- - - - - - - -- - - - - - - -- - - - - - - - --Jornal do Commercio - Recife, 19 de março de 1998

CINEMA
For All - O Trampolim da Vitória não vai além de uma chanchada

por KLEBER MENDONÇA FILHO

Existem duas maneiras de ver For All - O Trampolim da Vitória, de Luiz Carlos Lacerda e Buza Ferraz, o cartaz de hoje à noite na Mostra Competitiva do II Festival Nacional de Cinema do Recife. A primeira, é contentar-se com o que foi feito, tentar se divertir, relaxar e esquecê-lo. A segunda, é imaginar o filme que deveria ter sido a partir da maravilhosa idéia que o diretor Lacerda teve, durante uma visita à cidade de Natal, nos anos 80: pegar como base a presença americana na capital potiguar nos últimos anos da II Grande Guerra e desenvolver um filme.

O enredo é mais ou menos esse: na cidade de Natal, rebatizada pelos americanos de Parnamirim Field durante a Segunda Guerra, Giancarlo (José Wilker) e sua esposa (Betty Faria) administram suas vidas em meio a ameaças de bombardeio e a presença ianque na cidade. São também obrigados a ficar de olho nos filhos adolescentes. A mãe, por exemplo, estimula a filha (sempre de olho numa mudança no nível de vida) a namorar rapazes americanos. Giancarlo, que é sapateiro, é também simpatizante de Mussolini e envolve-se com um agente alemão (Edson Celulari, claro), que parece ter saído de algum episódio da antiga série Túnel do Tempo. Na cidade, homens revoltam-se com a perda das suas mulheres para os americanos.

Olhando para For All como está, temos em mãos um produto simplório. Na verdade, uma chanchada popularmente brasileira, do tipo que caiu em desuso nos anos 70. É a terceiro grande comédia brasileira consecutiva (em um ano) sem uma alma propriamente dita. Pequeno Dicionário Amoroso pegou emprestado de A Comédia da Vida Privada, Como Ser Solteiro de Malhação e este agora, das antigas chanchadas. Não será possível talhar uma linguagem nova, ou pelo menos diferente do que já vimos antes no gênero comédia?.

Como chanchada, aqui não faltam os elementos corriqueiros da bicha palhaça, do corno, da caricatura teatral dos personagens (com a exceção de dois atores, os americanos são representados por modelos loiros), do assombroso desinteresse por gente ou por qualquer coisa que lembre uma história. Há também as cenas de nudez censura 14 anos que às vezes ameaçam transformar o filme numa comédia americana de adolescentes, do tipo que faziam nos anos 80 (vejam a cena do cinema).

Existem dois ou três momentos inspirados de humor brasilis envolvendo os pequenos choques culturais entre os natalenses dos anos 40 e os americanos, como na cena divertida onde Betty Faria utiliza a bacia de uma moderna e sofisticada batedeira como um pilão. A direção de arte capricha na reconstituição de época, sendo até detalhista em alguns aspectos (o plano geral de um campo de pouso). Mas a fotografia não coopera, mantendo o mesmo ar chapado de qualquer outro filme normal. De qualquer forma, o espectador passa boa parte do tempo numa atmosfera eficaz de anos 40.

Mesmo assim, os pontos positivos do filme são bem menores que seus defeitos. For All parece desviar de maneira masoquista das inúmeras possibilidades que a sua idéia oferece, elementos que poderiam ter envolvido nostalgia, gargalhadas honestas e comentários mais consistentes sobre as duas culturas. Talvez seja covardia, mas A Era do Rádio, de Woody Allen (o medo dos bombardeios e a nostalgia) e Mediterrâneo de Gabriele Salvatore (a interação dos soldados com o novo meio) vêm à cabeça ao ver esse filme. É provável que Lacerda e Ferraz não estivessem interessados em nada disso. O quadro de fundo do filme parece mais uma desculpa, e não a inspiração para o trabalho deles.


     

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