ANO
2000
Os
adultos de um novo milêniopor LENEIDE DUARTE
Da Agência Globo
Lívia Alvarenga estuda
direito e quer ser juíza ou
defensora pública. Ela acha que,
no Brasil, a Justiça é demorada
e só pune quem não tem
dinheiro. Ricardo Bandeira Moraes
diz que a vida de sua geração
é mais difícil do que a de seus
pais porque o mercado de trabalho
se tornou mais competitivo. Mas
ele avalia que os jovens de hoje
são mais liberados e, por isso,
mais felizes. Renata Howard
Hossell está assustada com o
desemprego que ela atribui em
grande parte aos estrangeiros,
que "cada vez mais dominam o
país".
André Teixeira Martins diz
que os jovens estão usando
drogas cada vez mais cedo. Maria
Cláudia Viçoso Silva pensa que
o Brasil está perdendo sua
identidade cultural com a
globalização. Para ela, o ano
2000 vai encontrar o Brasil
lutando com as mesmas
dificuldades de hoje, tendo na
educação seu pior problema.
Bruno Rios Marques imagina que
sua geração viverá a
experiência do casamento de
outras formas, mas que depois dos
25 anos a maioria vai construir
uma família.
Essa tribo adolescente, que
estará com 20 anos no ano 2000,
tem muita coisa em comum: está
ligada na Internet, inicia a vida
sexual cada vez mais cedo, está
muito preocupada com o emprego e
a entrada no mercado de trabalho,
vai votar este ano pela primeira
vez e não tem pressa de sair da
casa dos pais. O último Programa
Nacional de Amostragem de
Domicílio (PNAD, de 1996), do
IBGE, informa que os jovens
brasileiros entre 15 e 19 anos
são 16.525.168, o que
corresponde a cerca de 10% da
população.
Nesta geração, a precocidade
sexual tem um lado prazeroso e
outro sombrio: eles aprenderam a
conviver com o medo da Aids e
muitos, por desinformação ou
descuido, tornam-se pais e mães
sem terem amadurecido
emocionalmente para criar o
filho. Segundo pesquisa do
Ministério da Saúde, 55% das
adolescentes sexualmente ativas
não usam contraceptivo.
"Tenho três amigas de 15,
16 e 18 anos que já são
mães", conta Renata Howard
Hossell, de 18 anos, que cursa o
terceiro ano do segundo grau e
quer ser jornalista.
As mães das meninas aceitaram
os netos dentro de casa, sem
exigir o casamento das filhas, e
o pai adolescente visita o filho
na casa da namorada. Os pais
dessa geração 2000 têm hoje
entre 40 e 50 anos e, em 1968,
queriam fazer a revolução.
Parte deles foi para as ruas nas
passeatas de estudantes. Seus
filhos já não valorizam a
universidade.
DADOS -
Pesquisa do Ministério da
Educação com 429 mil estudantes
que estão concluindo o Segundo
Grau revela que nada menos do que
69% deles não têm interesse em
cursar a universidade porque
querem entrar logo no mercado de
trabalho. A geração 2000
também não gosta de política,
mas se preocupa com a economia:
tanto para os jovens de classe
média quanto para os de baixa
renda, o desemprego é um dos
maiores fantasmas.
"Os jovens de baixa renda
com quem trabalhamos não
acreditam que os políticos podem
melhorar a vida deles. Mas a
religião, os esportes e as
escolas de samba são
instituições que eles respeitam
e nas quais vêem possibilidade
de participação", informa
Célia Matias, coordenadora do
programa de atenção primária
do Núcleo de Estudos da Saúde
do Adolescente (Nesa), ligado à
Uerj.
"A competitividade
aumentou muito. Haverá cada vez
mais concorrência para encontrar
um emprego. Só entrará no
mercado de trabalho quem for
muito bom e estudar muito",
diz Bruno Rios Marques, que
nasceu em 11 de novembro de 1980,
não gosta muito de política,
mas vai estudar a proposta dos
políticos antes de votar pela
primeira vez este ano.
Segundo uma pesquisa do
Departamento Intersindical de
Estatística e Estudos
Sócio-Econômicos (Dieese) o
desemprego para quem tem entre 18
e 24 anos cresceu 21%, até 96, e
aumentou 38,7% entre os que têm
entre 15 e17 anos. Ricardo
Bandeira de Moraes, que nasceu no
dia 12 de fevereiro de 1980 e faz
o primeiro ano de administração
na PUC, afirma que escolheu o
curso com plena consciência de
que não é o que oferece as
melhores oportunidades de
trabalho. "Tenho três
amigos que já terminaram
administração e estão
desempregados, fazendo bicos para
ganhar dinheiro", conta
Ricardo.
Ele acha que os problemas de
saúde e educação no Brasil só
tendem a piorar.
"Não vejo esperança de
melhora nessas áreas",
confessa desanimado Ricardo. Já
Renata Howard Hossell, nascida
dia 7 de julho de 1980,alimenta a
esperança de que o Brasil vai
estar melhor no próximo século,
já que ela acha difícil poder
estar pior. "Espero um país
melhor, mas acho que são
necessárias mudanças radicais e
urgentes. Nós tínhamos que ter
governos menos corruptos.
Atualmente, o Brasil está
totalmente desestruturado e
invadido pelos estrangeiros.
Aliás, os portugueses já
chegavam aqui e davam espelhinhos
para os índios em troca de
navios cheios de
pau-brasil", ironiza.
A globalização, que Renata
vê como vilã, é encarada por
André Teixeira Martins como uma
realidade que não pode ser
evitada. Ele sabe que é preciso
estar ligado na Internet e falar
outras línguas, principalmente o
inglês. "O Brasil vai ser
melhor no novo século porque o
governo percebeu queas áreas de
educação e saúde são
prioritárias e está investindo
nelas", acredita André.
Apesar de ter uma posição
contrária à reeleição do
presidente da república, André
não descarta a hipótese de
votar em Fernando Henrique, na
primeira eleição de sua vida.
Mas não foge à avaliação da
maioria quando analisa a
política brasileira: "O que
atrapalha o progresso do Brasil
é a corrupção", diz ele,
que pretende ver sua geração
mais feliz do que a de seus pais.
Bruno Marques idealiza a
família do ano 2000: "Vamos
ser mais liberais na criação de
nossos filhos. Vamos ter mais
diálogo, não vamos deixar de
falar de drogas e sexo. Como acho
que a tendência é aumentar o
consumo de drogas, acho que os
pais deverão preparar mais os
filhos sobre este problema e
sobre as doenças sexualmente
transmissíveis.
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