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ARTIGO
Bom-dia,
Recife
por RONILDO
MAIA LEITE
Passou, me viu,
fiz que nem. Desmunhecou a mão e
me deu uma banana. Precisasse
dela não me dava. Descasquei-a,
joguei fora o resto. Escorregou
na casca. Tibungo no chão,
lascou-se. Eu acho é bom. Macaco
quando joga fora uma banana é
porque está entalado. Cômo-la
tantas vezes jogue. Da próxima,
guardo a casca e enfio-lhe o
resto, camaradas.
Por que banana
me dá quem já me atirou
confetes? Soube agora: eu era
chefe de redação de Última
Hora e ele aprendiz de repórter.
Levei-o a trabalhar comigo, tinha
jeito. Babava-se o macaco em
mercis pr'aqui, graça a Deus
pr'ali, não seja por isso, deixa
pra lá, coisa e tal. Veio o
golpe. Merecer merecia, fui em
cana, respondi a comissões de
inquérito. Uma vez, um capitão
ou tenente, sei lá, me olhou
dentro do olho:
- Quer dizer
que o senhor não é comunista?
- Sou não
coronel.
- Deslavado
mentiroso!
Sim senhor,
coronel. Ia dizer que mentiroso
era o tenente, tinha jeito uma
coisa dessas, camaradas?
Passou-se.
A vida não dá
tantas voltas assim. Os colegas
foram todos embora pro Rio e São
Paulo, ronhento fiquei por aqui.
Daqui se mandaram Múcio Borges
da Fonseca, Eurico Andrade e
Milton Coelho da Graça. Antes
fosse também.
Mania de chefe,
chefiei de novo e várias vezes.
Além de outros defeitos de
fabricação, nasci com um outro,
até mais grave - o de querer
arrumar a vida de quem não
presta, camaradas. Trabalhamos
juntos novamente. O macaco me
meteu numa ingresia. Nem sabia,
mas dancei.
Soube agora e
com que nojo eu soube, camaradas.
Antes mesmo da ditadura, ele
sentou praça no SNI, fez
carreira. Era o homem de
ligação imprensa/polícia,
fazia uma boquinha no DOPS. Toda
noite, assinava o ponto no
Mustang. Bebia do meu chope,
corujava minha salada de bacalhau
e eu nem...
Tenho que a
leseira dos esquerdistas de
antigamente não os fazia
desconfiados. Juro pela alma do
finado Mestre Zada: nunca me
passou pela cabeça que o macaco
antes de dar bananas me enfiava o
talo. Por isso, diziam ser a
minha ficha no DOPS um catatau de
papel almaço. Não era, nem foi.
Um dia, inventaram uma cópia
xerox e mandaram pra Roberto
Marinho. Dessa vez não dancei,
amigos comuns entraram na
contradança.
Zanzando,
zanzando, 19 anos segurei o passo
no Globo. Com essa advertência
do SNI: qualquer coisa mais braba
no Recife... Toda noite, sonhava
com o dr. Marinho buzinando uma
motocicleta dentro do globo da
morte. Lasqueira de vida por
causa do tal primata, camaradas.
Deixemos,
porém, de choramingos tardios. O
perfil do orangotango, e agora
mais completo, me foi dado outro
dia. Ai de mim, ai de vós, ai de
todos nós, inacreditáveis
camaradas. Contasse o que já
contou e não publica, Álvaro da
Costa Lima ia desmascarar muita
gente. Amigo meu e do Alvinho
qu'é que tem? me disse ter
espiado o livro do ex-delegado.
Engulhou. O que tem de democrata
pelaí...
Um deles - dou
o nome?, dou nada, endoidei por
acaso? - um deles deita e rola
entre os rola-bostas de esquerda
e seria um dos caga-regras das
Princesas. Tinhoso que nem as
baratas descascadas, ao Velho
bate palmas como as freiras aos
santos e os padres às madres. O
Velho acende o charuto, morde o
pitoco, dá uma tragada,
gargareja o cuspe, olha de banda
e sorri. Ele sabe das coisas,
camaradas. Sonso que nem as
cobras mansas, ele sabe esperar.
Assim foi com os comunas que o
ajudaram no primeiro mandato,
antes de 64. O segundo foi lasca
pras esquerdas, o terceiro está
sendo pros idiotas. O quarto
será pro castigo final.
Seria a vez dos
macacos, camaradas?
Quem viver,
verá.
Ronildo Maia
Leite é jornalista
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