-- - -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -Jornal do Commercio - Recife, 19 de março de 1998


ARTIGO

Bom-dia, Recife

por RONILDO MAIA LEITE

Passou, me viu, fiz que nem. Desmunhecou a mão e me deu uma banana. Precisasse dela não me dava. Descasquei-a, joguei fora o resto. Escorregou na casca. Tibungo no chão, lascou-se. Eu acho é bom. Macaco quando joga fora uma banana é porque está entalado. Cômo-la tantas vezes jogue. Da próxima, guardo a casca e enfio-lhe o resto, camaradas.

Por que banana me dá quem já me atirou confetes? Soube agora: eu era chefe de redação de Última Hora e ele aprendiz de repórter. Levei-o a trabalhar comigo, tinha jeito. Babava-se o macaco em mercis pr'aqui, graça a Deus pr'ali, não seja por isso, deixa pra lá, coisa e tal. Veio o golpe. Merecer merecia, fui em cana, respondi a comissões de inquérito. Uma vez, um capitão ou tenente, sei lá, me olhou dentro do olho:

- Quer dizer que o senhor não é comunista?

- Sou não coronel.

- Deslavado mentiroso!

Sim senhor, coronel. Ia dizer que mentiroso era o tenente, tinha jeito uma coisa dessas, camaradas? Passou-se.

A vida não dá tantas voltas assim. Os colegas foram todos embora pro Rio e São Paulo, ronhento fiquei por aqui. Daqui se mandaram Múcio Borges da Fonseca, Eurico Andrade e Milton Coelho da Graça. Antes fosse também.

Mania de chefe, chefiei de novo e várias vezes. Além de outros defeitos de fabricação, nasci com um outro, até mais grave - o de querer arrumar a vida de quem não presta, camaradas. Trabalhamos juntos novamente. O macaco me meteu numa ingresia. Nem sabia, mas dancei.

Soube agora e com que nojo eu soube, camaradas. Antes mesmo da ditadura, ele sentou praça no SNI, fez carreira. Era o homem de ligação imprensa/polícia, fazia uma boquinha no DOPS. Toda noite, assinava o ponto no Mustang. Bebia do meu chope, corujava minha salada de bacalhau e eu nem...

Tenho que a leseira dos esquerdistas de antigamente não os fazia desconfiados. Juro pela alma do finado Mestre Zada: nunca me passou pela cabeça que o macaco antes de dar bananas me enfiava o talo. Por isso, diziam ser a minha ficha no DOPS um catatau de papel almaço. Não era, nem foi. Um dia, inventaram uma cópia xerox e mandaram pra Roberto Marinho. Dessa vez não dancei, amigos comuns entraram na contradança.

Zanzando, zanzando, 19 anos segurei o passo no Globo. Com essa advertência do SNI: qualquer coisa mais braba no Recife... Toda noite, sonhava com o dr. Marinho buzinando uma motocicleta dentro do globo da morte. Lasqueira de vida por causa do tal primata, camaradas.

Deixemos, porém, de choramingos tardios. O perfil do orangotango, e agora mais completo, me foi dado outro dia. Ai de mim, ai de vós, ai de todos nós, inacreditáveis camaradas. Contasse o que já contou e não publica, Álvaro da Costa Lima ia desmascarar muita gente. Amigo meu e do Alvinho qu'é que tem? me disse ter espiado o livro do ex-delegado. Engulhou. O que tem de democrata pelaí...

Um deles - dou o nome?, dou nada, endoidei por acaso? - um deles deita e rola entre os rola-bostas de esquerda e seria um dos caga-regras das Princesas. Tinhoso que nem as baratas descascadas, ao Velho bate palmas como as freiras aos santos e os padres às madres. O Velho acende o charuto, morde o pitoco, dá uma tragada, gargareja o cuspe, olha de banda e sorri. Ele sabe das coisas, camaradas. Sonso que nem as cobras mansas, ele sabe esperar. Assim foi com os comunas que o ajudaram no primeiro mandato, antes de 64. O segundo foi lasca pras esquerdas, o terceiro está sendo pros idiotas. O quarto será pro castigo final.

Seria a vez dos macacos, camaradas?

Quem viver, verá.

Ronildo Maia Leite é jornalista

 
 

 

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