- - - - -- - - - - - - -- - - - - - - - -Jornal do Commercio - Recife, 20 de outubro de 1998

CINEMA
Festival de Brasília consagra Traição

por KLEBER MENDONÇA FILHO
Enviado especial

BRASÍLIA - A 31ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro chegou ao fim na noite de domingo, no espaçoso Cine Brasília, logo após a exibição hors-concours do longa Ação Entre Amigos, de Beto Brant, calorosamente aplaudido ao final. A farta distribuição de prêmios Candango apontou claramente em direção a um cinema brasileiro tecnicamente bem feito e de boa comunicação com o público. O longa Traição, adaptação da obra de Nelson Rodrigues por uma trinca de diretores da produtora carioca Conspiração, levou cinco prêmios, enquanto Amor & Cia, de Helvécio Ratton, ficou com Melhor Filme (prêmio de R$ 50 mil). A boa safra atual de curtas também foi reconhecida, com Candangos importantes entregues a filmes conceitualmente ousados, como os paulistas Amassa Que Elas Gostam e Kyrie - O Início do Caos.

Os cinco prêmios de Traição (estréia nos cinemas em janeiro) parecem ter respeitado a excelente recepção do filme por parte do público, que o elegeu (através de votos em urnas) o Melhor do Festival. A obra pop-modernosa dos conceituados diretores de comerciais, documentários e clipes Arthur Fontes, Cláudio Torres e José Henrique Fonseca levou prêmios de Melhor Momento do Festival (criado pelo caderno de cultura do jornal Correio Braziliense) Destaque de Interpretação (Ludmila Mayer e Francisco Cuoco) e, o mais controvertido, um prêmio individual para Torres, pelo seu episódio Diabólica. Controvertido porque Traição é composto por três episódios, como parte de um todo, e apenas Torres levou (oficialmente) o prêmio.

A competente crônica de época Amor & Cia (estréia no Brasil dia 6 de novembro, e no Recife dia no 13 seguinte) teve seu excelente trabalho de direção de arte reconhecido com um Candango dividido com Kenoma, de Eliane Caffé. Os dois filmes tiveram programações visuais primorosas do casal Clóvis Bueno e Vera Hamburger. Amor & Cia teve levou ainda o prêmio de Melhor Atriz, para uma delicada atuação de Patrícia Pillar, e Kenoma ganhou o de Melhor Ator, para a interpretação preciosa de José Dumont, que foi ovacionado por colegas e pelo público. Mais tarde, ao chegar ao restaurante do Hotel Nacional, Dumont recebeu outra ovação por parte dos presentes.

No território da consolação, foram distribuídos prêmios aparentemente planejados para suprir carências e decepções. Que tal Melhores Letreiros de Abertura, para Kenoma (que tem mesmo excelentes letreiros de abertura), ou Melhor Produção Executiva, o único prêmio do 100% estilizado A Hora Mágica, de Guilherme de Almeida Prado, ou ainda Colagem Antropofágica para Tudo é Brasil, de Rogério Sganzerla. Não são extamente as láureas que você gostaria de estampar no cartaz de divulgação do seu filme.

Aliás, o filme de Sganzerla recebeu um sofrido Prêmio da Crítica, que se dividiu apaixonadamente entre este trabalho de reprocessamento de dados, sons e imagens da passagem de Orson Welles pelo Brasil, com o drama saído da velha escola O Viajante, de Paulo Cezar Saraceni, que levou também o Candango de Melhor Música e o Prêmio Especial do Júri.

CURTAS - A área realmente forte da atual produção brasileira é o curta-metragem, e o público pernambucano já pode esperar uma safra de alto nível no próximo Festival de Cinema do Recife, em março. A experiência áudiovisual Kyrie, com forte influência de David Lynch e inacreditável trabalho de fotografia (Kátia Coelho, premiada com o Candango) e som levou também Melhor Direção, para Debora Waldman. Uma surpresa, pois o filme foi vaiado pelo público, no sábado à noite, que pode ter achado o filme "estranho" demais.

O romance proibido entre uma mulher solitária e um ator de cinema pornô feito de massinha de modelar, em Amassa Que Elas Gostam, de Fernando Coster, ficou com Melhor Atriz (Malu Bierrenbach) e o cobiçado Candango de Melhor Filme, que acompanhou um cheque de R$ 10 mil. "Vai ajudar pagar as dívidas do filme", disse.

Outros filmes que o pernambucano já pode esperar com interesse: o gaúcho Trampolim, de Fiapo Barth (Montagem), o paulista/cearense O Náufrago, de Amílcar Claro (Câmera), o mineiro A Hora Vagabunda (Candangos de Ator e da Crítica) e o paulista Uma História de Futebol, de Paulo Machline (Prêmio do Público). Simião Martiniano - O Camelô do Cinema, representante pernambucano, não ganhou nada, desta vez. O Festival pecou por jogar uma quantidade excessiva de flores em cima de curtas razoáveis do Distrito Federal, como Athos (Especial do Júri) e Negros de Cedro (Melhor Documentário). Uma leve sensação de bairrismo foi sentida por todos.

Durante a cerimônia de entrega, foi lido um manifesto, escrito pelos realizadores de curta-metragem onde foi informado que, dos 12 filmes inscritos, nove foram resultado direto do último concurso de roteiros do Ministério da Cultura, do ano passado, concurso que precisa ser reeditado para que a produção tenha continuidade, coisa que não ocorreu este ano.

16MM - Mais veementes foram as sugestões dos realizadores de filmes em 16mm, que recebem o habitual tratamento de segunda classe em Brasília. As exibições são à tarde, numa sala pequena no Teatro Nacional, longe da agitação e grande público da mostra "nobre" de 35mm, à noite, no Cine Brasília. Esta é uma questão que já foi solucionada pelos Festivais do Ceará e do Recife, mas permanecem problemas sérios em competições como as de Gramado, RioCine e Curitiba. O gaúcho Gustavo Spolidoro, que ganhou os Candangos de Direção e Filme pelo ótimo Velinhas, não perdeu a oportunidade e, ao microfone, exigiu a tela grande do Cine Brasília, na próxima edição do Festival, para os curtas em 16mm.

Um dos pontos que mais chamou a atenção nesta edição de Brasília foi o alto nível técnico de curtas e longas metragens em exibição. Desde o início deste período de retomada (por volta de 1995), filmes e realizadores nacionais parecem estar dando continuidade a um trabalho de aperfeiçoamento técnico na realização dos seus filmes.

Independente do grau de sucesso das suas linhas estéticas e narrativas, longas como Amor & Cia, A Hora Mágica, Kenoma ou Traição exibem uma perfeição técnica que já pode calar a boca de muita gente que diz que "filme brasileiro é mal feito", embora O Viajante (oriundo de uma escola antiga de pensar e fazer cinema) ainda funcione como prova desta tese. Reunidos num festival, estes longas mostram um conjunto apurado de recursos técnicos.

Na área do curta metragem, a impressão positiva é ainda mais forte, uma vez que há ousadia suficiente para igualar o grau de qualidade visto em som e imagem. Viagens de imaginação em curtas como Kyrie, A Hora Vagabunda e O Náufrago provam que a produção de curtas brasileiros é uma das melhores do mundo.


     

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