.......................................................................... Jornal do Commercio, Recife, 15 de março de 1998
  ANO 2000 (II)
Surge um novo conceito de família

Drogas e doenças sexualmente transmissíveis são assuntos muito discutidos entre os jovens. Mas na opinião de Maria Cláudia Viçoso Silva, que nasceu em 1980, os adolescentes não se previnem adequadamente da Aids. "Todos acham que nunca vai acontecer com eles", diz.

Considerando a faixa etária entre 10 e 19 anos, os adolescentes brasileiros são hoje 32.064.631, ou seja, quase um quarto da população. Desse total, 84,9% dos adolescentes do sexo masculino entre 15 e 19 anos eram alfabetizados em 1991, data do último censo do IBGE, enquanto entre as meninas da mesma faixa etária, a percentagem era de 91%.

Entre os jovens de baixa renda, o conceito de família é diferente do que se vê como padrão na classe média brasileira, já que o núcleo familiar que eles conhecem é composto, na maioria das vezes, só de um dos pais ou da avó. "Mas eles pensam em casar, constituir família e ter filhos. O que se constata é que as adolescentes estão engravidando cada vez mais cedo nas famílias de baixa renda. Talvez exista um desejo consciente ou inconsciente nessa gravidez, já que essas meninas sentem que ganham status sendo mães. É também, de certa forma, a afirmação de sua capacidade reprodutiva", afirma Célia Matias.

Ela informa que entre os adolescentes de baixa renda que moram no Morro do Macaco e são assistidos pelos projetos do Nesa só um pequeno número consegue chegar ao Segundo Grau. Por isso, eles têm muito mais dificuldades de conseguir emprego. "A realidade deles é muito dura, cruel e limitadora", lamenta Célia Matias.

NAMORO OU "FICAR" - Ficar é o verbo mais usado nas conversas entre os adolescentes de 18 anos. Eles "ficam" com elas uma noite (que pode significar só beijo na boca ou uma relação sexual) e no dia seguinte não têm mais nenhum compromisso. "Acho errado as meninas beijarem qualquer um, ficarem com qualquer um. Elas não fazem uma seleção", critica Ricardo.

Maria Claudia diz que as meninas querem um namoro e os meninos preferem "ficar". "Com isso, as pessoas estão mais sozinhas. O namoro não existe, só dura um dia. Não se pensa no futuro e numa relação mais duradoura. O casamento é visto como temporário e pode durar pouco", diz. Já os meninos parecem gostar dessa espécie de intimidade sem compromissos. "Assim, os meninos conhecem mais garotas. Mas acho que depois dos 25 anos os jovens procurarão um parceiro fixo para construir uma família", diz Bruno Marques.

Essa família, contudo, terá contornos bastante diferentes da tradicional. O IBGE informa que um quarto dos domicílios brasileiros têm hoje uma mulher como chefe de família, o que significa que esta geração aprendeu a conviver com uma figura materna menos dependente financeiramente. "A tendência é não se valorizar mais o casamento, nem na igreja nem no papel. Hoje, as mulheres não se prendem mais por uma obrigação", avalia Ricardo Bandeira Moraes.

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