.......................................................................... Jornal do Commercio, Recife, 15 de março de 1998
  ANO 2000
Os adultos de um novo milênio

por LENEIDE DUARTE
Da Agência Globo

Lívia Alvarenga estuda direito e quer ser juíza ou defensora pública. Ela acha que, no Brasil, a Justiça é demorada e só pune quem não tem dinheiro. Ricardo Bandeira Moraes diz que a vida de sua geração é mais difícil do que a de seus pais porque o mercado de trabalho se tornou mais competitivo. Mas ele avalia que os jovens de hoje são mais liberados e, por isso, mais felizes. Renata Howard Hossell está assustada com o desemprego que ela atribui em grande parte aos estrangeiros, que "cada vez mais dominam o país".

André Teixeira Martins diz que os jovens estão usando drogas cada vez mais cedo. Maria Cláudia Viçoso Silva pensa que o Brasil está perdendo sua identidade cultural com a globalização. Para ela, o ano 2000 vai encontrar o Brasil lutando com as mesmas dificuldades de hoje, tendo na educação seu pior problema. Bruno Rios Marques imagina que sua geração viverá a experiência do casamento de outras formas, mas que depois dos 25 anos a maioria vai construir uma família.

Essa tribo adolescente, que estará com 20 anos no ano 2000, tem muita coisa em comum: está ligada na Internet, inicia a vida sexual cada vez mais cedo, está muito preocupada com o emprego e a entrada no mercado de trabalho, vai votar este ano pela primeira vez e não tem pressa de sair da casa dos pais. O último Programa Nacional de Amostragem de Domicílio (PNAD, de 1996), do IBGE, informa que os jovens brasileiros entre 15 e 19 anos são 16.525.168, o que corresponde a cerca de 10% da população.

Nesta geração, a precocidade sexual tem um lado prazeroso e outro sombrio: eles aprenderam a conviver com o medo da Aids e muitos, por desinformação ou descuido, tornam-se pais e mães sem terem amadurecido emocionalmente para criar o filho. Segundo pesquisa do Ministério da Saúde, 55% das adolescentes sexualmente ativas não usam contraceptivo. "Tenho três amigas de 15, 16 e 18 anos que já são mães", conta Renata Howard Hossell, de 18 anos, que cursa o terceiro ano do segundo grau e quer ser jornalista.

As mães das meninas aceitaram os netos dentro de casa, sem exigir o casamento das filhas, e o pai adolescente visita o filho na casa da namorada. Os pais dessa geração 2000 têm hoje entre 40 e 50 anos e, em 1968, queriam fazer a revolução. Parte deles foi para as ruas nas passeatas de estudantes. Seus filhos já não valorizam a universidade.

DADOS - Pesquisa do Ministério da Educação com 429 mil estudantes que estão concluindo o Segundo Grau revela que nada menos do que 69% deles não têm interesse em cursar a universidade porque querem entrar logo no mercado de trabalho. A geração 2000 também não gosta de política, mas se preocupa com a economia: tanto para os jovens de classe média quanto para os de baixa renda, o desemprego é um dos maiores fantasmas.

"Os jovens de baixa renda com quem trabalhamos não acreditam que os políticos podem melhorar a vida deles. Mas a religião, os esportes e as escolas de samba são instituições que eles respeitam e nas quais vêem possibilidade de participação", informa Célia Matias, coordenadora do programa de atenção primária do Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente (Nesa), ligado à Uerj.

"A competitividade aumentou muito. Haverá cada vez mais concorrência para encontrar um emprego. Só entrará no mercado de trabalho quem for muito bom e estudar muito", diz Bruno Rios Marques, que nasceu em 11 de novembro de 1980, não gosta muito de política, mas vai estudar a proposta dos políticos antes de votar pela primeira vez este ano.

Segundo uma pesquisa do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos (Dieese) o desemprego para quem tem entre 18 e 24 anos cresceu 21%, até 96, e aumentou 38,7% entre os que têm entre 15 e17 anos. Ricardo Bandeira de Moraes, que nasceu no dia 12 de fevereiro de 1980 e faz o primeiro ano de administração na PUC, afirma que escolheu o curso com plena consciência de que não é o que oferece as melhores oportunidades de trabalho. "Tenho três amigos que já terminaram administração e estão desempregados, fazendo bicos para ganhar dinheiro", conta Ricardo.

Ele acha que os problemas de saúde e educação no Brasil só tendem a piorar.

"Não vejo esperança de melhora nessas áreas", confessa desanimado Ricardo. Já Renata Howard Hossell, nascida dia 7 de julho de 1980,alimenta a esperança de que o Brasil vai estar melhor no próximo século, já que ela acha difícil poder estar pior. "Espero um país melhor, mas acho que são necessárias mudanças radicais e urgentes. Nós tínhamos que ter governos menos corruptos. Atualmente, o Brasil está totalmente desestruturado e invadido pelos estrangeiros. Aliás, os portugueses já chegavam aqui e davam espelhinhos para os índios em troca de navios cheios de pau-brasil", ironiza.

A globalização, que Renata vê como vilã, é encarada por André Teixeira Martins como uma realidade que não pode ser evitada. Ele sabe que é preciso estar ligado na Internet e falar outras línguas, principalmente o inglês. "O Brasil vai ser melhor no novo século porque o governo percebeu queas áreas de educação e saúde são prioritárias e está investindo nelas", acredita André.

Apesar de ter uma posição contrária à reeleição do presidente da república, André não descarta a hipótese de votar em Fernando Henrique, na primeira eleição de sua vida. Mas não foge à avaliação da maioria quando analisa a política brasileira: "O que atrapalha o progresso do Brasil é a corrupção", diz ele, que pretende ver sua geração mais feliz do que a de seus pais.

Bruno Marques idealiza a família do ano 2000: "Vamos ser mais liberais na criação de nossos filhos. Vamos ter mais diálogo, não vamos deixar de falar de drogas e sexo. Como acho que a tendência é aumentar o consumo de drogas, acho que os pais deverão preparar mais os filhos sobre este problema e sobre as doenças sexualmente transmissíveis.

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