extermínio. "Não sei quem está por traz disso, mas já percebi que com o aumento do número de assassinatos caiu o índice de roubo na cidade", relatou o comerciante S.A.S, de Itambé, que já teve seu estabelecimento assaltado quatro vezes. De acordo com ele, esta espécie de milícia só existe porque falta segurança policial nas duas cidades. "O meu receio é que deixemos de ser assaltados e passemos a ser extorquidos", avaliou. O comerciante diz que suas suspeitas se devem ao fato de ter recebido uma visita de dois homens no mês passado que lhe ofereceram segurança contra roubo.


     

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