-- - -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -Jornal do Commercio - Recife, 19 de março de 1998


JOELMIR BETTING

O risco é menor

A crise da Indonésia, bola da vez, ainda não passou. Reeleito para o sétimo mandato consecutivo de seis anos, o presidente Suharto xinga a mãe do FMI pela televisão e abre mão de um crédito de pai para filho de US$ 40 bilhões. O chanceler da Austrália desembarcou ontem em Washington para tentar uma intervenção dos Estados Unidos no confronto Suharto-FMI. A um passo do abismo, a Indonésia tem massa crítica para colocar todos os países emergentes, mais uma vez, de joelhos. Brasil no meio.

Ah! Se o regime corrupto da Indonésia ficar sob o guarda-chuva do Tio Sam, "capo dei capi", aí a crise da Lei de Murphy escala o costado da Ásia, dá uma beliscada no Japão e na Coréia e desemboca na Rússia, igualmente na marca de pênalti do colapso cambial. Rescaldo do Império Vermelho, a Rússia está reclassificada com crachá de emergente.

E o Brasil? Escapamos ilesos da quebra do México na travessia de 1995 e da quebradeira asiática na travessia de 1997. Nosso déficit externo em conta corrente, porta de entrada da crise importada, virou o ano em 4,4% do PIB, na direção de 6,5%, segundo os cenaristas da catástrofe - Jeffrey Sachs, entre eles. Pois a reversão já se deu. Devemos fechar o primeiro trimestre, o da derrocada verde-amarela, com déficit externo de 4%, a caminho de 3,5%. E com as reservas do Banco Central cravando o maior volume de todos os tempos: US$ 64 bilhões contra US$ 61 bilhões em setembro, antes da lambança asiática, prato quente da mídia coisa-preta.

O problema é que as classificadoras internacionais de riscos - negócio que mais prospera na garupa da turbulência financeira sem bandeira - continuam dando ao Brasil a etiqueta BB, equivalente a uma nota 4,5 na escala 0/10. Um país só é confiável para o investidor forasteiro, segundo essas agências de "rating", quando desfila nota mínima de 5,5.

Pelo sim, pelo não, fundos e bancos estrangeiros deram de apostar no Brasil 98. Os indicadores econômicos permanecem nos eixos da estabilização. A política cambial deixa a banda passar. Os juros "defensivos" (para fora) e "punitivos" (para dentro) estão em queda. A inflação continua em declínio (abaixo de 4% ao ano pela Fipe-USP). As privatizações alcançam os grandes ativos da energia elétrica e das telecomunicações. O Congresso vai sancionando as reformas fatiadas da Previdência e da Administração. E, fechando a roda, o presidente Fernando Henrique Cardoso está com a mão direita na taça da reeleição.

Agência de "rating" esperta poderia dar ao Brasil de abril a graduação 6,0. Bancos e fundos já fazem isso.

Alerta

Na assembléia anual do BID, em Cartagena, o ministro Antonio Kandir propôs um sistema de alerta geral para prevenir ataques especulativos contra países no contrapé cambial. O problema é que o alerta assusta tanto quanto (ou até mais) que o rombo ou o tombo.

Defesa

O ideal seria um sistema de defesa global, com direito a um tripé pactuado: 1) ajuda em bloco ao país em apuros; 2) quarentena para o capital volátil em todos os 178 países do FMI; 3) ajuste interno severo do país assistido.

Pão de ontem

Relatório do BID, distribuído em Cartagena, aponta para o PIB brasileiro um crescimento de 1% em 1998. Ou um produto per capita negativo, rascunho do mapa do inferno. O prognóstico foi montado em novembro, sob a chiadeira do pacote fiscal.

Chutometria

Já que chutar não paga imposto, a coluna sustenta (desde 7 de dezembro) que o PIB brasileiro cravará 2,5% no primeiro semestre e 4,5% no segundo. No ano, 3,5%. Que é a média anual do Plano Real.

 
 

 

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