OPINIÃO
Lampreia
quer Alca sem barreirasSAN JOSÉ, Costa Rica
- O chanceler Luiz Felipe
Lampreia produziu ontem a mais
enfática definição, ao menos
em público, de como o governo
brasileiro encara a Alca (Área
de Livre Comércio das
Américas). "Só interessa
ao Brasil se Estados Unidos e
Canadá abrirem efetivamente seus
mercados para produtos
brasileiros", disse ele. Em
discurso no 4º Fórum
Empresarial das Américas,
encerrado ontem, o chanceler
brasileiro começou por se
defender da disseminada
percepção de que o Brasil tem
uma atitude negativa ante a Alca
"Seria uma
atitude míope recusar de
antemão algo de grande
potencial. Isso não quer dizer
que tenhamos uma visão
romântica sobre tudo de bom que
pode representar a Alca",
disparou. Por fim, fechou o
raciocínio dizendo que a
integração hemisférica só
interessa se propiciar resultados
equilibrados e efetivo aumento no
acesso dos nossos produtos aos
mercados não só dos EUA e
Canadá, mas de todos os países.
"Sem esse
acesso ampliado, a Alca não faz
muito sentido", disse
Lampreia. Há, no discurso do
chanceler, uma certa mudança de
ênfase. Até agora, o Brasil
vinha dizendo que aceitava a
Alca, desde que houvesse tempo
(pelo menos até 2005) para que a
indústria brasileira se
preparasse para enfrentar a
concorrência da poderosa
economia norte-americana.
Agora, Lampreia
já diz que a Alca pode não
interessar nem em 2005, a menos
que os Estados Unidos,
principalmente, levantem suas
barreiras ao ingresso da
produção brasileira. A nova
ênfase foi exposta na presença
de ninguém menos do que Thomas
McLarty, o representante especial
do presidente Bill Clinton para
as Américas.
McLarty não
fez comentários sobre a
exposição do ministro
brasileiro, o que parece refletir
a posição defensiva do governo
norte-americano, pelo fato de o
Executivo não dispor do
mecanismo chamado de fast track.
Trata-se de uma autorização que
o Congresso dá ao Executivo para
negociar acordos comerciais que o
Legislativo, depois, aprova ou
rejeita em bloco, mas não
emenda. Sem esse mecanismo, os
parceiros norte-americanos
relutam em fechar acordos com os
EUA, devido ao risco de que o
acertado seja depois alterado
pelo Congresso.
Por isso,
McLarty pouco falou de Alca.
Preferiu jogar toda a ênfase em
aspectos extra-comércio que
deverão constituir o foco
principal da 2ª Cúpula das
Américas, que será realizada em
abril, no Chile. São temas como
educação, alívio da pobreza,
fortalecimento das
instituições, em especial do
Judiciário e coordenação
financeira entre os países
americanos, de forma a acomodar
melhor esse fluxo de comércio e
capitais internacionais que
caracteriza a economia
contemporânea.
McLarty citou a
crise asiática como exemplo de
que esse tipo de coordenação é
necessário. Tese que soará como
música aos ouvidos do presidente
do Brasil, Fernando Henrique
Cardoso, que vem defendendo
coordenação similar desde a
posse, não apenas nas Américas,
mas no mundo todo.