-- - -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -Jornal do Commercio - Recife, 19 de março de 1998f

RELIGIOSIDADE
Santo renova esperança de agricultores

Da Sucursal

CARUARU - Os agricultores do Agreste passarão o dia de hoje com os olhos voltados para o céu à espera de chuva. O gesto é repetido todos os anos no dia 19 de março, dedicado a São José. De acordo com a tradição, caso as chuvas aconteçam, o inverno será satisfatório. Nem mesmo a possibilidade de uma longa estiagem, que já assusta vários municípios no Agreste, faz com que o agricultor fique desanimado. Agarrado à crença, ele renova a fé através de procissões e rezas para que o santo mande a esperada chuva.

Na zona rural de Caruaru, os barreiros ainda guardam um pouco d'água, acumulada com as últimas chuvas ocorridas em fevereiro deste ano. Apesar dos riachos secos, os agricultores não deixam de lado a tradição. "Hoje é dia de plantar milho para colher no São João", afirma José Heleno Moraes, 74 anos, morador do Sítio Capim, distante 10 quilômetros da cidade. Em sua comunidade está programado um terço na pequena capela que leva o nome de santo, além da queima de uma fogueira, que será acesa às 18h, como manda a tradição.

As cerimônias religiosas não se resumem apenas à zona rural. Na igreja de São José, no bairro Petrópolis, desde o início da semana acontece uma novena em homenagem a São José. No domingo está programada uma procissão para as 16h, percorrendo as ruas do bairro. Consciente de que a chuva é um fenômeno meteorológico, e não concessão do santo, como muitos acreditam, o frei Nunes, da Ordem Franciscana Menor Capuchinho, espera que a ciência se engane sobre o "El Niño". "Tomara que as graças de Deus ultrapassem a ciência", torce o religioso.

Os índices pluviométricos registrados nos últimos nove anos pela Emater, no entanto, contestam a tradição. Nesse período, apenas no ano de 1990, choveu em Caruaru durante o Dia de São José, e, para desespero dos agricultores, neste mesmo ano choveu apenas 335 mm, índice abaixo da média anual de chuvas registradas no Agreste, que chega a 600 mm. Apesar de não terem tido chuva, os anos de 89, 92, 94 e 97 registram índices acima da média pluviométrica da região. "Pelo levantamento que temos, não existe nenhuma base científica que comprove essa crença, mas a fé do nordestino é sempre mas forte", reconhece Fábio César, agrônomo da Emater.


 

 

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