CINEMA
For
All - O Trampolim da Vitória não
vai além de uma chanchadapor KLEBER MENDONÇA
FILHO
Existem duas
maneiras de ver For All - O
Trampolim da Vitória, de Luiz
Carlos Lacerda e Buza Ferraz, o
cartaz de hoje à noite na Mostra
Competitiva do II Festival
Nacional de Cinema do Recife. A
primeira, é contentar-se com o
que foi feito, tentar se
divertir, relaxar e esquecê-lo.
A segunda, é imaginar o filme
que deveria ter sido a partir da
maravilhosa idéia que o diretor
Lacerda teve, durante uma visita
à cidade de Natal, nos anos 80:
pegar como base a presença
americana na capital potiguar nos
últimos anos da II Grande Guerra
e desenvolver um filme.
O enredo é
mais ou menos esse: na cidade de
Natal, rebatizada pelos
americanos de Parnamirim Field
durante a Segunda Guerra,
Giancarlo (José Wilker) e sua
esposa (Betty Faria) administram
suas vidas em meio a ameaças de
bombardeio e a presença ianque
na cidade. São também obrigados
a ficar de olho nos filhos
adolescentes. A mãe, por
exemplo, estimula a filha (sempre
de olho numa mudança no nível
de vida) a namorar rapazes
americanos. Giancarlo, que é
sapateiro, é também
simpatizante de Mussolini e
envolve-se com um agente alemão
(Edson Celulari, claro), que
parece ter saído de algum
episódio da antiga série Túnel
do Tempo. Na cidade, homens
revoltam-se com a perda das suas
mulheres para os americanos.
Olhando para
For All como está, temos em
mãos um produto simplório. Na
verdade, uma chanchada
popularmente brasileira, do tipo
que caiu em desuso nos anos 70.
É a terceiro grande comédia
brasileira consecutiva (em um
ano) sem uma alma propriamente
dita. Pequeno Dicionário Amoroso
pegou emprestado de A Comédia da
Vida Privada, Como Ser Solteiro
de Malhação e este agora, das
antigas chanchadas. Não será
possível talhar uma linguagem
nova, ou pelo menos diferente do
que já vimos antes no gênero
comédia?.
Como chanchada,
aqui não faltam os elementos
corriqueiros da bicha palhaça,
do corno, da caricatura teatral
dos personagens (com a exceção
de dois atores, os americanos
são representados por modelos
loiros), do assombroso
desinteresse por gente ou por
qualquer coisa que lembre uma
história. Há também as cenas
de nudez censura 14 anos que às
vezes ameaçam transformar o
filme numa comédia americana de
adolescentes, do tipo que faziam
nos anos 80 (vejam a cena do
cinema).
Existem dois ou
três momentos inspirados de
humor brasilis envolvendo os
pequenos choques culturais entre
os natalenses dos anos 40 e os
americanos, como na cena
divertida onde Betty Faria
utiliza a bacia de uma moderna e
sofisticada batedeira como um
pilão. A direção de arte
capricha na reconstituição de
época, sendo até detalhista em
alguns aspectos (o plano geral de
um campo de pouso). Mas a
fotografia não coopera, mantendo
o mesmo ar chapado de qualquer
outro filme normal. De qualquer
forma, o espectador passa boa
parte do tempo numa atmosfera
eficaz de anos 40.
Mesmo assim, os
pontos positivos do filme são
bem menores que seus defeitos.
For All parece desviar de maneira
masoquista das inúmeras
possibilidades que a sua idéia
oferece, elementos que poderiam
ter envolvido nostalgia,
gargalhadas honestas e
comentários mais consistentes
sobre as duas culturas. Talvez
seja covardia, mas A Era do
Rádio, de Woody Allen (o medo
dos bombardeios e a nostalgia) e
Mediterrâneo de Gabriele
Salvatore (a interação dos
soldados com o novo meio) vêm à
cabeça ao ver esse filme. É
provável que Lacerda e Ferraz
não estivessem interessados em
nada disso. O quadro de fundo do
filme parece mais uma desculpa, e
não a inspiração para o
trabalho deles.